A conta que o debate fiscal não mostra
A comparação entre Brasil e Estados Unidos revela o peso dos juros, quem financia a dívida e por que déficit e risco não bastam para explicar o custo brasileiro
por Mauricio Martinelli Luperi
No artigo anterior, discutimos uma das ideias mais repetidas no debate econômico brasileiro: a de que os juros elevados seriam, em grande medida, consequência inevitável da “gastança” do Estado. A comparação internacional mostrou que essa relação está longe de ser tão simples. Países podem conviver com déficits primários e dívidas públicas muito superiores aos brasileiros e mesmo assim pagar menos juros.
Mas aquela discussão deixa uma pergunta ainda mais importante.
Se o Estado brasileiro paga juros extraordinariamente elevados, quem recebe esses juros?
A pergunta parece trivial, mas muda o eixo da discussão. Em vez de observarmos apenas o Estado como devedor, passamos a observar simultaneamente o outro lado da relação: os credores, a estrutura dos ativos financeiros, a composição da dívida e os mecanismos institucionais pelos quais uma decisão de política monetária se transforma em renda financeira.
A comparação com os Estados Unidos é especialmente útil. Os EUA possuem dívida pública proporcionalmente muito maior, apresentam déficits primários significativamente superiores aos brasileiros e, ainda assim, destinam aos juros uma parcela do PIB muito menor.
O objetivo deste artigo não é negar que risco fiscal exista ou que deva ser remunerado. Evidentemente existe e merece um prêmio. A questão relevante é outra: qual deve ser a dimensão desse prêmio? E, sobretudo, o que acontece econômica e distributivamente quando uma remuneração excepcionalmente elevada incide sobre uma estrutura financeira concentrada e uma dívida fortemente sensível à taxa básica de juros?
O paradoxo brasileiro: déficit menor, conta de juros maior
Comecemos por três números.
Em 2025, o resultado primário brasileiro foi deficitário em apenas 0,43% do PIB. Nos Estados Unidos, o déficit primário federal foi de aproximadamente 2,6% do PIB. E isso representou inclusive uma melhora: entre 2022 e 2024, calculamos anteriormente uma média próxima de 3,07% do PIB para os americanos.
A conta de juros, entretanto, aponta na direção oposta.
No Brasil, os juros nominais do setor público alcançaram aproximadamente R$ 1,008 trilhão, equivalentes a 7,91% do PIB. Nos Estados Unidos, utilizando a série de pagamentos federais de juros da BEA para nossa comparação macroeconômica, foram aproximadamente US$ 1,183 trilhão, ou 3,85% do PIB.
Tabela 1 — A dimensão da conta de juros, 2025
| Indicador | Brasil 2025 | EUA 2025 | EUA — média 2022–2024 | Leitura |
| Juros / PIB | 7,91% | 3,85% | — | Brasil ≈ 2,1 vezes os EUA em 2025 |
| Juros nominais | R$ 1,008 tri | US$ 1,183 tri | — | Níveis em moedas nacionais |
| Resultado primário / PIB | −0,43% | −2,6% | ≈ −3,07% | Déficit primário dos EUA segue muito maior; houve redução em 2025 |
Nota: O déficit primário federal dos EUA em 2025 é derivado na mesma contabilidade do CBO: déficit total de 5,8% do PIB menos juros líquidos de 3,2% = 2,6% do PIB. A média ≈3,07% para 2022–2024 é mantida como referência do cálculo anterior. Já os 3,85% de juros/PIB usados na comparação Brasil–EUA vêm de BEA/FRED e não devem ser usados para decompor o déficit orçamentário do CBO.
A comparação merece atenção.
O déficit primário americano em 2025 foi cerca de seis vezes maior, proporcionalmente ao PIB, que o brasileiro. Apesar disso, a parcela do produto destinada aos juros no Brasil foi pouco mais de duas vezes a americana.
No caso brasileiro há outra dimensão reveladora: a despesa de juros, de 7,91% do PIB, foi aproximadamente 18,4 vezes o déficit primário, de 0,43%.
Isso não significa que o resultado primário seja irrelevante. Significa algo mais simples: uma explicação da dinâmica fiscal que concentre quase toda a atenção sobre alguns décimos do PIB de déficit primário, deixando em segundo plano uma conta de juros próxima de oito pontos do PIB, está observando apenas uma parte do problema.
E surge então a pergunta inevitável: para onde vai esse dinheiro?
Quem financia o Estado?
A dívida pública não é apenas um passivo do governo. Ela é, simultaneamente, um ativo de alguém.
Essa identidade contábil elementar costuma desaparecer do debate público. Quando se fala em dívida, o foco recai sobre o devedor. Mas todo título público possui um detentor e toda despesa de juros corresponde, do outro lado da operação, à remuneração de um ativo financeiro.
Brasil e Estados Unidos apresentam arquiteturas bastante diferentes nesse aspecto.

Nos Estados Unidos, os investidores estrangeiros representam cerca de 30,8% do universo de Treasuries considerado. No Brasil, os não residentes correspondem a aproximadamente 10,3% da DPMFi em mercado.
A diferença é relevante.
O mercado americano de Treasuries funciona como um dos principais reservatórios de liquidez do sistema financeiro internacional. O dólar é a principal moeda de reserva mundial, Treasuries são utilizados como ativos de reserva por bancos centrais e como colateral e referência de preço nos mercados globais. Parte substancial da dívida americana é, portanto, absorvida pelo restante do mundo.
No Brasil, a dívida é muito mais internalizada no circuito financeiro doméstico.
Quando abrimos os grandes agregados, essa diferença aparece com maior clareza.
Tabela 2 — Quem detém a dívida pública? Comparação Brasil × Estados Unidos, 2025
| Categoria de detentor — 2025 | Brasil — DPMFi | EUA — Treasuries | Leitura comparativa |
| Instituições financeiras / bancos | 32,9% | 6,52% | No Brasil, é o maior bloco; nos EUA, bancos e instituições depositárias têm peso bem menor. |
| Fundos de investimento¹ | 20,8% | 19,65% | Participações próximas, embora a composição dos fundos seja diferente nos dois mercados. |
| Previdência / fundos de pensão | 22,8% | 3,80% | Peso muito maior da previdência entre os detentores da dívida brasileira. |
| Seguradoras | incluídas em “Demais” | 1,90% | O Tesouro não as separa no resumo de dezembro usado aqui; o Fed as identifica no Z.1. |
| Famílias / pessoas físicas (detenção direta) | incluídas em “Demais”³ | 10,00% | Nos EUA, a detenção direta das famílias é relevante; no Brasil, Tesouro Direto está no agregado residual desta classificação. |
| Empresas não financeiras | incluídas em “Demais” | 0,77% | Participação pequena nos EUA; sem abertura equivalente no resumo brasileiro utilizado. |
| Governos subnacionais / setor público | incluídos em “Demais” | 5,19% | O Z.1 separa governos estaduais e locais; a tabela brasileira resumida não. |
| Não residentes / estrangeiros | 10,3% | 30,83% | A internacionalização do mercado de Treasuries é aproximadamente três vezes maior. |
| Outras instituições financeiras² | incluídas em “Demais” | 3,42% | Inclui GSEs, brokers/dealers, holdings, emissores de ABS e outros negócios financeiros no Z.1. |
| Demais / residual | 13,2% | 5,09% (discrepância) | No Brasil, agrega categorias não abertas no resumo; nos EUA, 5,09% é discrepância de valoração/registro do Z.1. |
| Banco Central / Federal Reserve⁴ | 20,33%* R$ 1,689 tri |
12,82% US$ 3,855 tri |
Razões de dimensão relativa. O BCB fica fora dos 100% da DPMFi em mercado; o Fed é medido no universo Z.1 de Treasuries. |
Fonte: elaboração própria a partir de Tesouro Nacional, RMD/RAD 2025; Banco Central do Brasil, Demonstrações Financeiras 2025; Federal Reserve, Financial Accounts of the United States (Z.1), Treasury Securities..
Nota: ¹ EUA: fundos = money market funds + mutual funds + closed-end funds + ETFs.
Nota: ² EUA: outras instituições financeiras = GSEs + emissores de ABS + brokers/dealers + holdings + outros negócios financeiros.
Nota: ³ Brasil: a publicação-resumo de dezembro de 2025 abre Instituições Financeiras, Previdência, Fundos e Não residentes; as demais categorias permanecem agregadas em 13,2%. O estoque do Tesouro Direto em dezembro era R$ 213,2 bilhões, mas não deve ser simplesmente somado como categoria adicional sem reconciliar a classificação do RMD.
Nota: ⁴ BCB: 20,33%* = R$ 1,689 trilhão de títulos públicos livres / R$ 8,309 trilhões de DPMFi ao final de 2025. É uma razão de referência para permitir comparação de escala e não participação na distribuição dos detentores, pois a carteira do BCB está fora dos 100% da DPMFi em mercado. Fed: 12,82% = US$ 3,854942 trilhões / US$ 30,0696 trilhões de Treasuries no universo Z.1. As duas razões ajudam a comparar dimensão relativa, mas os perímetros contábeis não são idênticos.
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A tabela revela que Brasil e Estados Unidos não diferem apenas pela participação dos estrangeiros, mas pela própria arquitetura de absorção da dívida pública. No Brasil, instituições financeiras, fundos de investimento e previdência respondem conjuntamente por parcela muito elevada da DPMFi. Nos Estados Unidos, a distribuição entre os detentores domésticos é mais diversificada e convive com uma participação externa muito maior.
A diferença é particularmente expressiva nas instituições financeiras. Elas detêm 32,9% da DPMFi brasileira, enquanto as instituições depositárias americanas respondem por cerca de 6,5% dos Treasuries. Nos fundos, ao contrário, as participações são próximas — aproximadamente 20,8% no Brasil e 19,7% nos Estados Unidos. A previdência também apresenta forte contraste: 22,8% no Brasil contra aproximadamente 3,8% nos EUA. As categorias não são contabilmente idênticas nos dois países, razão pela qual esses números devem ser entendidos como uma comparação institucional harmonizada, e não como equivalência contábil perfeita.
O movimento se inverte quando observamos os investidores estrangeiros. Os não residentes possuem cerca de 10,3% da dívida brasileira em mercado, enquanto o restante do mundo detém aproximadamente 30,8% dos Treasuries. Nos Estados Unidos, essa participação se divide ainda entre instituições oficiais estrangeiras — cerca de 12,9% do estoque total — e investidores privados estrangeiros, com aproximadamente 17,9%. Essa capacidade de distribuir a dívida pelo sistema financeiro mundial constitui uma diferença fundamental: o Treasury exerce funções de reserva, liquidez, colateral e referência de preços que a dívida brasileira não possui na mesma escala.
Os bancos centrais constituem um caso particular. Tomando como referência os estoques utilizados na tabela, os R$ 1,689 trilhão em títulos públicos livres mantidos pelo BCB equivalem a aproximadamente 20,3% da DPMFi de 2025, enquanto os US$ 3,855 trilhões em Treasuries do Federal Reserve correspondem a cerca de 12,8% do estoque americano considerado. A comparação serve para dimensionar as carteiras, mas não significa que esses percentuais integrem da mesma maneira a distribuição dos detentores privados: títulos mantidos pelos bancos centrais possuem significado econômico distinto daqueles pertencentes a bancos, fundos, famílias ou investidores estrangeiros.
A comparação sugere, portanto, algo mais interessante do que simplesmente afirmar que a dívida brasileira é predominantemente doméstica. No Brasil, uma parcela particularmente elevada da dívida passa pelo sistema financeiro institucional doméstico; nos Estados Unidos, a base de absorção é mais internacionalizada e institucionalmente diversificada. Isso importa para nossa investigação porque os juros pagos pelo Estado não desaparecem: transformam-se em renda financeira que percorre bancos, fundos, previdência, seguradoras e demais detentores até chegar, direta ou indiretamente, aos proprietários finais desses ativos.
Mas identificar os intermediários ainda não responde à pergunta distributiva. Um fundo pertence a seus cotistas; um fundo de previdência, a seus participantes; depósitos e outros instrumentos financeiros possuem beneficiários finais. Para saber onde essa renda financeira tende a chegar, precisamos dar o passo seguinte: observar como a propriedade dos ativos e os rendimentos financeiros estão distribuídos entre as pessoas.

Os dados da Receita Federal fornecem uma informação particularmente reveladora.
Entre os declarantes brasileiros do IRPF no ano-calendário de 2024, aqueles situados nas faixas de 80 salários mínimos ou mais representavam apenas 0,709% dos declarantes, mas concentravam aproximadamente 47% dos rendimentos de aplicações financeiras.
No extremo superior, os declarantes com rendimentos acima de 320 salários mínimos correspondiam a somente 0,107% do universo, mas concentravam, sozinhos, cerca de 29,1% dos rendimentos de aplicações financeiras.
Não estamos dizendo que esses percentuais representam diretamente os recebedores dos juros da dívida pública. Parte da renda financeira possui outras origens e grande parcela dos títulos públicos é mantida por intermediários institucionais.
O que os números demonstram é algo mais rigoroso: a propriedade patrimonial e, especialmente, os fluxos de renda financeira são fortemente concentrados.
E os Estados Unidos?

As Distributional Financial Accounts do Federal Reserve mostram que o 1% superior possuía aproximadamente 35,6% dos ativos financeiros das famílias americanas. O grupo entre os percentis 90 e 99 detinha outros 37,2%.
Somados, portanto, os 10% superiores concentravam cerca de 72,8% dos ativos financeiros.
A metade inferior das famílias americanas possuía apenas 2,5%.
Essa constatação é essencial para nossa argumentação.
Concentração patrimonial não basta para caracterizar o rentismo brasileiro.
Ela existe também nos Estados Unidos.
A diferença que procuramos precisa estar na interação entre essa concentração e a arquitetura pela qual a riqueza financeira é remunerada.
O Brasil paga muito mais
É nesse ponto que a comparação histórica dos juros se torna decisiva.

Entre 2014 e 2025, a parcela do PIB brasileiro destinada aos juros permaneceu sistematicamente elevada, embora com oscilações importantes.
Em 2015 chegou a 8,37% do PIB. Caiu nos anos seguintes e atingiu 4,18% em 2020, durante a conjuntura extraordinária da pandemia e das taxas de juros excepcionalmente baixas. Depois voltou a subir: 5,17% em 2021, 5,82% em 2022, 6,61% em 2023, 8,07% em 2024 e 7,91% em 2025.
A trajetória americana é bastante diferente.
Apesar do forte crescimento da dívida e do aumento recente das taxas de juros, a despesa federal de juros na medida utilizada em nossa comparação passou de aproximadamente 2,5% do PIB em 2014 para 3,85% em 2025.
Portanto, não estamos diante simplesmente de dois países endividados pagando proporcionalmente pela dimensão de suas dívidas.
Há algo específico na forma pela qual o Estado brasileiro remunera seus passivos.
E é aqui que precisamos olhar para dentro da dívida.
A arquitetura importa: de 18,7% para 48,3% em taxa flutuante
A taxa Selic não afeta toda a dívida pública instantaneamente e da mesma maneira. Existem títulos prefixados, indexados a índices de preços, vinculados à taxa flutuante e uma pequena parcela cambial.
Mas a composição dessa dívida mudou profundamente.

Em 2014, os títulos a taxa flutuante representavam aproximadamente 18,7% da DPF.
Em 2025, representavam 48,3%.
No mesmo intervalo, a participação dos títulos prefixados caiu de aproximadamente 41,6% para 22%.
Essa transformação é fundamental.
Quanto maior a parcela da dívida vinculada a taxas flutuantes, maior a capacidade de uma elevação da taxa básica de transmitir-se à remuneração do estoque da dívida, respeitados prazos, composição e mecanismos específicos de cada instrumento.
Isso significa que a discussão sobre juros não pode ser separada da discussão sobre a arquitetura da dívida pública.
E há uma referência institucional particularmente interessante: o próprio planejamento de longo prazo do Tesouro trabalha com participação substancialmente menor de títulos flutuantes, em torno de 23% no benchmark que identificamos.
A diferença entre essa referência e os 48,3% observados em 2025 é expressiva.
Em outras palavras, não temos apenas juros altos. Temos uma estrutura patrimonial que torna parcela muito relevante da dívida particularmente sensível à remuneração de curto prazo.
É nessa combinação que o problema distributivo começa a ganhar contornos institucionais.
Mas o Brasil é mais arriscado
Chegamos à objeção mais importante, e ela deve ser levada a sério.
O Brasil não é os Estados Unidos.
Treasuries são tratados internacionalmente como referência de ativo livre de risco em dólares. Os Estados Unidos emitem a principal moeda de reserva internacional, possuem mercados financeiros de enorme profundidade e desfrutam de demanda mundial por seus títulos.
O Brasil deve, portanto, pagar algum prêmio.
A questão nunca foi negar isso.
A questão é: quanto?
O Brasil emite sua dívida interna predominantemente em sua própria moeda. Não enfrenta, nessa dívida, o mesmo tipo de restrição de um devedor privado ou de um país endividado majoritariamente em moeda estrangeira. Isso não elimina riscos: inflação, câmbio, credibilidade institucional, condições fiscais e incerteza macroeconômica permanecem relevantes, mas torna inadequado tratar qualquer diferencial de juros como se fosse automaticamente uma medida objetiva e integral de risco de insolvência.
É por isso que a decomposição realizada pelo FMI é tão útil.

No exercício que utilizamos, o FMI identifica aproximadamente 1,4 ponto percentual de prêmio soberano em moeda local e cerca de 0,9 ponto percentual de prêmio de prazo.
Esses componentes possuem significados diferentes e não devem ser simplesmente somados e chamados de “risco Brasil”.
Mas eles nos fornecem uma ordem de grandeza.
E essa ordem de grandeza permite formular corretamente a pergunta.
Não se trata de perguntar por que o Brasil não paga exatamente o Treasury americano.
Isso seria economicamente ingênuo.
A pergunta é:
a diferença entre a remuneração real oferecida pelos títulos brasileiros e aquela observada nos ativos considerados livres de risco internacionalmente pode ser integralmente explicada pelos riscos identificáveis?
Se a resposta for negativa, o diferencial remanescente precisa ser explicado.
E é justamente aí que entram instituições, convenções de mercado, estrutura da dívida, política monetária, formação de expectativas e economia política.
Quando o juro deixa de ser apenas consequência da dívida
Há ainda uma inversão causal importante.
A narrativa convencional costuma seguir esta sequência:
déficit → dívida → aumento do risco → juros mais altos.
Esse mecanismo pode existir.
O problema aparece quando ele é tratado como se fosse a única direção possível da causalidade.
A contabilidade da dívida mostra que existe também o movimento inverso.
Tabela 3 — Juros também produzem dívida: decomposição da DBGG, jan.–jun. 2026
| Fator | Efeito (p.p. do PIB) |
| Incorporação de juros | +4,9 |
| Emissões líquidas | +1,3 |
| Crescimento do PIB nominal | −2,7 |
| Efeito cambial | −0,2 |
Fonte: elaboração própria a partir de Banco Central do Brasil, Estatísticas Fiscais.
Nota: Evidencia o canal contábil juros → dívida; não identifica, isoladamente, causalidade econométrica.
Sequência sugerida no artigo: Tabela 1 → Gráfico 1 → Tabela 2 → Gráficos 2A/2B → Gráfico 3 → Gráfico 4 → Gráfico 5 → Tabela 3.
Na decomposição da variação da dívida bruta realizada pelo Banco Central para o primeiro semestre de 2026, a incorporação de juros acrescentou aproximadamente 4,9 pontos percentuais do PIB à DBGG.
As emissões líquidas acrescentaram 1,3 ponto.
O crescimento do PIB nominal, por sua vez, reduziu a relação dívida/PIB em 2,7 pontos percentuais, enquanto o efeito cambial contribuiu com redução adicional de aproximadamente 0,2 ponto.
Não se trata de uma identificação econométrica de causalidade. É uma decomposição contábil.
Mas justamente por isso sua interpretação mais básica é incontornável:
juros elevados também aumentam a dívida.
Temos, portanto, duas direções possíveis:
déficit → dívida → risco → juros
e
juros → despesa financeira → dívida.
Quando a segunda direção é ignorada, cria-se uma narrativa potencialmente circular: os juros são elevados porque a dívida é alta; a dívida aumenta parcialmente porque os juros são elevados; o aumento da dívida é então utilizado como justificativa para manter os juros elevados.
Esse circuito merece ser analisado, não naturalizado.
Então, o que estamos chamando de rentismo?
Podemos agora retornar ao conceito que deliberadamente evitamos utilizar como ponto de partida.
Rentismo não significa simplesmente existir renda financeira.
Também não significa condenar poupadores, fundos de pensão, bancos, investidores ou compradores de títulos públicos.
Uma economia monetária moderna necessita de crédito, intermediação financeira, poupança financeira, mercados de capitais e dívida pública.
O problema é outro.
Os dados apresentados neste artigo mostram simultaneamente que:
o Brasil possui forte concentração dos fluxos de renda financeira;
grande parcela da dívida pública é absorvida pelo circuito financeiro doméstico;
a despesa de juros consome parcela excepcionalmente elevada do PIB;
a participação de títulos a taxa flutuante cresceu fortemente;
o diferencial de remuneração não pode ser simplesmente identificado, em sua totalidade, com risco soberano;
e os próprios juros elevados contribuem para aumentar a dívida que posteriormente aparece como justificativa para sua manutenção.
É a combinação desses elementos que permite falar em uma arquitetura rentista.
Podemos então propor uma definição operacional.
Rentismo, no sentido empregado aqui, é uma configuração institucional na qual parcela excepcionalmente elevada da renda nacional é transferida de maneira recorrente para detentores de ativos financeiros, por meio de uma arquitetura que remunera abundantemente a liquidez e transmite juros elevados à dívida pública, produzindo efeitos distributivos e fiscais capazes de reproduzir as próprias condições que legitimam essa remuneração.
Essa definição é diferente de uma crítica moral à riqueza.
É uma hipótese institucional e distributiva.
E, como toda hipótese econômica, deve ser confrontada com os dados.
A pergunta fiscal precisa ser ampliada
O debate brasileiro sobre responsabilidade fiscal costuma começar perguntando:
quanto o governo gasta?
É uma pergunta legítima.
Mas é incompleta.
Depois dos dados examinados aqui, outras perguntas precisam ocupar o mesmo espaço:
quanto o Estado paga para financiar sua dívida?
Por que paga esse valor?
Quanto dessa remuneração corresponde efetivamente ao risco?
Quem recebe essa renda, direta ou indiretamente?
Como a estrutura dos títulos transmite as decisões da Selic para a despesa financeira?
E quanto os próprios juros contribuem para produzir a dívida utilizada posteriormente para justificá-los?
A comparação com os Estados Unidos ajuda justamente porque impede respostas fáceis.
Os EUA possuem déficit primário maior. Possuem dívida pública muito maior. Possuem também enorme concentração da riqueza financeira.
Ainda assim, pagam proporcionalmente ao PIB muito menos juros que o Brasil.
Portanto, o fenômeno brasileiro não pode ser explicado apenas por dívida, déficit ou concentração patrimonial isoladamente.
É preciso olhar para a arquitetura institucional que conecta política monetária, dívida pública, sistema financeiro e distribuição de renda.
No artigo anterior, a pergunta era se a “gastança” explicava os juros brasileiros.
Depois desta investigação, a pergunta muda:
se o déficit primário brasileiro é pequeno diante da conta de juros, se países com déficits e dívidas maiores pagam proporcionalmente menos, e se os próprios juros ajudam a produzir a dívida, por que continuamos tratando quase exclusivamente o gasto primário como origem do problema?
Talvez seja justamente aí que esteja uma das características mais persistentes da arquitetura monetário-financeira brasileira: discutimos intensamente quem gasta, mas muito menos quem recebe.
Leitura recomendada:
Secretaria do Tesouro Nacional, Relatório Anual da Dívida Pública 2025 — especialmente as seções sobre base de detentores, composição e gestão da DPF; e
Federal Reserve, Financial Accounts of the United States (Z.1), Table L.210 – Treasury Securities, para a abertura dos Treasuries por setor detentor.
Para compreender o tratamento da carteira brasileira do Banco Central, ver também Demonstrações Financeiras do Banco Central do Brasil – 2025. O próprio Tesouro descreve o RAD como o balanço anual que apresenta estoque, detentores, composição, perfil de vencimentos e gestão da DPF.
Nota metodológica: as categorias foram harmonizadas para permitir a comparação institucional entre os dois países, mas não representam equivalência contábil perfeita. No Brasil, determinadas categorias permanecem agregadas em “Demais”, enquanto o Z.1 americano oferece maior desagregação. A participação de 20,33% atribuída ao BCB é uma razão de referência entre os R$ 1,689 trilhão de títulos públicos livres mantidos pelo Banco Central e a DPMFi de R$ 8,309 trilhões ao final de 2025, não integrando os 100% da distribuição da DPMFi por detentores. Para o Federal Reserve, os 12,82% utilizam o universo de Treasuries adotado na comparação. O Z.1 define sua tabela de Treasury securities como títulos negociáveis emitidos pelo governo federal e mantidos por setores externos ao próprio governo federal.
Leitura recomendada
BLANCHARD, Olivier. “Public Debt and Low Interest Rates”. American Economic Review, v. 109, n. 4, 2019.
FURMAN, Jason; SUMMERS, Lawrence H. A Reconsideration of Fiscal Policy in the Era of Low Interest Rates. Harvard Kennedy School, 2020.
PAULA, Luiz Fernando de. Sistema Financeiro, Bancos e Financiamento da Economia: uma abordagem keynesiana. Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, 2014.
COSTA, Fernando Nogueira da. Economia Monetária e Financeira: uma abordagem pluralista. 2. ed. rev. e atual. Campinas: Instituto de Economia/Unicamp, 2020.
COSTA, Fernando Nogueira da. Regras ou Arbítrio na Política de Juros: Padrões e Ruídos. Campinas, 2022.
OREIRO, José Luis. Macroeconomia do Desenvolvimento: uma perspectiva keynesiana. Rio de Janeiro: LTC, 2016.
E, separadamente, eu colocaria:
Fontes estatísticas
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Estatísticas Fiscais; Demonstrações Financeiras do Banco Central do Brasil – 2025.
CONGRESSIONAL BUDGET OFFICE. The Budget and Economic Outlook e relatórios fiscais, 2025–2026.
FEDERAL RESERVE. Financial Accounts of the United States (Z.1); Distributional Financial Accounts.
FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Brazil: 2026 Article IV Consultation. 2026.
RECEITA FEDERAL DO BRASIL. Grandes Números do IRPF 2025 – Ano-Calendário 2024.
SECRETARIA DO TESOURO NACIONAL. Relatório Anual da Dívida Pública 2025; Relatórios Mensais da Dívida Pública.
U.S. BUREAU OF ECONOMIC ANALYSIS. National Income and Product Accounts.
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
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