
O artigo de Flávia Oliveira, em O Globo deste sábado, merece circular em todos os espaços. É sobre a pergunta que pelo menos metade do Brasil faz desde ontem e que está no título do texto:
“Por que eleitor demorou a saber de investigação sobre Flávio?”
Por quê? Flávia, uma das mais importantes jornalistas da TV brasileira hoje, faz a pergunta que sua colega Malu Gaspar jamais faria. Por que os informantes de dentro do STF e da Polícia Federal não avisaram a imprensa?
Como a investigação sobre o envolvimento de Flávio Bolsonaro com o ‘filme’ (usado na verdade para lavagem de dinheiro) foi mantida em segredo desde julho?
Flávia Oliveira: “Pq a sociedade brasileira só soube disso hoje? 11 de setembro. É relevante pra sociedade saber que um senador da República, vice-líder nas intenções de voto, tá sendo investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.”
pic.twitter.com/7QnOZGbNyx— Sérgio Santos (@ZAMENZA) September 12, 2026
Abaixo, trechos do artigo de Flávia Oliveira no Globo:
Eleitorado só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois
[…]
O ministro André Mendonça […] autorizou a abertura de investigação em 22 de julho, três dias antes da convenção partidária que tornou o primogênito de Jair Bolsonaro candidato à Presidência. O eleitorado brasileiro, contudo, só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas de intenção de voto no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois. Por quê?
Não fosse o enfrentamento entre Mendonça e o colega Alexandre de Moraes, relator da ação penal que condenou por golpe de Estado o ex-presidente da República, o país desconheceria uma variável relevante na disputa eleitoral de 2026.
[…]
Seis meses atrás, as relações de Flávio não eram conhecidas. Tornaram-se públicas pelo jornalismo independente. O site The Intercept divulgou em 13 de maio o áudio em que o senador, eleito em 2018 com quase 4,5 milhões de votos, cobra do então banqueiro o dinheiro para financiar a cinebiografia do pai.
Ao longo dos meses, muitos contatos, investigações e operações da PF enredando políticos ao Master vieram à tona. Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA), ACM Neto (União-BA), Cláudio Castro (PL-RJ) são exemplos.
[…]
Foi revelado que o filho mais velho do presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva, é alvo de três inquéritos derivados do escândalo do INSS por suspeita de tráfico de influência no setor público. O Brasil soube de tudo isso. Só não fora informado, até ontem, que o presidenciável do PL é investigado.
[…]
Flávio tem desviado das perguntas sobre a relação com Vorcaro, alegando acordo privado para o financiamento do filme “Dark horse”, como se fosse natural um senador da República pedir patrocínio a um banqueiro, como se fosse um produtor cultural a um mecenas.
A informação de que ele é alvo de inquérito não poderia ser ocultada da sociedade brasileira. Mas foi. É direito do eleitor ter todas as informações disponíveis sobre cada candidatura, seja para presidente, senador, deputado federal ou estadual. Sonegar procedimentos jurídico-policiais que afetam o voto também é forma de atacar a democracia.
Impressiona nesse caso é que saberíamos de nada, não fosse a pressão coletiva por quebra total do sigilo sobre o caso Master, em decorrência do enfrentamento entre Mendonça e Moraes. O Brasil precisou de uma crise que quase implodiu o STF para saber do procedimento investigatório contra Flávio.
[…]
Ao longo da semana, Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União, indicado por Jair Bolsonaro ao STF por ser “terrivelmente evangélico”, homologou ao menos uma colaboração premiada igualmente relevante para o caso envolvendo a cinebiografia do ex-presidente e Vorcaro.
[…]
Foi mais democracia, não menos, que permitiu ao Brasil saber da investigação contra o filho de Bolsonaro. Democracia é o lugar em que a sociedade se manifesta, reivindica, manda, e o poder recua, age, obedece. Autoritarismo é o ambiente em que o agente público está livre para interferir, dissimular, negar, transgredir, mentir, atacar. É como atua a extrema direita brasileira.