Presidência da República não é extensão de sobrenome
por Francisco Celso Calmon e Leticia Mendonça
Uma eleição presidencial não deveria ser transformada em concurso de sobrenomes. Muito menos em ato de fé. Quem pede o voto para ocupar a Presidência da República pede a confiança de milhões de brasileiros para administrar o Estado, definir prioridades, nomear autoridades, conduzir políticas públicas e representar o país.
Jair Bolsonaro nomeou seu filho, Flávio Bolsonaro, aos 21 anos para um cargo presencial em Brasília, enquanto ele fazia estágio de Direito pela UFRJ, também presencialmente. Flávio completou o estágio, logo, não comparecia para assumir suas responsabilidades, sendo um funcionário fantasma em Brasília.
Quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro foi alvo de investigação do Ministério Público a partir de movimentações financeiras, as chamadas rachadinhas, há o esquema de lavagem de dinheiro na franquia da Kopenhagen, as inúmeras relações íntimas com milicianos e entregas de honrarias a eles.
E agora há a relação com Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. Em 2026, vieram a público gravações e documentos relacionados às conversas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro para o financiamento do filme Dark Horse, produção ligada à imagem de Jair Bolsonaro. Reportagens apontaram uma negociação que chegaria a cerca de R$ 134 milhões. A lista é longa e tende a aumentar a cada nova conversa que é revelada do celular de Daniel Vorcaro.
Muitas perguntas, nenhuma resposta, e a tentativa de Flávio Bolsonaro de levar, novamente, o sobrenome do clã para o Palácio do Planalto na intenção de realizar o dobro de horrores que seu pai cometeu no poder. Se eleito, Flávio entregará o Brasil de bandeja para Trump, deixando a nação e as riquezas de nosso país à mercê de um crápula sem escrúpulos.
A Presidência da República não é extensão de sobrenome. Não basta ser filho de Jair Bolsonaro. Não basta carregar uma marca política conhecida. Não basta mobilizar uma parcela do eleitorado em torno de uma família. Quem pretende governar o país precisa apresentar um projeto econômico, social, institucional e democrático capaz de responder aos anseios concretos de milhões de brasileiros.
É preciso saber o que se pretende fazer com a economia, com os serviços públicos, com a segurança, com a educação, com a saúde, com o trabalho, com a política externa e com as instituições democráticas. É preciso saber quais serão seus aliados, quais interesses terão acesso ao governo e quais compromissos serão assumidos em nome da população.
A democracia não exige que o eleitor aceite o político como ídolo e nem adversário como inimigo. Exige justamente o contrário: que todos sejam submetidos ao escrutínio público. Que se pergunte sobre dinheiro. Sobre relações. Sobre patrimônio. Sobre projetos. Sobre aliados. Sobre compromissos. Sobre aquilo que foi prometido e aquilo que efetivamente foi feito.
É por isso que a candidatura de Flávio Bolsonaro é um risco para a soberania do Brasil. Flávio Bolsonaro é um risco à nação brasileira.
Sem culto ao sobrenome.
Sem blindagem política.
Porque voto não é herança familiar.
Voto é confiança pública. É delegação.
E confiança pública, numa democracia, se conquista com transparência, responsabilidade e prestação de contas.
Flávio é retrocesso à ditadura. Lula é progresso civilizatório.
Não arrisquem o futuro dos seus filhos e netos.
Votem no certo e não no incerto de uma aventura, como fora o Collor de Mello.
Francisco Celso Calmon e Leticia Mendonça
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “