Sakamoto: Tarcísio usa fake de droga para ajudar Flávio, mas ignora os 27 tiros da PM

Tarcísio usa imagem produzida fora do Brasil para criticar atos pró-Lula. Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Por Leonardo Sakamoto, no Uol

Para dar aquela força a Flávio na tentativa de deslegitimar a manifestação pró-Lula que tomou a avenida Paulista, neste domingo (11), o governador Tarcísio de Freitas decidiu embarcar na onda criada pelo bolsonarismo para tentar convencer a sociedade de que o evento foi um festival de violência e depredação.

Distribuiu um vídeo que mostrava uma jovem supostamente consumindo drogas no meio da multidão. A narrativa seria perfeita, de que a Paulista virou uma cracolândia, se não fosse por um detalhe apontado pela agência de checagem Aos Fatos: as imagens da moça já circulavam na internet pelo menos um dia antes de a manifestação na Paulista sequer começar. E no Chile. Ou seja, usou uma mentira para embasar o seu argumento.

Ou seja, a menos que a jovem em questão tenha utilizado uma máquina do tempo para ir ao futuro usar drogas e voltado ao passado para postar o vídeo, a história é uma fraude.

Não se exige que Tarcísio tenha noções avançadas de física quântica para saber que máquinas do tempo não existem, mas espera-se que ele tenha o mínimo de cuidado e pudor com o material que chancela e distribui como fato. Afinal de contas, ele é o governador do estado mais populoso do país. Que Flávio Bolsonaro também tenha compartilhado o mesmo vídeo, convenhamos, não causa surpresa a um total de zero pessoas.

Polícia Militar de São Paulo
Jovem é morto com 27 tiros em abordagem policial em Moema, na Zona Sul de SP. Foto: Reprodução/TV Globo

A tentativa de criminalizar o ato se escorou também em uma cena de pichação em uma estação de metrô, em que dez pessoas subiram sobre a estrutura. Isso em um universo de dezenas ou centenas de milhares. Usar uma minoria para rotular o evento inteiro é um exercício de desonestidade intelectual.

Seria o equivalente a dizer que toda a Polícia Militar de São Paulo está vendida ao PCC por conta do desvio de conduta de alguns maus policiais. Ou, na mesma linha lógica, afirmar que Tarcísio de Freitas fraudou bilhões em créditos de ICMS apenas porque servidores operavam de forma criminosa sob o seu guarda-chuva.

É uma extrapolação que não para em pé. A matemática básica resolve a questão: se apenas 10% dos presentes tivessem resolvido depredar a cidade, a Paulista estaria em ruínas neste exato momento. Contudo, o que se viu foi uma manifestação majoritariamente pacífica, tal qual ocorreu no ato pró-Lula em Copacabana, no Rio, nesta segunda-feira, e em outros atos bolsonaristas realizados nos dois locais.

Enquanto o governador do estado de São Paulo gasta tempo divulgando fake sobre segurança pública, a família de Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, o enterrava no Cemitério Congonhas, na zona sul. Ele foi atingido por 27 dos 45 disparos feitos por policiais durante uma abordagem em Moema.

Gustavo não tinha antecedentes criminais e fazia tratamento com antidepressivos. A PM havia sido acionada após um chamado sobre um homem supostamente transtornado, que estaria ameaçando tirar a própria vida. Era, portanto, uma ocorrência que, pela própria natureza do chamado, exigia cuidado extremo, preparação e procedimentos voltados à preservação de uma vida.

A versão registrada pelos policiais sustenta que ele teria corrido ao perceber a chegada da equipe, se refugiado em um imóvel e, posteriormente, apontado um objeto escuro na direção dos agentes. Mas o único objeto encontrado junto ao corpo era um telefone celular. Gustavo era negro, o que é informação importante diante da violência policial.

A família contesta a narrativa de que o jovem estivesse em surto ou apresentasse comportamento suicida. Segundo a advogada dos familiares, o tratamento para depressão não envolvia episódios de tentativa de suicídio ou automutilação. A Secretaria da Segurança Pública anunciou a abertura de um inquérito e diz que não tolera desvios de conduta. Mesmo assim, eles acontecem.

Governar não é subir o tom nas redes sociais contra quem pensa diferente, mas responder pelo funcionamento das instituições que estão sob sua responsabilidade, sobretudo quando agentes armados do Estado protagonizam uma ocorrência tão devastadora.

Não se trata de condenar antecipadamente os envolvidos, nem de atribuir a Tarcísio responsabilidade pessoal pelos disparos, mas de exigir do chefe do Executivo a mesma energia que demonstra para denunciar supostos delitos de manifestantes quando o assunto é a atuação da polícia que comanda. Cadê o vídeo de indignação?

Se uma jovem supostamente usando drogas em um vídeo produzido em outro país merece a atenção do governador, que atenção merece uma família paulista obrigada a reconhecer o corpo do filho depois de 27 tiros? O vídeo apresentado como prova era falso em seu contexto. Os 27 tiros foram reais, tal como o velório, o enterro foi real e a dor da família.

O problema de segurança pública que exige explicações de Tarcísio não está no vídeo de fora do país, está no corpo de Gustavo, enterrado em São Paulo.

 

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