Mídia, poder e discurso: Democracia em xeque – quando a manipulação ameaça a disputa eleitoral
por Júlia Klein Caldas e Bruno Lima Rocha
Ao longo do primeiro turno das Eleições Gerais de 2026, a manipulação dos algoritmos foi gritante, em uma ação premeditada por determinados setores para incidir sobre o debate público brasileiro. Mas a disputa pela produção de sentidos no campo político não ocorre apenas nas plataformas digitais: a grande mídia também desempenha papel central na definição do que ganha visibilidade, de como os acontecimentos são enquadrados e de quais discursos devem alcançar o público. Nesse cenário, os conglomerados de comunicação têm ampliado sua dependência de fontes de financiamento, em detrimento de modelos tradicionalmente baseados em publicidade, assinaturas de TV e programação paga, aspecto que também merece atenção quando se discute a influência dos interesses econômicos destas empresas sobre o debate público.
Inseridos na economia da atenção, os conglomerados empresariais passaram a operar como uma espécie de “segunda tela” de si mesmos: banalizam o conteúdo, transformam questões estruturais em espetáculo e reiteram, de maneira quase permanente, as causas que atendem aos seus interesses. A mais explícita delas é a insistência em anunciar que o “mercado está nervoso” e em apresentar os “cortes de gastos” como uma necessidade inevitável, naturalizando uma agenda econômica que raramente é submetida ao mesmo escrutínio reservado a outras posições políticas.
Mais sutil (e talvez mais perigosa) é a pretensão de neutralidade diante da ascensão do neofascismo, da penetração do crime organizado nas campanhas políticas e da crescente articulação entre interesses ilícitos, financiamento eleitoral e sistema financeiro. Nesse contexto, a neutralidade deixa de ser ausência de uma posição crítica e passa a funcionar como uma forma de posicionamento: ao tratar forças antidemocráticas e interesses econômicos assimétricos, como se fossem apenas mais um elemento do jogo político, a grande mídia contribui para normalizá-los e ampliar sua legitimidade no debate público.
Nunca foi simples debater finanças públicas e, menos ainda, estabelecer relações entre políticas sociais e decisões de governo. No século XXI, esse desafio se torna ainda maior diante da centralidade das redes sociais e dos serviços de mensagens como fontes de informação. Nesses ambientes digitais, a circulação de conteúdos tende a se restringir a circuitos relativamente fechados, enquanto o debate nos grupos sociais primários, como família, amigos e ambiente de trabalho, nem sempre alcança a amplitude necessária para promover uma discussão pública qualificada.
Diante disso, como reduzir os efeitos dessa fragmentação? Uma das possibilidades estaria justamente no debate público promovido pelos meios de comunicação. No entanto, esse espaço também enfrenta limitações, seja pela interferência dos interesses empresariais (e políticos) sobre a produção jornalística ou mesmo pela autocensura dos profissionais que, diante da precarização do trabalho, preferem evitar determinados temas ou posicionamentos para preservar seus empregos.
Logo, não basta criticar os grandes meios ou denunciar nossa condição de reféns dos algoritmos: é preciso regular as redes sociais, conter abusos empresariais e responsabilizar quem manipula deliberadamente esses sistemas. Ainda assim, essas medidas, embora necessárias, não resolvem por si sós o problema.
Volta aos clássicos
Revisitando as teorias clássicas da comunicação, vemos que a formação da opinião pública ocorre, no mínimo, em duas etapas. Na terceira década do século XXI, porém, o desafio já não se limita a debater ou produzir uma “segunda tela” dos conteúdos veiculados pela mídia hegemônica, mas enfrentar a circulação de narrativas capazes de alcançar maior impacto do que os próprios fatos. Em uma situação ideal, a informação circulante seria menos histriônica e mais orientada pela racionalidade. Nesse cenário, a própria mídia corporativa também demonstraria maior preocupação com sua reputação e menos disposição para assumir posições propagandísticas de forma explícita.
Se assim fosse, seria difícil compreender o expressivo desempenho eleitoral do filho mais velho de Jair Bolsonaro no primeiro turno das Eleições de 2026. Uma análise baseada na trajetória política, na atuação parlamentar e nos aspectos controversos de sua vida pública poderia produzir uma avaliação distinta daquela construída por parte do eleitorado. Nesse contexto, a valorização do progresso material em detrimento da empatia coletiva e o enfraquecimento da capacidade crítica podem ser observados na idealização da figura do “empreendedor”, na associação entre sucesso e consumo de bens inacessíveis à maior parte da população e na circulação de crenças e afirmações sem respaldo factual, algumas próximas do absurdo, como a defesa da ingestão de detergente como suposto recurso terapêutico.
A necessidade mais urgente para esse momento é fortalecer uma rede de debate capaz de participar ativamente da formação da opinião pública, articulada a partir dos espaços coletivos, dos territórios e das relações sociais diretas. Tampouco parece suficiente disputar apenas a lógica dos algoritmos para reverter a perda de espaço no debate público, uma vez que as redes sociais estão submetidas aos interesses das grandes empresas que as controlam. Sem recuperar a dinâmica da comunicação em duas etapas, formulada pela tradição estadunidense dos estudos comunicacionais, a opinião pública deixa de ser apenas condicionada pelas versões veiculadas pelos meios de comunicação e passa a ficar circunscrita aos circuitos fechados das bolhas digitais.
Podemos tomar como referência a experiência mexicana, na qual setores progressistas ampliaram sua presença territorial e, assim, passaram a disputar a circulação de informações tanto com a mídia hegemônica quanto nas redes sociais. Uma iniciativa semelhante no Brasil exigiria uma articulação organizada, com orientação a participação de pessoas experientes em comunicação e mobilização. Esse, porém, é apenas um dos caminhos possíveis. O desafio que temos hoje é o de construir alternativas à concentração de poder e tirania das grandes plataformas, que sequestra o debate público na democracia de massas do Brasil.
Autora: Dra.Júlia Klein Caldas – Pesquisadora, doutora e mestra em Linguística Aplicada pela Unisinos, Especialista em Planejamento de Comunicação e Gestão de Crises de Imagem e jornalista. Realiza estágio pós-doutoral na UFSCar. Integra os grupos de pesquisa Economia Política da Comunicação e da Cultura (EPCC/CNPq) e Laboratório de Estudos Epistemológicos e de Discursividades Multimodais (LEEDiM/UFSCar).
Autor: Dr.Bruno Lima Rocha – Pesquisador, doutor e mestre em Ciência Política pela UFRGS. Fez estágio pós-doutoral em Comunicação na UFF e em Economia Política na UFRGS. Possui mais de 15 anos de experiência como docente nas áreas de Relações Internacionais, Ciência Política e Jornalismo. Analista e comentarista político nacional e internacional. Atua também com projetos de comunicação popular, com foco em radiodifusão comunitária.
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