Boato – Uma mulher identificada como Dona Raimunda teria sido chamada de terrorista por um deputado durante a CPMI do 8 de Janeiro e respondido com um discurso contra políticos de esquerda.
Análise
Vídeos e mensagens que circulam nas redes sociais apresentam uma suposta discussão entre uma mulher identificada como Dona Raimunda e um deputado durante a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do 8 de Janeiro. Nas publicações, o parlamentar a teria chamado de covarde, fascista, golpista e terrorista, e ela teria respondido com acusações contra integrantes do Congresso e críticas ao processo eleitoral.
A narrativa é divulgada com títulos que apresentam a mulher como uma trabalhadora honesta, mãe e avó que teria sido injustiçada por parlamentares. Em algumas versões, o conteúdo afirma que ela teria comparecido à CPMI para defender o país e que teria “detonado” o deputado ao responder às acusações. Veja um trecho da mensagem que acompanha o conteúdo:
RAIMUNDA A POBRE QUE VIROU TERRORISTA PARA A ESQUERDA CPMI 8 DE JANEIRO TRABALHADORA HONESTA * DE BEM MAE BRASILEIRA AGORA É TERRORISTA PARA ELES! DONA RAIMUNDA CPMI 8 DE JANEIRO “Eu só estava la, porque acreditei no meu país. Não sabia que era crime pedir por mudança. DONA RAIMUNDA EM DEPOIMENTO NA CPMO O QUE É CRIME? É SER POBRE, É PENSAR DIFERENTE, É AMAR O BRASIL?
Deputado: Eu queria saber da senhora como que a senhora se sente diante dessa atitude no mínimo covarde. Covarde contra a nossa democracia, contra o nosso povo. Gostaria de saber também se a senhora, nos dias em que esteve na porta dos quartéis, se em nenhum momento a senhora pensou nos seus filhos ou nos seus netos. E gostaria de saber também se a senhora realmente acreditou, se a senhora acreditou que essas manifestações golpistas na porta dos quartéis e todo aquele quebra-quebra promovido pela extrema direita, se aquilo realmente resultaria naquilo que vocês planejavam, que era um golpe contra a nossa democracia? E antes de responder, eu digo pra senhora e digo olhando nos seus olhos, que a senhora, apesar da idade, apesar da idade, a senhora é uma covarde, a senhora é uma golpista, a senhora é fruto do fascismo que está se estabelecendo no Brasil, mas nós não vamos permitir que se estabeleça. Que a senhora é uma terrorista, porque vocês tentaram, por meio da força e pela prática de terrorismo, fazer com que prevalecesse a vontade daqueles que foram derrotados nas urnas com um triste e lamentável episódio que ficará marcado como o maior atentado contra a democracia do nosso país. Muito obrigado, senhor presidente.
Presidente da Mesa: Eu já posso responder, senhora? Pode responder. Dona Raimunda: Olha, deputado, em primeiro lugar, eu quero dizer pro senhor que eu não tenho peso nenhum na consciência, não tenho vergonha nenhuma do que eu fiz, porque o que eu fiz foi tentar salvar o meu país de bandidos, como muitos dos senhores aqui, que aqui nessa sala tá cheio de bandido. Essa que é a verdade. Até nessa mesa aqui também tem bandido. Aqui tem gente boa nessa sala, mas tá cheio… Presidente da Mesa: Senhor Presidente, Vossa Excelência não pode permitir… Respeite minha fala que eu respeitei a sua. Eu respeitei a sua fala. Olha, dona Raimunda, a senhora não pode se dirigir dessa forma aos parlamentares. Dona Raimunda: Pois se não for para eu falar o que eu quero falar, então pode me levar logo pra cadeia. Me leva logo. Eu não vou, não vou falar nada não. Acabou. Não, não falo mais nada. Presidente da Mesa: Eu peço que se acalme, eu peço que sente, por gentileza. Sente-se. Eu peço apenas… A senhora vai ter liberdade… Polícia. Dona Raimunda: Eu quero falar o que eu quero falar. Deixa a me ver a polícia, eu não tenho medo de ser presa, não tenho medo de falar. Eu já tô com quase 60 anos, eu já sou parlamentar. Modere a forma… Presidente da Mesa: Ah, eu tenho que moderar? Dona Raimunda: Eu tenho que moderar. Ele me chamou de covarde, me chamou de fascista, me chamou de golpista, me chamou de terrorista e eu tenho que moderar? Presidente da Mesa: Por gentileza, se acalme, se acalme.
Dona Raimunda: Ele me chamou do que ele quis. Pois eu chamo esse bandido do jeito que eu quiser também. Presidente da Mesa: Dona Raimunda, eu peço que a senhora respire, mantenha a calma. Eu vou dar liberdade pra senhora, pra senhora falar, pra senhora se pronunciar do jeito que a senhora quiser. Dona Raimunda: É do jeito que eu quiser, né? A senhora pode ficar à vontade, por gentileza.
Ótimo. Olha, o problema desses deputados de esquerda que fazem as perguntas é que essas perguntas são baseadas numa realidade que não existe, que eles querem impor. Aí eu não sei se é porque eles passaram por uma lavagem cerebral ou se é por canalice. Eu até acredito que seja por canalice, por vagabundagem mesmo. Então ele faz perguntas como se a gente tivesse mesmo vivendo numa democracia, como se a gente tivesse tido eleições limpas. Parece até que as eleições foram transparentes. Parece até que o povo teve o pedido atendido quando saíram para as ruas para pedir o voto auditável. Parece que foi realmente atendido e foi implementado o voto auditável nas urnas. > Parece até que a contagem de votos foi auditada, que pegaram os votos impressos e contaram, e que tudo se confirmou e bateu, que o molusco realmente ganhou as eleições. Parece que não ficou dúvida nenhuma. Parece que pegaram os comprovantes e esfregaram na nossa cara e disseram: “Olha aqui, seus fascistas, vocês não sabem perder”. Parece que não teve nenhuma irregularidade nas rádios do Nordeste que acabaram favorecendo um lado. Parece até que o TSE trabalhou de forma justa, imparcial, sem favorecer nenhum lado. Parece até que as pesquisas eleitorais acertaram mesmo o resultado das eleições. Parece que não é raro por oito pontos, por 10 pontos para tentar favorecer um lado, não é?
Então, se isso tudo que eu falei aconteceu, eu não lembro. Eu não lembro de nenhum esquerdista esfregar na minha cara o voto auditável dizendo: “Aqui eu ganhei”. Então, será que eu tô ficando maluca? Será que eu tô vivendo numa realidade paralela? Será que é loucura da minha parte? Será que eu tô falando alguma besteira quando eu digo que o meu país está sendo dominado por bandidos, por uma quadrilha perigosa? Porque eu tenho bons motivos para acreditar nisso. A começar que o presidente da República tá vindo da cadeia. As autoridades que garantiram que o processo eleitoral é correto são os mesmos que devolveram um helicóptero para um traficante por acharem que é correto.
Então, se eu for me basear no conceito deles daquilo que é correto, como é que tu quer que eu acredite nesse processo eleitoral? Eu pergunto pro senhor deputado, o senhor acha certo que um traficante tenha um helicóptero comprado com dinheiro do tráfico, esse helicóptero devolvido? É certo isso? Responde. Então eu, uma dona de casa que passou a vida inteira trabalhando, que tenho 59 anos de idade, que sou mãe, que sou avó, eu tenho que vir numa CPMI escutar de um bosta desse que eu tô praticando terrorismo? É cada uma mesmo que me aparece. Tu vai lavar tua boca, seu bandido, para tu vir falar de mim.
Deputado: senhora é uma fascista terrorista! Dona Raimunda: É, eu sou terrorista. Eu sou golpista. Sou uma pessoa perigosíssima. Imagina só o perigo que eu represento. Eu convido o senhor a sair na rua comigo, bora perguntar pro povo, eu e o senhor, em quem que eles confiam mais? Se é no político ou se é na dona de casa? Bora então, deputado. Quem tem que ter peso na consciência, quem tem que pensar nos filhos é o senhor. Quando o senhor vem aqui trabalhar e apontar o dedo e acusar uma dona de casa que passou a vida inteira trabalhando de estar praticando terrorismo, vê se tem cabimento num negócio desse. Tenha vergonha e ainda faz um discurso todo fingindo que tá preocupado com o povo. Pensa que o povo é idiota. Pensa que a gente não sabe que o senhor tá cagando pro povo. O senhor não tá nem aí pro povo. Então, senhor presidente, eu quero encerrar minha fala dizendo que eu não me arrependo, faria tudo de novo e faria quantas vezes fosse necessário, mesmo sabendo que não daria certo. Porque eu repito, eu tô tentando salvar o meu país de bandidos. Essa é a realidade. A menos que eu esteja maluca. Ou será que eu tô maluca? Que não tem bandido nenhum querendo dominar o Brasil, que nós estamos vivendo numa democracia, que nós estamos às mil maravilhas, que não tá acontecendo perseguição, que não tem ninguém sendo preso. Será que eu tô maluca? Porque se for como o deputado fala, se essa for a realidade, então, senhor presidente, vocês não têm que me levar pra cadeia, não. Vocês têm que me levar é pro hospício. Muito obrigado, senhor presidente.
Checagem
O conteúdo é falso. As imagens e a apresentação atribuídas ao episódio foram criadas com inteligência artificial, e as falas são reproduzidas por uma narração de imitador, cuja identidade não foi confirmada. Para esclarecer o caso, vamos responder a três perguntas: 1) Dona Raimunda detonou deputado de esquerda após ser chamada de terrorista na CPMI do 8 de Janeiro? 2) Como foi feito o conteúdo que aponta que Dona Raimunda detonou deputado após ser chamada de terrorista? 3) Há fake news similares a esta?
Dona Raimunda detonou deputado de esquerda após ser chamada de terrorista na CPMI do 8 de Janeiro?
O vídeo não mostra um depoimento real de uma mulher identificada como Dona Raimunda durante a CPMI do 8 de Janeiro. As mensagens apresentam uma narrativa dramática de confronto político, mas não fornecem um registro autêntico da sessão que comprove as falas atribuídas à mulher ou ao deputado.
Uma afirmação desse tipo poderia ser confirmada por meio da gravação oficial da sessão, de registros da CPMI ou de uma reportagem que identificasse os participantes. E ao buscar pelos originais, nada encontramos em fontes confiáveis.
Como foi feito o conteúdo que aponta que Dona Raimunda detonou deputado após ser chamada de terrorista?
O material combina imagens produzidas com inteligência artificial e uma narração que imita um depoimento político. A voz utilizada no vídeo não foi identificada, e não encontramos um registro que comprove que as frases atribuídas à mulher tenham sido pronunciadas durante uma sessão oficial da CPMI.
Esse formato é recorrente em conteúdos fabricados para redes sociais: imagens e falas inventadas são montadas como se fossem registros reais de debates ou entrevistas. A existência da CPMI e dos depoimentos sobre os atos de 8 de Janeiro não comprova que a cena apresentada tenha ocorrido.
Há fake news similares a esta?
Sim. O Boatos.org já checou outros conteúdos que afirmavam que personalidades conhecidas teriam “humilhado” ou “detonado” adversários em debates. Um deles dizia que Luiz Fux teria humilhado Janja em um debate no Senado ou na USP. O site também analisou a alegação de que José Dirceu teria tentado humilhar Nikolas Ferreira e recebido uma resposta ao vivo. Outro caso envolveu a história de que Maitê Proença teria humilhado Sérgio Reis durante um debate ao vivo. Essas narrativas usam confrontos e respostas supostamente contundentes para atrair atenção, mas precisam ser verificadas em registros originais.
Conclusão
É falso que o conteúdo mostre um depoimento autêntico de Dona Raimunda detonando um deputado durante a CPMI do 8 de Janeiro. As imagens e a apresentação foram criadas com inteligência artificial, e as falas são atribuídas a uma narração de imitador não identificado. As mensagens não apresentam registro oficial que comprove a discussão descrita.
Fake news ❌
Ps: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo e-mail [email protected] e WhatsApp (link aqui: https://wa.me/556192755610)