“A literatura é uma resistência”

Escritora, atriz e pesquisadora Luiza Pontes discute os obstáculos enfrentados por autores e grupos teatrais para produzir, circular e alcançar novos públicos no Ceará

Da Redação

Publicar um livro, manter uma peça em cartaz e conquistar espaço nos equipamentos culturais são etapas atravessadas por dificuldades financeiras, exigências burocráticas e pouca divulgação. Para a atriz, escritora, diretora teatral, produtora e pesquisadora Luiza Pontes, esses obstáculos ajudam a explicar por que parte da produção contemporânea do Ceará ainda permanece distante dos leitores e espectadores.

A análise foi apresentada no programa Café com Democracia, exibido originalmente pela TV Atitude Popular na sexta-feira, 28 de agosto. Em entrevista a Luiz Regadas, Luiza falou sobre literatura infantil, formação de leitores, trabalho coletivo, ocupação dos espaços públicos e condições de produção no teatro cearense.

Professora há mais de 20 anos na rede pública, Luiza também relacionou sua atuação artística às experiências vividas na escola. Ela defendeu uma aproximação maior entre escritores, professores, estudantes, companhias de teatro, editoras independentes e políticas culturais.

“A literatura é uma resistência, assim como o teatro é uma resistência”, afirmou.

Publicar ainda depende da capacidade de financiar o próprio livro

Luiza identificou o custo da publicação como um dos primeiros obstáculos enfrentados pelos autores independentes. Uma pessoa pode ter um texto concluído, mas ainda precisa pagar revisão, projeto gráfico, ilustração, impressão e divulgação.

Em 2024, a autora lançou os livros infantis Uma galinha chamada Teresa e As aventuras de Laura e a lagartixa. O primeiro título, publicado pela Editora Karuá, integrou programações literárias realizadas no Ceará, entre elas um lançamento coletivo voltado ao público infantil. A obra também aparece no registro profissional da autora no Mapa Cultural do Ceará e na programação da Biblioteca Pública Estadual. Veja o registro da BECE.

“Eu tenho uma ideia, tenho um produto, mas vou precisar de apoio financeiro para lançar o meu trabalho”, explicou.

Na literatura infantil, o investimento pode ser ainda maior porque a ilustração participa da construção narrativa. Texto e imagem precisam manter uma relação coerente, capaz de comunicar a proposta da autora aos leitores.

“O ilustrador é uma espécie de editor. Se ele não captar a minha ideia, o livro vai ficar desvinculado daquilo que eu quis fazer”, disse.

Autores iniciantes também enfrentam a falta de contato com editoras e profissionais do setor. Mesmo os editais públicos, que poderiam diminuir as barreiras financeiras, exigem conhecimentos técnicos e documentação específica.

Luiza mencionou a necessidade de Microempreendedor Individual, CNPJ ou representação jurídica em determinadas seleções. Para quem está publicando pela primeira vez, compreender regulamentos, organizar documentos e elaborar um orçamento pode se transformar em uma barreira anterior à própria avaliação artística.

“Até para participar de um edital, eu, enquanto artista, preciso ter um MEI ou um CNPJ. Preciso de alguém que me represente juridicamente. Somente como escritora, muitas vezes não consigo chegar às vias de fato”, afirmou.

Livros permanecem nas gavetas por falta de condições

A dificuldade financeira não significa falta de produção. Luiza conhece autores com poemas, contos e outros textos concluídos que permanecem sem publicação.

“Tem colegas que escrevem muito bem, têm poesias e poemas, mas engavetam. O tempo passa”, lamentou.

Para a escritora, transformar a publicação em uma prioridade exige persistência, embora essa cobrança não possa esconder as condições materiais envolvidas. Quem possui renda instável ou trabalha em jornadas extensas dispõe de menos tempo e dinheiro para se dedicar à produção.

“Você tem que focar nisso como uma prioridade na sua vida. Não pode cruzar os braços porque é caro. Precisa procurar alternativas”, defendeu.

Feiras, bienais, coletivos e associações ajudam a diminuir o isolamento. Ao dividir espaços, despesas e estratégias de divulgação, escritores independentes conseguem apresentar seus trabalhos a públicos que dificilmente alcançariam sozinhos.

Visibilidade depende de circulação e trabalho coletivo

O Ceará possui uma tradição literária reconhecida, mas autores contemporâneos ainda têm dificuldade para conquistar leitores. Luiza associou essa limitação à logística de distribuição, ao espaço reduzido na divulgação cultural e à concentração do mercado editorial.

“A questão é a logística, a propaganda e a possibilidade de ter divulgação”, resumiu.

Ela participa de grupos de autores independentes que negociam presença em feiras e bienais. Nesses eventos, o custo dos estandes e a concorrência por espaço podem excluir escritores com menor capacidade financeira.

A atuação coletiva aumenta a possibilidade de circulação. Autores podem compartilhar mesas de lançamento, organizar coletâneas e promover leituras públicas.

“Quando você trabalha em conjunto, tem um peso maior. Eu sempre acreditei na luta coletiva”, declarou.

Luiza integra o Coletivo Lamparinas, dedicado à literatura infantil e infantojuvenil. O grupo completou três anos e recebeu uma homenagem na Câmara Municipal de Fortaleza, por iniciativa da vereadora Adriana Pedrosa.

O coletivo reúne escritoras adultas, crianças e adolescentes. Entre os projetos apresentados durante a entrevista está uma coletânea com poemas e textos destinados ao público infantil, acompanhados por ilustrações produzidas pelos integrantes mais jovens.

“Temos crianças e adolescentes que também estão escrevendo e que vão ilustrar a coletânea. Isso é muito importante”, contou.

Ceará literário não se limita aos nomes consagrados

Luiza afirmou que a produção literária cearense precisa ser apresentada de maneira mais ampla nas escolas e nos espaços culturais. Autores consagrados são indispensáveis, mas não representam sozinhos a diversidade de obras produzidas no estado.

“Nós não somos só Rachel de Queiroz. Não somos só Patativa do Assaré. Temos outros autores”, afirmou.

A escritora citou Socorro Acioli como uma autora trabalhada com estudantes da escola pública. Uma professora de geografia propôs a leitura de uma obra em formato digital, utilizando o telefone celular como ferramenta pedagógica.

A experiência partiu de uma constatação: proibir ou ignorar o celular não resolve a relação dos jovens com as plataformas. A escola pode utilizar o aparelho para aproximá-los de livros e autores.

“Já que eles gostam tanto do celular, vamos usar o celular de forma educacional”, relatou.

Para Luiza, as novas gerações mantêm interesse pela literatura, embora estabeleçam outras formas de contato com o texto. A presença das telas não elimina o livro impresso. Em bienais, os espaços ligados a títulos populares nas redes sociais costumam receber grande público.

“Essa geração é muito voltada para a mídia, mas isso não quer dizer que não goste do livro físico”, observou.

Popularidade nas redes influencia o mercado cultural

A circulação nas plataformas digitais interfere na escolha de atrações, convidados e elencos. Pessoas com muitos seguidores podem ser chamadas para projetos devido à capacidade de atrair público, mesmo quando possuem pouca experiência na linguagem artística envolvida.

“Se você está na mídia, vende. Se não está, não significa que o trabalho não seja bom, mas precisa de um empurrão”, disse.

Segundo Luiza, produtores de peças e eventos procuram influenciadores como estratégia de divulgação. O número de seguidores passa a funcionar como argumento comercial.

“Às vezes, chamam alguém porque é um impulsionador digital, porque tem milhares de seguidores e pode atrair público”, afirmou.

A visibilidade, entretanto, não serve como garantia de qualidade. Um artista com trajetória consistente pode ter audiência reduzida nas plataformas, enquanto uma personalidade digital consegue ocupar espaços devido à popularidade.

Luiza não defendeu o afastamento das redes. Para ela, os artistas precisam aprender a utilizá-las sem subordinar o valor de sua produção aos indicadores das plataformas.

“Por mais que você não queira, precisa ser visto. Precisa entrar nessa mídia e contar também com o boca a boca”, declarou.

Teatro exige dedicação e condições materiais

A trajetória teatral de Luiza inclui atuação, direção e produção. Ela integra diferentes coletivos, entre eles a Companhia Dhmari de Teatro, o Grupo Imagens, o Pregando Peça e o Grupo Quimeras de Teatro.

Ao falar sobre o trabalho em cena, a atriz descreveu o compromisso assumido por quem integra uma montagem. Problemas pessoais e dificuldades emocionais não suspendem automaticamente uma apresentação.

“O teatro e a literatura são duas artes muito exigentes no sentido de que você precisa se dedicar. Você assumiu o compromisso, então precisa subir ao palco”, afirmou.

Essa exigência envolve a construção do personagem. Ao entrar em cena, o ator precisa trabalhar a partir da lógica da obra, sem reproduzir apenas a própria personalidade.

“Ali não é a Luiza, ali é a personagem. Tenho que me desvincular de mim e me doar”, explicou.

Luiza relacionou essa entrega a uma experiência intensa, que se completa no encontro com o público.

“O teatro é o meu vício, a minha cachaça no bom sentido. Quando você pega o texto, constrói a personagem e se joga, é uma realização”, declarou.

Bernarda Alba e a crítica ao autoritarismo

Entre os trabalhos citados está uma montagem de A casa de Bernarda Alba, do dramaturgo espanhol Federico García Lorca. A preparação começou em 2018, e a estreia ocorreu na Casa de Juvenal Galeno, no Centro de Fortaleza.

Luiza interpreta Bernarda, uma matriarca autoritária que impõe às filhas oito anos de luto após a morte do marido. O controle exercido dentro da casa funciona como uma representação das formas de opressão política e social.

“Bernarda é uma mãe austera, que impõe oito anos de luto. Uma das filhas se revolta porque não quer aceitar aquela vida”, explicou.

A peça foi concluída por Lorca em 1936, pouco antes de o escritor ser assassinado no início da Guerra Civil Espanhola. A obra estreou apenas em 1945, em Buenos Aires, sob direção de Margarita Xirgu.

Luiza relacionou a dramaturgia de Lorca à resistência contra o autoritarismo. Além de A casa de Bernarda Alba, ela mencionou Yerma e Bodas de sangue, obras que compõem com a primeira peça um conjunto conhecido por parte da crítica como trilogia rural ou trágica.

“Lorca trabalhou muito essa questão da resistência, de não cruzar os braços. Ele faz uma crítica à ditadura e às formas de poder”, afirmou.

A montagem cearense está temporariamente interrompida devido à dificuldade de conciliar as agendas de nove atrizes. O grupo pretende retomar o espetáculo, preservando a reflexão sobre a obra e o assassinato do dramaturgo.

Espaços culturais e burocracia depois da pandemia

A pandemia modificou as condições de produção teatral. Grupos que antes conseguiam salas de ensaio com maior facilidade passaram a enfrentar processos mais burocráticos e uma oferta reduzida de horários.

“Depois da pandemia, tivemos algumas dificuldades. Antes, havia mais acesso aos equipamentos e mais alternativas de salas de ensaio”, contou.

Luiza reconheceu o apoio de instituições que continuam recebendo companhias independentes. Ela destacou a Vila das Artes e o Teatro São José, em Fortaleza.

Os espaços de ensaio são indispensáveis porque muitos grupos não possuem sede própria. Sem uma sala gratuita ou de baixo custo, os artistas precisam incorporar aluguel, transporte e armazenamento de materiais ao orçamento da montagem.

A escritora também participou da produção de E eu joguei flores nas minhas memórias, texto de Caio Quinderé. Na montagem citada durante a entrevista, três atrizes estavam em cena, com direção de Antônio Marcelo.

“A gente está lutando para que esse trabalho tenha reconhecimento e divulgação”, afirmou.

Editais são necessários, mas exigem prestação de contas

A sobrevivência de grupos independentes depende frequentemente dos editais. Os recursos públicos permitem pagar artistas, técnicos, transporte, cenários, figurinos e comunicação.

Luiza reconheceu que o financiamento público envolve responsabilidade. O recurso recebido precisa ser utilizado conforme o projeto aprovado e demonstrado por meio de prestação de contas.

“O dinheiro é seu e não é ao mesmo tempo, porque você vai ter que prestar contas”, explicou.

Apesar das exigências, a autora defendeu a ampliação dos editais para que mais profissionais tenham condições de produzir.

“Que venham mais editais, que oportunizem mais pessoas e mais artistas. É uma forma de fazer o trabalho e buscar visibilidade”, disse.

A burocracia, porém, pode favorecer proponentes que já dominam a linguagem dos regulamentos ou dispõem de equipes especializadas. Artistas iniciantes precisam de formação para elaborar propostas, construir orçamentos e organizar documentos.

Levar teatro às escolas também tem custo

Luiza relatou experiências de apresentações realizadas em escolas, hospitais e outros espaços alternativos. Uma delas foi a montagem de Depois das 11, de Aluísio Vieira, que discute envelhecimento, solidão e abandono familiar.

O espetáculo provocou reações entre estudantes e abriu espaço para conversar sobre preconceito contra pessoas idosas.

“Os alunos se emocionaram. Perguntei se eles não tinham avós, porque a peça permitia discutir o etarismo e a maneira como tratamos as pessoas idosas”, contou.

Levar uma peça às escolas, entretanto, exige transporte, figurinos, maquiagem, alimentação e organização técnica. O trabalho não pode depender continuamente de despesas pagas pelos próprios artistas.

“A peça de teatro é um produto. É preciso apoio e ajuda de custo porque tem carro, deslocamento, roupa, maquiagem, água. Não tem como ignorar isso”, afirmou.

Luiza sugeriu uma parceria entre as secretarias de Educação e Cultura. A articulação poderia garantir apresentações nas escolas e remuneração aos profissionais.

O investimento cultural, na avaliação dela, contribui para a formação crítica e amplia as possibilidades oferecidas aos jovens.

Festivais ajudam a aperfeiçoar os espetáculos

A participação em festivais não interessa somente pela possibilidade de receber prêmios. Esses encontros permitem apresentar trabalhos, acompanhar outras companhias e ouvir avaliações sobre as montagens.

“Eu gosto dos festivais porque você terá alguém para analisar e dizer o que está funcionando e o que precisa melhorar”, afirmou.

Luiza citou a participação em festivais de esquetes e mostras organizadas por grupos cearenses. Para ela, o contato entre diferentes companhias fortalece o teatro e permite que artistas conheçam soluções encontradas por colegas.

A diversidade de festivais mostra a quantidade de profissionais atuantes em Fortaleza e em outros municípios. O problema continua sendo transformar essa produção em temporadas regulares, com acesso a salas e comunicação adequada.

Praças podem receber programação permanente

A ocupação cultural dos espaços públicos também foi debatida. Praças, parques e equipamentos comunitários podem receber teatro, música, feiras literárias e atividades físicas, desde que tenham iluminação, limpeza e segurança.

Luiza citou a Praça Rachel de Queiroz e o Parque das Crianças, em Fortaleza, como exemplos de áreas que passaram a atrair famílias depois de intervenções urbanas e da oferta de atividades.

“Se houver segurança, apoio e programação, o público vai”, afirmou.

No Parque das Crianças, ela destacou a presença de uma feira de livros destinada ao público infantil. A combinação entre lazer, leitura e convivência estimula a permanência das famílias nos espaços públicos.

Luiza defendeu que esse tipo de política não dependa apenas de eventos ocasionais. Uma agenda contínua pode aproximar moradores dos artistas e criar novos públicos.

“Você precisa acreditar no seu trabalho”

Ao resumir os desafios de produzir, divulgar e interpretar a literatura cearense, Luiza voltou à necessidade de persistência. Autores e atores precisam acreditar no próprio trabalho, buscar coletivos e disputar os espaços existentes.

“É preciso não desistir, colocar suas ideias como foco e se jogar”, afirmou.

A persistência individual, no entanto, não elimina a responsabilidade do poder público. Editais acessíveis, equipamentos abertos, programas nas escolas e ações de circulação são necessários para que os artistas não tenham de financiar sozinhos todas as etapas.

A entrevistada defendeu ainda que novos autores sejam apresentados ao público junto dos nomes consagrados. A literatura cearense permanece viva em livros infantis, coletâneas, romances, poemas e experiências realizadas nas escolas.

“Se você cruzar os braços na primeira dificuldade, nunca vai fazer nada. Precisa divulgar e acreditar no próprio trabalho. Se você não acredita, como vai apresentá-lo às outras pessoas?”, concluiu.

Referências

Uma galinha chamada Teresa, Luiza Pontes, 2024
As aventuras de Laura e a lagartixa, Luiza Pontes, 2024
A casa de Bernarda Alba, Federico García Lorca, 1936
Yerma, Federico García Lorca, 1934
Bodas de sangue, Federico García Lorca, 1933
E eu joguei flores nas minhas memórias, Caio Quinderé, 2010
Depois das 11, Aluísio Vieira, ano não informado durante a entrevista

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