Milei corta novas aposentadorias em 53% e expõe riscos do plano de Flávio Bolsonaro

O ajuste fiscal promovido pelo presidente argentino Javier Milei, apontado como inspiração pela equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL), reduziu em 53% o ingresso de novos aposentados na Argentina entre o primeiro semestre de 2024 e o mesmo período de 2026. Os dados, retirados dos Boletins Estatísticos da Previdência Social (BESS), revelam os efeitos das medidas de austeridade sobre o acesso à aposentadoria.

A menos de duas semanas do segundo turno, marcado para 25 de outubro, a experiência argentina acende um alerta no Brasil e reforça as cobranças do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao adversário. Diante da promessa de um amplo “tesouraço” nas contas públicas, Lula exige respostas de Flávio: de onde sairão os cortes e quem será atingido por eles?

Na Argentina, restrições ao acesso à Previdência, mudanças nos reajustes e congelamento de benefícios complementares transformaram as aposentadorias em parte do ajuste econômico. A comparação ganha relevância porque o governo argentino é uma referência assumida pela campanha bolsonarista.

Milei restringe acesso à aposentadoria

O número de novos aposentados argentinos caiu de 213,9 mil, no primeiro semestre de 2024, para 99,6 mil no mesmo período de 2026. A redução ocorreu após Milei deixar expirar, em março de 2025, a moratória que permitia regularizar períodos sem contribuição.

Sem essa possibilidade, quem não reúne os requisitos contributivos passou a depender da Pensão Universal para o Idoso (PUAM), equivalente a 80% da aposentadoria mínima. Para as mulheres, o benefício só é concedido a partir dos 65 anos.

Outra mudança ocorreu em março de 2024, quando Milei substituiu a fórmula de reajuste baseada em salários e arrecadação previdenciária por correções mensais vinculadas exclusivamente à inflação.

Levantamento do Centro de Economia Política Argentina (CEPA) mostra que, em junho de 2026, a aposentadoria mínima, sem bônus, chegou a 403.327 pesos. Pela fórmula anterior, alcançaria 490.621 pesos, valor 21,6% superior.

A diferença não representa corte nominal, mas quanto os benefícios deixaram de crescer no acumulado. O próprio CEPA reconhece que, em alguns trimestres, a fórmula de Milei garantiu reajustes maiores.

Segundo o instituto, entre março e maio de 2026, o poder de compra das aposentadorias estava 2,5% abaixo do último trimestre do governo anterior, sem bônus, e 18,9% abaixo quando considerado o complemento.

O bônus de 70 mil pesos está congelado desde março de 2024. Se acompanhasse os reajustes, chegaria a 209.994 pesos. O CEPA também cita avaliação do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que a mudança previdenciária ajudou a moderar os gastos públicos.

As restrições atingiram ainda os medicamentos gratuitos, agora limitados pelo Instituto Nacional de Serviços Sociais para Aposentados e Pensionistas (Pami), a aposentados com renda de até 1,5 vez o benefício mínimo.

O modelo que inspira Flávio Bolsonaro

A aproximação entre os projetos ganhou força quando Daniella Marques, integrante da coordenação econômica de Flávio, declarou à Exame:  “Vamos usar de inspiração o que foi feito pelo governo de Javier Milei, na Argentina.”

Atualmente, as aposentadorias vinculadas ao salário mínimo acompanham a política de valorização do piso nacional, com possibilidade de ganhos reais de até 2,5% acima da inflação.

A desindexação, defendida por setores do mercado financeiro, poderia limitar os reajustes à inflação, como ocorreu na Argentina. Embora Flávio negue essa intenção, seu programa não esclarece como conciliaria a preservação dos benefícios com o ajuste prometido.

Lula desafia Flávio: quem vai pagar a conta?

O programa Para o Brasil Vencer o Atraso prevê extinguir pelo menos dez ministérios, retomar privatizações e rever a reforma tributária. Entretanto, não identifica quais pastas seriam eliminadas nem apresenta estimativa consolidada da economia pretendida. Embora não exista cifra oficial no documento protocolado no TSE, valores entre R$ 190 bilhões e R$ 250 bilhões circulam no debate eleitoral.

Diante disso, Lula intensificou as cobranças. Durante caminhada em Natal (RN), no sábado (10), questionou: “É preciso que a sociedade comece a se perguntar: de onde vai ser esse corte? Não conheço ninguém da elite que governou esse país que teve coragem de cortar dos empresários”.

Nas redes sociais, o presidente também vem reforçando esse questionamento a Flávio: “Eu e o povo queremos saber: de onde você vai cortar R$ 250 bilhões com o tesouraço?”

Lula questiona se o ajuste atingiria aposentadorias, Bolsa Família e outras políticas sociais. Flávio, por sua vez, promete preservar os benefícios existentes e nega que pretenda retirar direitos previdenciários.

A experiência argentina não significa que o mesmo ocorrerá no Brasil, mas evidencia os efeitos possíveis de um ajuste que utiliza a Previdência para conter despesas.

Ha exatamente 12 dias do segunfo turno, permanece a pergunta: se aposentadorias e programas sociais serão preservados, onde Flávio Bolsonaro pretende aplicar a tesoura e quem pagará a conta?

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Com informações de agências

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