
As mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, revelam um universo de festas privadas, pagamentos milionários, recrutamento de mulheres e relações com figuras poderosas.
Entre os episódios investigados pela Polícia Federal, há referência a um “ministro com 5 meninas” em uma festa no triplex do empresário, em São Paulo, em 28 de fevereiro de 2025. Dias depois, uma mulher cobrou R$ 10 mil pela participação de uma amiga e contou que ela havia ficado com “Kassio”. Os diálogos foram divulgados pelo UOL.
O caso vai se tornar ainda mais delicado para os envolvidos quando (e não “se”) as mulheres recrutadas para esses eventos decidirem relatar publicamente o que viveram e revelar quem as frequentava. Jeffrey Epstein, o bilionário americano condenado por solicitação de prostituição e aliciamento de menores de idade para prostituição, foi durante anos protegido pelo silêncio em torno de sua rede de abuso sexual. A coragem de suas vítimas ajudou a expor o sistema.
Vorcaro, ao que tudo indica, fazia tráfico internacional de pessoas. O empresário desembolsou pelo menos R$ 4,3 milhões em uma rede de recrutamento de jovens para encontros privados no Brasil e no exterior. Eram russas, ucranianas, venezuelanas, argentinas e polonesas, em orgias em São Paulo, Londres, Paris, Roma e Dubai.
Em novembro de 2023, quando um interlocutor informou que havia três refugiadas ucranianas no Brasil, Vorcaro respondeu: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”. Uma delas, de 19 anos, havia deixado a Ucrânia em meio à guerra e, segundo as mensagens, não tinha condições de retornar à sua cidade, que sofria bombardeios.
As mensagens mostram a preocupação com a seleção delas, a permanência no grupo e a organização de viagens. Vorcaro e seu bando usavam expressões como “escravas”, “kengas” e “creche”. Num Halloween em São Paulo, dezenas de garotas estiveram em quartos reservados em um hotel, servindo os homens.
Uma festinha de fevereiro de 2025 custou R$ 62,3 mil e contou com a contratação de um chefe de cozinha. Os celulares das convidadas foram recolhidos (será que foram, mesmo? Todos? Eu não apostaria nisso). Vorcaro não estava no local, mas recebia atualizações de um funcionário identificado como Michael.

Às 20h56, Michael escreveu: “Emprestei quarto do lado para ministro com 5 meninas”. Mais tarde, informou que o ministro não tinha pressa para ir embora e que estaria renovando para “começa tudo novamente”. Às 23h17, o funcionário afirmou que estava indo embora com ele. Em 7 de março, uma mulher identificada como Rayanna cobrou o pagamento de uma amiga e escreveu: “Ela disse que ficou com o kassio”. O valor mencionado foi de R$ 10 mil, e Vorcaro pediu os dados para a transferência.
Em 2019, uma reportagem de Julie K. Brown, do Miami Herald, recuperou relatos de vítimas que haviam tentado denunciar o esquema de Jeffrey Epstein.
Virginia Giuffre contou que tinha 16 anos quando foi recrutada pela cafetina Ghislaine Maxwell e obrigada a manter relações sexuais com Epstein e outras pessoas. Outras sobreviventes também falaram sobre os abusos e a dificuldade de obter justiça. Epstein foi encontrado morto em sua cela em 2019, enquanto aguardava julgamento.
As vítimas não podem ser reduzidas a personagens anônimas de orgias com homens ricos. São pessoas com histórias próprias, direitos e voz. O caminho para a responsabilização depende de que possam falar sem intimidação, de que as autoridades protejam sua segurança e de que denúncias sejam investigadas com independência.
Depois que a primeira mulher do círculo de Vorcaro falar, outras falarão. É natural que elas tenham medo no momento. São a bomba-relógio da patota do amigão de Flávio Bolsonaro.