
“Não me deixem partir sem garantia de que a democracia está assegurada.”
Como ouvir esse pedido, feito por uma mulher de 91 anos que dedicou décadas à vida pública, sem sentir o peso da responsabilidade que ele nos transfere? Luiza Erundina não nos pede apenas que preservemos uma palavra inscrita nas leis e nas instituições. Pede que defendamos a democracia, que a ampliemos e que não permitamos que ela se torne privilégio de poucos, enquanto tantos brasileiros continuam privados dos direitos que deveriam ser assegurados a todos.
A trajetória de Erundina pertence à história de mulheres e homens que enfrentaram obstáculos, perseguições e preconceitos para conquistar o direito de participar das decisões do país. Nada lhes foi oferecido espontaneamente pelos donos do poder. Tudo foi alcançado com brava resistência e organização. Com muita luta, insistência e perseverança. E aquilo que uma geração conquista pode ser perdido pela seguinte quando os direitos deixam de ser reconhecidos como conquistas que precisam ser defendidas e passam a ser tratados como garantias definitivas.
Herdamos um país respirável, legado por aqueles que enfrentaram a ditadura que perseguiu, prendeu, torturou e matou. Resistiram e derrotaram o regime civil-militar que mergulhou o Brasil em 21 anos de trevas. Trevas profundas, densas, sufocantes. Anos em que o medo foi o instrumento do poder. Anos malditos, gestados pela aliança entre a farda e o terno, entre as armas e os interesses das elites que deram o golpe e o sustentaram.
#repost• @luizaerundina
É Lula! Bora Lula! #boralula https://t.co/Dlm5sKh7yo— Glauber Braga (@Glauber_Braga) October 11, 2026
A sociedade derrotou a ditadura, mas não extirpou as forças que a tornaram possível. Seus beneficiados e saudosistas da corrupção escondida, da pobreza da maioria, da fome, da privação das liberdades mais elementares, da censura e de tantas outras misérias humanas continuam entre nós, e a extrema direita voltou a se assanhar contra a democracia. A ditadura ensaia um revival, e o fascismo encontra, no útero achocolatado de Flávio Bolsonaro, sempre prenhe de rachadinhas, o ventre ideal para sua gestação.
É contra essa ameaça, mas também contra a permanência dos privilégios que historicamente sustentam a desigualdade brasileira, que precisamos nos mobilizar. Nossa força foi demonstrada hoje na Paulista. A presença popular mostrou que não estamos dispostos a entregar nosso futuro àqueles que pretendem restringir direitos, enfraquecer as instituições e destruir a nossa soberania. É na luta coletiva que encontramos nosso rumo; na organização popular, construímos nossa força; na coragem de não recuar, encontramos os meios para transformar indignação em ação. Somos todos um. Não há força que suplante a união popular!
Nossas vitórias foram e continuarão sendo construídas por muitos e muitas Erundinas.

A história não foi feita por quem aceitou passivamente a ordem das coisas, mas por quem encontrou coragem para enfrentá-la!
Agora, cabe à nossa geração assumir a tarefa que Erundina nos transmite. A missão não é simples: os inimigos são muitos e poderosos. Exige enfrentar o neoliberalismo e sua expressão mais radical e desumana, o ultraliberalismo — aquele que consegue a proeza de convencer o trabalhador precarizado de que ele é um empreendedor. Temos de confrontar a Faria Lima e os interesses do capital financeiro, do agronegócio predatório, do obscurantismo neopentecostal e de suas ramificações políticas, além dos rentistas que vampirizam a riqueza construída pelos trabalhadores.
Temos de enfrentar também a extrema direita internacional, liderada pelo presidente Trump, que encontra na família Bolsonaro uma sucursal ainda mais trumpista que o próprio Trump. Essa devoção não é desinteressada. Em busca do abrigo da impunidade para os muitos crimes cometidos ela família, Flávio articula a entrega aos Estados Unidos da nossa soberania, do nosso sistema financeiro e das nossas riquezas naturais.
Não somos quintal dos Estados Unidos. Não nascemos para sê-lo, nem temos vocação para isso. Nunca seremos seu quintal.
É por isso que não podemos permitir que a história de quem lutou antes de nós se transforme em herança esquecida. Não podemos nos acostumar com a desigualdade, naturalizar os privilégios ou aceitar que o futuro seja decidido por aqueles que sempre usaram o poder para acumular e a repressão para não repartir. Tampouco podemos deixar para as próximas gerações a tarefa que cabe à nossa.
A história permanece aberta, e o rumo que ela tomará também depende de nós. Não podemos assistir passivamente à disputa pelo país que queremos construir. Precisamos nos organizar, defender direitos, enfrentar privilégios e fazer da democracia uma experiência concreta na vida de cada brasileiro. Essa é a responsabilidade que recebemos de quem veio antes de nós e que devemos transmitir às gerações que virão.
A missão está dada. A democracia precisa de nós!
Será grandioso se conseguirmos escrever, no momento atual, uma história de vitórias e conquistas. E que as gerações futuras possam reconhecer nela a nossa caligrafia