O voto público nunca deveria ser uma charada, por mais óbvio que pareça. Por Moisés Mendes

Douglas Ruas, deputado estadual do PL e presidente da Alerj
Urna eletrônica

É normal, é bom como interação e é da natureza da democracia ver alguém abrindo o voto para determinado candidato, para compartilhar com amigos, conhecidos e até admiradores. Mas é estranho quando essa mensagem pública de quem decide dizer em quem vai votar não diz coisa alguma de forma direta e assertiva, como deveriam ser as escolhas explicitadas.

Produzem literatura e até alguma poesia e convidam para uma charada: adivinhe em quem eu voto. Na situação atual, a mensagem deste modelo geralmente é esta: vou votar em Lula, mas não posso dizer. Por vários motivos, todos encobertos.

E aí perguntamos nós: por que chegamos ao ponto de ler, nos emocionar e até aplaudir mensagens cifradas, se vivemos numa democracia? Por que essas mensagens, na hora do voto, parecem relevantes?

Esta é uma das respostas possíveis: as pessoas que publicam escolhas cifradas passaram a maior parte das suas vidas sem a verbalização do que pensam em relação a questões que consideram delicadas.

Falam de qualquer coisa, mas não de ‘política’. E política aqui deveria ser tudo o que envolve o que enfrentamos, fazemos e pensamos cotidianamente, e não necessariamente as posições partidárias. Tudo o que interfere no fundamental de nossas vidas. Mas não precisamos dizer todos os dias que admiramos Lula ou militamos pelo PT.

Podemos dizer, com a mesma frequência com que falamos de banalidades, que somos assumidamente antifascistas. Que não aceitamos o racismo, mas não genericamente, e sim citando casos concretos.

Que abominamos a discriminação de gays e as atitudes e falas machistas. Mas não apenas de forma gasosa, mas no concreto, com exemplos de quem e do que nos incomoda. Genericamente, qualquer um pode ser politicamente correto.

Não é fácil ir mais longe. Não, porque as pessoas das mensagens cifradas são geralmente as que consideram arriscado dirigir qualquer texto ou fala contra a extrema direita. Muito menos citando o bolsonarismo. E dificilmente nomeando um Bolsonaro, o pai ou os filhos.

Essa dificuldade explica a existência dos textos em código. Uau, o fulano vai votar no Lula. E esse fulano do texto cifrado não é um fulano qualquer, é uma figura pública. Que poderia votar no Bolsonaro?

Um texto cifrado recente, apenas como exemplo, foi publicado no Globo pelo ex-ministro Pedro Parente. O economista já havia avisado que não votaria em Flávio Bolsonaro. Diz no artigo que o voto em branco, o nulo ou a abstenção transferem decisões para os outros e defende que as pessoas escolham um lado.

Reprodução da chamada do artigo de Pedro Parente no Globo

Que essa escolha seja feita mesmo por exclusão, em favor do menos pior. Depois de desenvolver a tese, Parente não diz nada categórico e mantém, do começo ao fim do texto, a ideia de que é possível divertir o leitor com esse tipo de conversa.

Por tudo isso, os recados cifrados acabam sendo o que de fato são: expressões de uma época anormal, em que pessoas maduras, com alguma reputação em suas áreas e até respeitadas pelo que fazem e dizem, na hora de dizer em quem votam, se sentem constrangidas e temerosas.

O voto, se tornado público, nunca deveria ser uma charada. É como se estivéssemos vivendo sob ditadura, ou num ambiente que nos levará a algo parecido.

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