Historiador relaciona o avanço de Donald Trump à perda de hegemonia norte-americana, às divisões internas do MAGA e à disputa pelo controle das tecnologias digitais
Da Redação
Os Estados Unidos atravessam uma crise que ultrapassa as disputas entre democratas e republicanos. A perda relativa de influência econômica, o aumento da desigualdade, a fragilidade da representação política e a competição tecnológica com a China formam um cenário no qual Donald Trump aparece como expressão de uma sociedade que se recusa a aceitar a redução do poder norte-americano.
A avaliação foi apresentada pelo historiador Fernando Horta durante o programa Código do Poder, exibido pelo canal Código Aberto neste domingo, 30 de agosto. Com participação de Reynaldo Aragon, Luís Mauro Filho e Luís Delcides, a conversa examinou as contradições internas dos Estados Unidos e os efeitos dessa crise sobre o Brasil, a América Latina e a ordem internacional.
“A pandemia matou o século XX”, afirmou Horta ao explicar a passagem acelerada de uma sociedade predominantemente analógica para um ambiente em que relações econômicas, políticas e sociais dependem de plataformas digitais. Para ele, a pandemia não representou apenas uma crise sanitária. O período encerrou uma forma de organização da vida e obrigou milhões de pessoas a ingressarem em sistemas digitais sem preparação adequada.
A discussão sobre o declínio norte-americano, segundo o historiador, precisa ser tratada com cautela. Há mais de duas décadas, pesquisadores apontam sinais de enfraquecimento dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, o país continua capaz de interferir na economia internacional, impor sanções, controlar tecnologias e desenvolver novos meios de acumulação de riqueza.
“Todo ano a gente brinda a derrocada, mas a derrocada não vem”, ironizou Horta. A permanência dessa capacidade de intervenção levou parte dos pesquisadores a abandonar a ideia de uma queda imediata e considerar a possibilidade de uma transição prolongada, marcada pela coexistência conflituosa entre Estados Unidos e China.
Trump, na avaliação do historiador, representa a recusa dessa coexistência. “Eu acho que Donald Trump agora resolveu dobrar a aposta e dizer o seguinte: ‘Se eu for para o fundo, vou levar todo mundo comigo’”, afirmou.
Trump como consequência da crise
Horta rejeitou a interpretação de que Trump seja a origem das transformações vividas pelo país. Em sua análise, o republicano é resultado de uma decisão política e social mais ampla. Diante da possibilidade de negociar uma redistribuição parcial do poder global com a China, uma parcela relevante da sociedade norte-americana optou pelo confronto.
“Trump é a consequência desse processo, e não a causa dele. Parece muito claramente que a sociedade americana está dizendo: ‘Nós não vamos entregar poder’”, explicou.
Essa reação se manifesta por meio de guerras comerciais, pressões diplomáticas, ameaças militares e tentativas de controlar recursos estratégicos. Também produz efeitos internos, com ataques às instituições eleitorais e dificuldades crescentes para a construção de uma alternativa política capaz de mobilizar os setores descontentes.
O historiador apontou que as transformações econômicas iniciadas nas últimas décadas do século XX atingiram principalmente a antiga classe média industrial. A transferência de unidades produtivas para outros países, combinada com a financeirização da economia, reduziu empregos e ampliou a precariedade em regiões que antes concentravam parte importante da indústria norte-americana.
Trump ocupa esse espaço ao prometer recuperar empregos, limitar importações e restabelecer uma ideia de grandeza nacional. O problema, segundo Horta, é que as medidas adotadas aceleram os conflitos sem enfrentar as causas da crise.
“Como ele não consegue mudar, tudo o que consegue fazer é avançar, aumentar a velocidade para ver se atropela o que tem pela frente”, resumiu.
Democratas perderam capacidade de representação
A crise também alcança o Partido Democrata. Para Horta, a legenda deixou de representar setores importantes das grandes cidades, ao mesmo tempo que não conseguiu construir uma resposta política capaz de enfrentar Trump.
“As elites das grandes cidades não se veem mais representadas pelos democratas, porque os democratas viraram esse partido de cargos no poder. Também não se sentem representadas por Donald Trump, porque ele vai cada vez mais em direção à extrema direita”, observou.
Esse vazio dificulta a mobilização de forças sociais interessadas em mudanças profundas. O Partido Democrata, segundo ele, interditou alternativas internas que poderiam ter disputado o eleitorado afetado pela crise econômica.
Horta citou o senador Bernie Sanders, derrotado nas prévias democratas, como um nome que poderia ter apresentado uma alternativa ao trumpismo. Também mencionou Barack Obama, impedido constitucionalmente de disputar um terceiro mandato.
“Eles não têm alternativa, não conseguem se organizar. É uma herança da Guerra Fria. Eles se interditaram”, declarou.
O historiador chamou atenção ainda para as dúvidas em torno das eleições legislativas de novembro. Segundo ele, interlocutores nos Estados Unidos demonstram preocupação com iniciativas do governo dirigidas ao sistema de votação. Embora pesquisas indiquem perda de apoio de Trump, permanece a incerteza sobre as condições em que o processo eleitoral será realizado.
“São tantas ações contra o sistema de votação norte-americano que os próprios americanos estão preocupados. Eles dizem: ‘Não sei o que vai acontecer nessas eleições’”, relatou.
As disputas dentro do MAGA
A aparente unidade do movimento Make America Great Again, o MAGA, também esconde conflitos. A coalizão reúne nacionalistas, supremacistas brancos, conservadores religiosos, defensores de Israel, libertários e grupos ligados às grandes empresas de tecnologia.
Para Horta, Trump mantém essas correntes reunidas porque ainda concentra dinheiro, votos e capacidade de comando. Sua eventual saída pode abrir uma disputa entre lideranças que hoje permanecem sob a mesma identidade política.
“Na hora em que Trump sair, esse MAGA se desfaz completamente. E isso já está acontecendo internamente”, avaliou.
O secretário de Estado Marco Rubio, o secretário de Defesa Pete Hegseth e o vice-presidente disputariam espaço para assumir o comando futuro do movimento, enquanto Trump estimula a possibilidade de permanecer no poder ou transferir sua influência a um integrante da família.
Essa unidade, portanto, depende da autoridade pessoal de Trump e não de um consenso estável. As divergências sobre Israel, política externa, imigração, protecionismo e atuação das empresas tecnológicas podem se tornar mais abertas quando o atual líder deixar de exercer esse papel.
O mundo digital e a concentração do poder
Boa parte da crise descrita no programa está relacionada à transformação tecnológica. Horta diferenciou as tecnologias analógicas do século XX das redes digitais que organizam o século XXI.
No modelo analógico, explicou, o desenvolvimento tecnológico permitia concentrar conhecimento e poder por meio de patentes, instalações industriais e controle estatal. No ambiente digital, a informação circula com maior velocidade, mas as plataformas que administram essa circulação ampliam sua capacidade de vigiar comportamentos e influenciar decisões.
“Digital é controle. O que nós temos que decidir é quem controla o quê. Neste momento, estamos passando a vez e deixando as big techs controlarem”, afirmou.
O acesso a redes sociais, serviços bancários, transporte por aplicativos e plataformas de vídeo foi incorporado ao cotidiano sem que governos construíssem políticas suficientes de educação digital. Pessoas idosas foram particularmente afetadas.
Horta citou o conceito de “economia prateada” para defender políticas de inclusão destinadas à população com mais idade. O abandono desse segmento teria facilitado sua aproximação com circuitos de comunicação controlados pela direita.
“Nós não temos programas de letramento digital para quem tem mais de 40 ou 45 anos. Infelizmente, as pessoas no governo não entenderam que letramento digital e letramento informacional são coisas diferentes”, criticou.
Segundo ele, o Uruguai desenvolveu programas específicos para essa população e conseguiu ampliar o acesso a redes informacionais diferentes daquelas dominadas pela extrema direita. No Brasil, as campanhas ainda tentam disputar esse eleitorado durante o período eleitoral, quando tempo e recursos são limitados.
Fragilidade digital da esquerda
O historiador também fez críticas à atuação digital dos partidos progressistas brasileiros. Para ele, parte das direções partidárias continua tratando a internet como uma extensão dos meios tradicionais, destinada apenas à publicação de peças de propaganda.
“Os caras acham que campanha digital é como campanha dos anos 1990 e que a internet é um outdoor: você vai lá, publica e deixa parado. Eles não entenderam o que é o digital”, disse.
Horta afirmou que uma estratégia digital exige mapear redes, compreender a circulação das mensagens, medir o alcance real e identificar a linguagem adequada para cada segmento. Sem esses dados, partidos e campanhas ficam dependentes das plataformas e das decisões de seus algoritmos.
Ele mencionou a atuação de Felipe Neto no segundo turno de 2022 como um exemplo de intervenção organizada no campo progressista. Na avaliação de Horta, o influenciador dedicou sua estrutura à comunicação eleitoral em um momento no qual a campanha enfrentava dificuldades para responder às redes bolsonaristas.
Para 2026, o historiador demonstrou preocupação com a capacidade digital da candidatura de Flávio Bolsonaro. Segundo sua análise, a equipe adversária possui experiência em campanhas digitais e pode ampliar sua ação na passagem do primeiro para o segundo turno.
“Se a eleição fosse analógica, eu não tenho dúvida de que Lula já tinha colocado no bolso. Mas ela não é”, alertou.
O futuro do PT no ambiente digital
Horta foi especialmente crítico à resistência do PT diante das mudanças tecnológicas. Para ele, lideranças formadas no mundo analógico tratam a informação como um recurso que deve permanecer concentrado em estruturas partidárias, gabinetes e redes locais.
No ambiente digital, argumentou, o poder depende da capacidade de compartilhar informações e integrar comunidades distintas. A manutenção de estruturas fechadas reduz o alcance político e dificulta a renovação.
“O PT vai existir daqui a 20 anos? Não, se não entender o mundo digital. Vai ser derrubado nesse processo”, afirmou.
O historiador reconheceu a inteligência e a experiência de dirigentes como Gleisi Hoffmann e Paulo Pimenta, mas considerou que suas práticas continuam condicionadas por uma compreensão analógica da política.
Ele também citou Renato Freitas e Luizianne Lins entre os nomes que demonstram maior proximidade com o debate tecnológico. Ainda assim, avaliou que iniciativas individuais enfrentam resistências internas e não modificam, por si mesmas, o funcionamento das estruturas partidárias.
Brasil entre Estados Unidos e China
A disputa tecnológica tem efeitos diretos sobre o Brasil. Minerais críticos, infraestrutura digital, centros de dados e informações mantidas por órgãos públicos adquiriram importância estratégica.
Horta avaliou que o Presidente Lula terá papel relevante na tentativa de construir uma posição brasileira menos dependente dos Estados Unidos. Isso não significa adotar uma postura militarizada ou romper relações econômicas, mas ampliar a capacidade de negociação com diferentes parceiros.
Ele reconheceu que a proximidade geográfica dos Estados Unidos limita as possibilidades brasileiras de confronto. Também destacou que boa parte das reservas brasileiras permanece denominada em dólar, o que exige prudência nas decisões geopolíticas.
“O Presidente Lula vai ter um papel de mostrar que é possível ter vida geopolítica e econômica ativa sem os Estados Unidos”, afirmou.
Na avaliação do historiador, um eventual novo mandato deverá enfrentar o desafio de pensar o desenvolvimento brasileiro sem depender da influência norte-americana como referência permanente. Esse caminho exige investimentos estatais em tecnologia, proteção dos dados públicos e controle nacional de infraestruturas essenciais.
O programa também discutiu o interesse estrangeiro nos minerais críticos brasileiros e a instalação de centros de dados no país. Os participantes defenderam a construção de capacidade computacional própria, mas ressaltaram que esses empreendimentos demandam grande quantidade de energia e podem provocar impactos ambientais nas comunidades onde são instalados.
A defesa da soberania digital, portanto, não pode se limitar à atração de empresas estrangeiras. Ela envolve capacidade pública de pesquisa, armazenamento de dados e definição das regras que orientam o uso dessas tecnologias.
A bolha da inteligência artificial
O debate abordou ainda a expectativa de que uma possível crise financeira no setor de inteligência artificial provoque o desaparecimento dessas tecnologias. Reynaldo Aragon comparou esse processo às bolhas ferroviária do século XIX e das empresas pontocom no início dos anos 2000.
Nos dois casos, empresas quebraram e investidores perderam recursos, mas as infraestruturas permaneceram. Trilhos, redes, servidores e cabos de fibra óptica foram incorporados por grupos maiores, favorecendo uma nova concentração empresarial.
Horta concordou com a comparação. “Estoura a bolha, mas os trilhos continuam lá”, sintetizou.
Uma crise na inteligência artificial poderia atingir primeiro universidades, empresas pequenas, iniciativas públicas e projetos de código aberto. Corporações que já possuem capital, centros de dados, contratos e acesso a chips teriam melhores condições de sobreviver e adquirir estruturas concorrentes.
A expectativa de que o mercado resolva sozinho essa disputa pode ampliar a dependência dos países periféricos. Para os participantes, o investimento estatal será decisivo para impedir a interrupção de pesquisas e assegurar que o Brasil mantenha alguma autonomia tecnológica.
Ao final, Horta defendeu a proteção dos bancos de dados administrados por instituições públicas, com atenção especial ao IBGE e à Dataprev. Esses acervos reúnem informações sensíveis e despertam o interesse de plataformas interessadas em transformá-las em ativos comerciais.
A crise dos Estados Unidos, segundo a análise apresentada no Código do Poder, não significa que o país esteja prestes a perder sua capacidade de intervenção. O cenário combina fragilidade interna, controle tecnológico e reação agressiva à ascensão de novos polos de poder. Para o Brasil, compreender essas mudanças será necessário para proteger recursos, eleições e informações estratégicas.
Referências citadas no programa
- O longo século XX, de Giovanni Arrighi
- Era dos extremos: o breve século XX, de Eric Hobsbawm
- Conversações, de Gilles Deleuze
- 300, dirigido por Zack Snyder, 2006
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