
A RPC, afiliada da Globo no Paraná, foi denunciada ao Ministério Público do Trabalho (MPT) por suspeita de pressionar funcionários a votar em Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. Segundo a denúncia do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR), gestores associaram cortes salariais e perdas de direitos ao fim da escala 6×1 e ao resultado da eleição presidencial, durante reuniões nesta sexta-feira (16).
O caso foi revelado por Gabriel de Oliveira, do TV Pop. Conforme a reportagem, os encontros ocorreram simultaneamente nas oito emissoras da empresa. O sindicato apontou suspeita de assédio eleitoral e moral contra dezenas de profissionais de Curitiba e do interior. Alguns gestores disseram a subordinados que os cortes poderiam ser evitados dependendo do resultado das urnas.
Entre as medidas anunciadas estariam a redução do vale-alimentação, a suspensão de pedidos de férias e o cancelamento de recessos já marcados. A empresa também teria determinado o encerramento das jornadas ampliadas que elevavam a remuneração dos trabalhadores e o funcionamento habitual nas semanas do Natal e do Réveillon, sem o revezamento tradicional das equipes entre as duas festas.
Os funcionários foram vistos chorando e que alguns comunicaram a intenção de deixar a emissora caso as mudanças fossem concretizadas. Procuradas pelo veículo, RPC e Globo não se manifestaram até a publicação da reportagem. A denúncia apresentada pelo sindicato aponta suspeitas que deverão ser examinadas pelo MPT.

A justificativa de adaptar a operação ao fim da 6×1 encontra contraponto em parecer publicado pelo próprio SindijorPR. No documento, o professor de Direito do Trabalho da Universidade Federal do Paraná e assessor jurídico da entidade, Sidnei Machado, sustenta que a reorganização das escalas deve preservar os salários e os direitos contratuais. Ele ressalta que o funcionamento contínuo de redações e emissoras exige negociação coletiva para organizar jornadas e folgas.
O episódio envolvendo a afiliada ocorre em uma rede com histórico de favorecimento eleitoral contra Lula. Em 1989, a edição do último debate entre o petista e Fernando Collor exibida pelo Jornal Nacional privilegiou o adversário tanto na seleção dos trechos quanto no tempo de exposição. O próprio Memória Globo registra o desequilíbrio, incluindo um minuto e meio a mais para Collor. A emissora passou a adotar como norma a não edição de debates políticos após a repercussão do caso.
Nesta sexta-feira, a direção da Globo voltou a ser questionada por receber Flávio para um almoço horas antes de sua sabatina. Participaram João Roberto Marinho, presidente do grupo, e Paulo Tonet, vice-presidente de Relações Institucionais. Segundo auxiliares de Lula, o presidente não recebeu convite semelhante quando foi entrevistado na véspera.
Em ato em Ipatinga, em Minas Gerais, Lula afirmou que a emissora estava “sob suspeição” de sua candidatura: “Não merece confiança, não merece”. A Globo confirmou o almoço e declarou que encontros institucionais e de cortesia com candidatos fazem parte da rotina de executivos de empresas de mídia. Também informou que lideranças do jornalismo não participaram da reunião.