Por Sara Goes
As eleições do Ceará têm uma relação particular com os extremos. As campanhas acumulam histórias pessoais, rupturas partidárias, antigas alianças e ressentimentos que sobrevivem às mudanças de legenda. Há também uma expectativa quase física de que alguma coisa será resolvida diante das urnas. O resultado costuma carregar uma carga emocional desproporcional ao número de votos. Em certos momentos, a eleição funciona como uma espécie de acerto de contas coletivo. O Ceará chega ao voto nervoso, dividido, mobilizado, e sai dele com personagens políticos inteiros deslocados de lugar.
A eleição de 2026 tem essa característica. Ciro Gomes, uma das figuras mais longevas da política brasileira, terminou derrotado na disputa pelo governo do Ceará. Luizianne Lins, depois de deixar o PT e assumir uma candidatura pela Rede, foi eleita senadora com 2.822.806 votos, tornando-se a mulher mais votada da história eleitoral do Estado. A dimensão desse resultado não pode ser reduzida à aritmética eleitoral. Luizianne chegou ao Senado depois de uma longa disputa sobre seu lugar na política cearense, em um processo no qual a estrutura partidária que durante décadas sustentou sua trajetória deixou de oferecer a mesma resposta.
A candidatura sobreviveu fora da lógica tradicional das grandes estruturas. Foi para a rua e para as redes. Passou pelos grupos de mulheres, pelas redes pessoais e por militantes que organizaram sua própria campanha com uma disciplina que impressiona. Gente que transformou uma candidatura em tarefa cotidiana, sem esperar que uma direção partidária determinasse cada movimento.
O grupo Mulheres com Luizianne Senadora é uma das expressões mais concretas dessa mobilização. São quase 500 mulheres reunidas em diferentes pontos do Ceará, com participação também de mulheres que vivem fora do Estado e até fora do Brasil. A organização nasceu de uma disposição política que não dependia da estrutura convencional de campanha. Mulheres chamando outras mulheres, organizando atividades, distribuindo material, conversando com eleitoras e construindo uma rede que se ampliou para além das fronteiras do Ceará. Até uma organização vietnamita passou a integrar esse circuito de apoio.
Esse tipo de mobilização ajuda a compreender a força da votação de Luizianne. Uma candidatura pode ter tempo de televisão, fundo eleitoral, partidos aliados e uma máquina de campanha. Outra pode ter gente. Quando essa gente consegue transformar presença, conversa, material produzido artesanalmente e até bonecas de pano em voto numa escala histórica, a eleição deixa de ser apenas uma disputa entre estruturas partidárias. Passa a ser também uma disputa sobre quem consegue produzir pertencimento político e transformar relações pessoais em organização eleitoral.
O Ceará resolveu duas contas na mesma eleição. Uma delas passou pela derrota de Ciro. A outra passou pela consagração de Luizianne. Durante décadas, a política cearense foi atravessada pela presença dos Ferreira Gomes e pelo grupo político que se formou em torno deles. Ciro ocupou posições de enorme centralidade nesse campo. Em 2026, contudo, terminou derrotado no Estado em uma eleição na qual Luizianne, adversária histórica de seu grupo político, alcançou uma votação que nenhuma outra mulher havia conseguido na história eleitoral cearense.
A eleição de Luísa Cela acrescenta outra camada a essa história. Filha de Izolda Cela, ela chegou à Câmara dos Deputados em uma campanha que não pode ser completamente separada da trajetória política da mãe. Em 2022, Izolda ocupava o governo do Ceará e pretendia disputar a reeleição. A decisão do PDT, articulada por Ciro Gomes, de lançar Roberto Cláudio produziu uma ruptura profunda no grupo que havia governado o Estado durante anos. Izolda ficou fora da disputa em uma tarde traumática, episódio que marcou uma das rupturas decisivas da política cearense recente.
Quatro anos depois, Luísa Cela chega ao Congresso. Chamar isso de vingança seria reduzir o significado político do episódio. Reparação traduz melhor o sentido dessa passagem. Não porque Luísa esteja pagando uma dívida em nome da mãe, mas porque sua eleição reintroduz na política institucional uma família política que havia sido retirada da disputa pelo governo estadual em uma decisão que marcou profundamente o campo político cearense. A eleição de Luísa, que pouco dependeu da exploração da imagem da mãe, não é uma extensão da biografia de Izolda. Mas, em um Estado onde relações políticas permanecem próximas e rupturas dificilmente desaparecem por completo, a memória também participa da eleição.
O resultado de 2026 permite enxergar uma mudança mais profunda no papel das mulheres dentro do campo progressista cearense. Luizianne não precisou de uma autorização masculina para reconstruir sua candidatura. Luísa chegou ao Congresso depois de uma disputa marcada pela trajetória política de Izolda e por uma base social construída em torno da cultura e da participação das mulheres. A mobilização em torno de Luizianne foi conduzida por centenas de mulheres que criaram uma rede própria de campanha. O eleitorado feminino deixou de aparecer apenas como segmento a ser conquistado e passou a aparecer como força capaz de organizar uma candidatura em um Estado onde, durante muito tempo, mulheres foram chamadas para ampliar palanques, preencher chapas e produzir imagens de diversidade.
Uma rede de mulheres descobriu que podia eleger uma mulher contra cálculos que pareciam previamente definidos. Agora Luizianne terá de levar essa rede para dentro de um Senado que não a espera com gentileza. Será uma casa hostil para uma parlamentar que chega carregando uma trajetória de enfrentamento político, da defesa da Palestina ao confronto com grupos que há décadas disputam o comando da política cearense.
A mulher que enfrentou os donos da política do Ceará chegou ao Senado sem a estrutura partidária que durante décadas sustentou sua trajetória. Chegou porque uma rede decidiu que sua candidatura não dependia mais da autorização de quem tradicionalmente controlava os caminhos da política.