Pobreza multidimensional volta a crescer no mundo pela primeira vez desde 2010, aponta ONU

Relatório do PNUD e da Universidade de Oxford mostra que 1,2 bilhão de pessoas vivem simultaneamente com privações em saúde, educação e condições básicas de vida. Crianças representam mais da metade dos pobres, 83% vivem em áreas rurais e a África Subsaariana concentra o maior contingente.

Da Redação

A pobreza multidimensional aumentou no mundo pela primeira vez desde que o indicador global começou a ser calculado, em 2010. A atualização divulgada nesta segunda-feira (12) pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, em parceria com a Universidade de Oxford, estima que 1,2 bilhão de pessoas vivam atualmente em situação de pobreza multidimensional aguda nos 108 países analisados. São aproximadamente 51,5 milhões de pessoas a mais do que na atualização anterior, numa mudança que interrompe uma longa trajetória de redução do número global de pessoas submetidas simultaneamente a diferentes formas de privação. UNDP

O número representa 18,9% dos 6,3 bilhões de habitantes abrangidos pela pesquisa. A dimensão do problema aparece com ainda mais força quando se observa quem está dentro dessa estatística: 617 milhões são crianças, o equivalente a mais da metade de toda a população considerada multidimensionalmente pobre. Aproximadamente 83% vivem em áreas rurais, onde a distância dos serviços públicos, a precariedade da infraestrutura e a maior vulnerabilidade econômica costumam fazer com que diferentes carências se acumulem dentro do mesmo domicílio. Relatórios de Desenvolvimento Humano

O índice utilizado pela ONU não mede pobreza apenas pelo dinheiro disponível para uma família. Ele procura identificar situações em que diferentes privações se sobrepõem. São avaliados dez indicadores distribuídos entre saúde, educação e padrão de vida, incluindo nutrição, mortalidade infantil, anos de escolaridade, frequência das crianças à escola, acesso à água potável, saneamento, eletricidade, condições de moradia, combustível utilizado para cozinhar e posse de bens básicos. Uma pessoa é classificada como multidimensionalmente pobre quando seu domicílio apresenta privação em pelo menos um terço do peso total desses indicadores. UNDP

Essa diferença metodológica é fundamental para compreender os números. O relatório não afirma que 1,2 bilhão de pessoas estejam necessariamente abaixo de uma determinada renda monetária. Ele mostra algo mais amplo: centenas de milhões vivem em lares nos quais dificuldades materiais aparecem simultaneamente em áreas capazes de determinar desde a expectativa de vida até a possibilidade de uma criança completar a escola.

Crianças carregam mais da metade da pobreza

A concentração da pobreza multidimensional entre crianças é um dos dados mais contundentes do levantamento. Embora os menores de 18 anos não constituam metade da população analisada, eles representam 51,5% de todas as pessoas classificadas nessa condição. Quase uma em cada três crianças incluídas na base do índice vive em pobreza multidimensional.

Esse dado revela uma característica particularmente grave da desigualdade: as privações aparecem numa fase da vida em que seus efeitos podem acompanhar uma pessoa por décadas. Uma criança que vive numa residência sem saneamento adequado, enfrenta desnutrição e não frequenta regularmente a escola não sofre três problemas separados. As carências se reforçam entre si.

Má alimentação aumenta o risco de doenças. Doenças dificultam a presença na escola. A baixa escolaridade reduz posteriormente o acesso ao emprego e à renda. A falta de eletricidade ou de água segura compromete tanto a saúde quanto o tempo disponível para estudar ou trabalhar. É justamente esse encadeamento que o conceito de pobreza multidimensional tenta capturar.

A geografia do problema é igualmente desigual. A África Subsaariana concentra 616 milhões de pessoas em pobreza multidimensional, o equivalente a 51,4% da população coberta pelo índice na região. O Sul da Ásia aparece em seguida, com aproximadamente 393 milhões. Juntas, essas regiões concentram a maior parte dos pobres multidimensionais do planeta. Relatórios de Desenvolvimento Humano

A desigualdade territorial aparece também dentro dos próprios países. O levantamento de 2026 reúne estimativas subnacionais para 1.360 regiões em cem países, permitindo observar situações em que médias nacionais escondem diferenças profundas entre áreas metropolitanas, regiões rurais e territórios historicamente marginalizados. Relatórios de Desenvolvimento Humano

Aumento global não significa retrocesso em todos os países

O fato de o número mundial ter aumentado exige uma leitura cuidadosa. A própria ONU destaca que parte da elevação decorre do crescimento populacional e de atualizações metodológicas, e não simplesmente de um aumento uniforme da taxa de pobreza em todos os países.

Nos 95 países em que não houve nova pesquisa domiciliar neste ano, a atualização das estimativas populacionais acrescentou cerca de 15,8 milhões de pessoas ao contingente calculado de pobres. O restante da mudança decorre de uma combinação entre aumento ou redução da incidência da pobreza em diferentes países, transformações demográficas e diferenças na disponibilidade dos indicadores utilizados nas pesquisas. UNDP

Os 13 países que receberam dados novos apresentam trajetórias muito diferentes. Egito, Nepal e Tajiquistão conseguiram reduzir de maneira significativa tanto a proporção quanto o número absoluto de pessoas em pobreza multidimensional. Angola e Zâmbia também diminuíram a proporção de pobres, mas o crescimento da população foi superior à velocidade dessa redução, fazendo com que o número total de pessoas atingidas ainda aumentasse. UNDP

A Nigéria oferece um caso particularmente preocupante. O país havia conseguido avanços importantes durante a década de 2010, mas a tendência se reverteu nos anos 2020. Tanto a taxa quanto o número absoluto de pessoas em pobreza multidimensional voltaram a crescer, evidenciando como conquistas sociais podem ser perdidas quando crises econômicas, demográficas ou políticas interrompem processos de melhoria de longo prazo. UNDP

A mensagem do relatório, portanto, não é simplesmente a de que todas as regiões ficaram mais pobres. Ela mostra que o avanço global deixou de ser suficiente para compensar retrocessos, crescimento populacional e dificuldades persistentes nos países que concentram as maiores populações vulneráveis.

Pobreza de renda e pobreza multidimensional medem realidades diferentes

Outro cuidado importante é não confundir o novo indicador com as estimativas tradicionais de extrema pobreza calculadas pelo Banco Mundial.

Em setembro, o Banco Mundial estimou que cerca de 824 milhões de pessoas, aproximadamente uma em cada dez no planeta, viviam com menos de US$ 3 por dia em 2024, segundo sua linha internacional atualizada. Esse número é inferior aos 1,2 bilhão registrados pelo índice da ONU porque as duas metodologias não medem exatamente a mesma coisa. World Bank Blogs

Uma pessoa pode estar acima de determinada linha monetária e ainda morar sem saneamento, eletricidade ou água potável. Da mesma forma, outra família pode apresentar renda muito baixa, mas viver em uma região onde serviços públicos universais garantem escola, atendimento de saúde e infraestrutura básica.

É por isso que os organismos internacionais utilizam indicadores diferentes e complementares. Renda mede a capacidade econômica imediata. A pobreza multidimensional procura revelar aquilo que o dinheiro, isoladamente, não consegue mostrar.

O dado divulgado nesta segunda-feira adquire ainda maior significado porque aparece num contexto de crescimento econômico mundial relativamente fraco. A ONU projeta expansão global abaixo da média observada antes da pandemia, enquanto países pobres enfrentam menor espaço fiscal, endividamento elevado e maior exposição a choques de preços, guerras e eventos climáticos extremos. A combinação reduz a capacidade de governos ampliarem investimentos sociais justamente quando a demanda por proteção aumenta. DESA Publicações

Não por acaso, crises recentes de energia e alimentos já deixaram uma marca adicional sobre a pobreza monetária. Estudo do Fundo Monetário Internacional estima que os choques de custo de vida ocorridos entre 2021 e 2024 deixaram cerca de 23 milhões de pessoas adicionais em extrema pobreza em comparação com as projeções anteriores às crises. Famílias de baixa renda foram atingidas de maneira desproporcional porque gastam parcela muito maior de seus recursos com alimentação e energia. Reuters

Relatório mostra também que redução rápida é possível

Apesar da reversão mundial, o levantamento não apresenta um cenário sem saída. Entre os 89 países para os quais existem dados suficientes para acompanhar tendências ao longo do tempo, 33 conseguiram reduzir pela metade seu Índice de Pobreza Multidimensional em menos de 15 anos. Seis deles estão na África Subsaariana. UNDP

Eswatini aparece entre os casos mais expressivos: a proporção de pessoas em pobreza multidimensional caiu de 38,7% para 8% em aproximadamente 15 anos. A China registrou a redução mais rápida entre os países com dados comparáveis, diminuindo sua taxa de 9,5% para 4,2% entre 2010 e 2014. O Vietnã conseguiu reduzir seu índice pela metade em sete anos. UNDP

Essas experiências ajudam a desmontar a ideia de que pobreza extrema e privações estruturais sejam fenômenos inevitáveis. Os resultados variam segundo a realidade de cada país, mas avanços geralmente aparecem quando políticas de saúde, educação, infraestrutura, nutrição e geração de renda são executadas simultaneamente, em vez de tratar cada privação como um problema isolado.

Essa é precisamente a lógica do índice criado pelo PNUD e pela iniciativa de Oxford. Uma família dificilmente deixa uma situação estrutural de pobreza apenas porque uma de suas dificuldades foi solucionada. A expansão de renda pode perder efeito quando não existe escola próxima. Um novo posto de saúde tem alcance limitado numa comunidade sem saneamento. Uma criança matriculada pode continuar afastada das aulas pela fome ou pela necessidade de trabalhar.

A pobreza multidimensional é, em grande medida, a soma dessas ausências.

Ao anunciar os resultados, o administrador do PNUD, Alexander De Croo, classificou o aumento como um alerta para o mundo e destacou que as diferentes privações tendem a se reforçar. O desafio definido pelas Nações Unidas para 2030 é reduzir pelo menos pela metade a proporção de homens, mulheres e crianças vivendo em pobreza em todas as suas dimensões. A nova atualização mostra que esse objetivo se tornou mais difícil, mas também registra dezenas de países que demonstraram ser possível avançar em velocidade suficiente. UNDP

O dado mais importante do relatório talvez esteja justamente nessa contradição. A humanidade dispõe hoje de mais riqueza, tecnologia e capacidade produtiva do que em qualquer momento anterior de sua história, mas 1,2 bilhão de pessoas ainda convivem simultaneamente com algumas das privações mais básicas da vida moderna.

Mais de 600 milhões delas são crianças.

E, pela primeira vez desde 2010, a direção global deixou de ser de redução e passou a apontar para cima.

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