Estudantes mudam a cena, por Manuel Domingos Neto

Estudantes mudam a cena, por Manuel Domingos Neto

Participei de uma carreata em apoio à Lula. Não lembro de manifestação maior, mais espontânea, vibrante e alegre em minha cidade, Parnaíba, no litoral piauiense.

Convocado por jovens, um interminável cortejo de motos e carros percorreu bairros populares com pequenos aparelhos de som, poucas bandeiras, rarefeito material de propaganda. Não consegui adesivo para meu carro.

Nas calçadas, vi pessoas alegres, receptivas, gritando, acenando, pulando, dançando. Gente idosa, em cadeira de rodas, batia palmas. Difícil descrever o sentimento coletivo. Estive em todas as campanhas de Lula, mas nunca vi algo assim, que me remetesse à “Banda” de Chico Buarque.

No primeiro turno, prevaleceu a baixaria: cabos eleitorais de oligarquias sem escrúpulos compravam votos em larga escala e garantiam transporte até as urnas; pastores evangélicos amedrontavam fieis; funcionários públicos se continham com medo de perder posições; candidatos reclamavam votos em pagamento de pequenos benefícios garantidos por emendas parlamentares e apontavam malfeitos de seus concorrentes; estudantes e professores retraídos…

A modorra de cem anos de solidão abriu cancha à extrema direita.

Abertas as urnas, veio o choque e a depressão. Mas logo Parnaíba sintonizou o Brasil revirado pelo grito estudantil.

A cidade, cujo centro histórico é tombado como patrimônio nacional, acolhe milhares de jovens do interior do Piauí, do Ceará e do Maranhão, a maioria de famílias modestas.

Os jovens chegam sem saber escrever e sem entender o significado de nazismo, fascismo, colonialismo, imperialismo, nacionalismo…

Desconhecem Pixinguinha, Lima Barreto, Getúlio Vargas; não fazem ideia da importância da Amazônia e da Petrobrás. Ignoram o que foi a Ditadura Militar. Chegam em busca do diploma que promete garantir destino diferente do de seus pais, avós, bisavós…

O Brasil tem mais de 10.200.000 estudantes universitários. O ensino privado concentra quase 80% deste contingente. Mas, tanto a rede pública quanto a privada dependem de amparo governamental.

Os jovens, portanto, se arrepiam diante da possibilidade de inimigos da educação superior voltarem a governar o país.

O medo quebrou a pasmaceira de uma campanha eleitoral insípida. Como um raio, acendeu o confronto com a extrema-direita inspirada em Donald Trump.

Em poucos dias, os estudantes mudaram o quadro político-eleitoral brasileiro. Lotando ruas por todo o país, deixaram em apuros os delinquentes que querem voltar ao governo e ampliaram as chances de Lula.

Alguns consideram que os jovens não puxam novos votos para Lula. Essa é uma percepção de quem vê o Brasil a partir da avenida Paulista ou de Copacabana.

Estudantes lotando ruas disseminam emoções. Levantam o ânimo coletivo. Foram decisivos em episódios fundamentais da vida brasileira.

Dá para imaginar o abolicionismo sem o agitador Castro Alves, aos 17 anos, dizendo, no Recife, que a praça era do povo como o céu é do condor? Dá para imaginar o envio de expedicionários à Itália sem jovens se alistando espontaneamente e maldizendo o nazifascismo? De onde saíram os protagonistas do combate à Ditadura Militar?

A capilaridade do movimento estudantil é incalculável. Hoje, há cursos superiores em muitas cidades do interior. A maioria dos jovens mora em bairros populares e conhece a penúria. Constitui orgulho e esperança de suas famílias. Por mais que as redes de televisão escondam a amplitude de suas manifestações, suas proezas chegam aos celulares de todo o país.

Finalmente, ninguém passa impune pelo movimento estudantil, celeiro de novas percepções do processo histórico, novos valores, novas sensibilidades e, sobretudo, novas lideranças políticas.

Não há motivos para pensar que a rebeldia em curso seja contida após a abertura das urnas, dia 25. Em velocidade supersônica, formam-se novos protagonistas na cena política brasileira.

Meu renitente pessimismo pede trégua. Acho que Lula vai ganhar e governará contingenciado não apenas por oligarquias reacionárias: terá que ouvir estridente massa estudantil sedenta de perspectivas promissoras.

Se der ruim, se os bajuladores de Trump levarem a melhor, governarão assediados por estudantes enfurecidos. A repressão se encarregará de ampliar os protestos.

Os estudantes mudaram o ambiente político-eleitoral. Exprimem, agora, demandas longamente reprimidas pela calcificação do sistema partidário.

Manuel Domingos Neto nasceu em Fortaleza em 1949. Graduou-se em História pela Universidade de Paris VI, em 1976. Obteve o título de Mestre em Sociedade e Economia na América Latina, pela Universidade de Paris III, em 1976, e o título de Doutor em História pela mesma universidade, em 1979. Foi pesquisador da Casa de Rui Barbosa, superintendente da Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí, estado pelo qual também foi deputado federal. Professor da Universidade Federal do Ceará e professor associado da Universidade Federal Fluminense, foi também vice-presidente do CNPq e presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED).

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