Fotos divulgadas nesta quinta-feira (27) reforçam a proximidade entre o presidente boliviano Rodrigo Paz e Fernando Cerimedo, operador político da extrema direita latino-americana e aliado da família Bolsonaro.
Os registros mostram o consultor argentino ao lado de Paz na cúpula de Donald Trump que criou o “Escudo das Américas” e dentro da sede do governo da Bolívia.
A presença de Cerimedo no encontro expõe o alinhamento do presidente boliviano, apresentado na campanha que o elegeu como moderado, com os governos radicais de direita reunidos por Trump sob a liderança dos Estados Unidos.
As imagens foram divulgadas pela advogada Nadia Beller, ex-companheira de Cerimedo. Ela sobreviveu a uma emboscada na qual foi atingida por três tiros.
A Promotoria boliviana acusa o argentino de ter enviado os homens responsáveis pelo ataque, e a Justiça determinou sua prisão preventiva por 180 dias por tentativa de feminicídio.
A prisão do consultor e o depoimento de Nadia deram origem a novas investigações sobre suas operações eleitorais, seus negócios e suas relações políticas em diferentes países da América Latina.
Fotos contradizem versão de Paz
Os registros vieram a público um dia depois de Paz tentar reduzir a importância de Cerimedo em seu governo. O presidente admitiu ter recebido ajuda do argentino, mas negou a existência de contrato ou relação direta de trabalho.
“Nunca houve um contrato, nunca houve uma relação de trabalho direta. O senhor Cerimedo jamais teve autorização para representar este boliviano, a Presidência, o governo ou a minha família”, declarou Paz na quarta-feira (26).
Cerimedo confirmou, porém, que era colaborador do presidente. “Meu papel como colaborador do presidente não me conferiu nenhuma autorização ou poder para agir ou representar a família do presidente”, afirmou em carta divulgada por sua defesa.
Uma das fotos mostra Cerimedo ao lado de Paz e do ministro da Presidência, Fernando Aramayo, durante a cúpula realizada em março, em Doral, na Flórida. “Com Rodrigo Paz no Escudo das Américas”, escreveu Nadia.
A outra imagem, datada de 17 de maio, mostra Cerimedo em uma sala com uma bandeira boliviana. Segundo a advogada, tratava-se do escritório ocupado por ele no 23º andar da Casa Grande del Pueblo, em La Paz.
Cerimedo passou a colaborar com Paz durante a eleição presidencial boliviana, depois que o candidato chegou ao segundo turno. As novas imagens mostram que ele manteve acesso ao governo após a campanha e acompanhou o presidente em uma agenda internacional.
Cúpula reuniu aliados de Trump
Como mostrou o Vermelho em março, Trump reuniu líderes da direita latino-americana e caribenha na Flórida e anunciou o “Escudo das Américas”, coalizão militar integrada inicialmente por 17 países.
Trump apresentou a coalizão como uma iniciativa contra o narcotráfico. O acordo prevê compartilhamento de informações, localização de integrantes de cartéis, treinamento de forças de segurança e emprego de poder militar.
A declaração do encontro defendeu o uso de “força militar letal” contra grupos apontados por Washington como ameaças. Trump também cobrou o combate a “influências estrangeiras hostis”, em referência à presença da China na América Latina.
A iniciativa integra a chamada “Doutrina Donroe”, formulada pelo governo Trump para reforçar o controle dos Estados Unidos sobre o continente. A presença de Cerimedo mostra que o operador digital da extrema direita acompanhava Paz também nos espaços internacionais dessa articulação.
Além de trabalhar pela eleição do presidente boliviano, Cerimedo participou da campanha de Javier Milei na Argentina e manteve relações próximas com Eduardo Bolsonaro. No Brasil, difundiu informações falsas contra as urnas eletrônicas após a vitória de Lula em 2022 e foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito sobre a tentativa de golpe.
Cerimedo é investigado por proteção ao narcotráfico
A divulgação das fotos coincide com a abertura de uma investigação sobre a possível participação de Cerimedo em um esquema de proteção a voos ligados ao narcotráfico na Bolívia.
A Promotoria do departamento de Beni apura se aeronaves utilizadas em voos irregulares em Santa Ana de Yacuma recebiam cobertura para transportar substâncias controladas.
“O caso aberto na Unidade de Substâncias Controladas trata da proteção que estaria sendo oferecida no município de Santa Ana a voos irregulares. Estaria sendo dada cobertura a aeronaves supostamente vinculadas ao tráfico de substâncias controladas”, afirmou o procurador Alexander Mendoza.
Cerimedo ainda não foi formalmente acusado nessa frente. A investigação busca esclarecer sua participação e o possível envolvimento de agentes públicos.
A suspeita contrasta com o discurso da cúpula de Trump. O encontro justificou a militarização da América Latina pelo combate aos cartéis, enquanto um colaborador de Paz presente na reunião passou a ser investigado por possível proteção a operações do narcotráfico.
Prisão revelou dinheiro e estrutura de robôs
Cerimedo está preso preventivamente por 180 dias no presídio de Palmasola, em Santa Cruz de la Sierra. Ele nega ter ordenado o ataque contra Nadia.
Buscas em endereços ligados ao argentino encontraram mais de US$ 40 mil e equipamentos utilizados para operar milhares de contas automatizadas nas redes sociais. Ele também é investigado por enriquecimento ilícito e violência doméstica.
Cerimedo já admitiu utilizar robôs para influenciar os algoritmos das plataformas. Nadia afirma que a estrutura atuou em campanhas eleitorais no Brasil, na Argentina, na Bolívia, no Chile e em Honduras.