
É normal, é bom como interação e é da natureza da democracia ver alguém abrindo o voto para determinado candidato, para compartilhar com amigos, conhecidos e até admiradores. Mas é estranho quando essa mensagem pública de quem decide dizer em quem vai votar não diz coisa alguma de forma direta e assertiva, como deveriam ser as escolhas explicitadas.
Produzem literatura e até alguma poesia e convidam para uma charada: adivinhe em quem eu voto. Na situação atual, a mensagem deste modelo geralmente é esta: vou votar em Lula, mas não posso dizer. Por vários motivos, todos encobertos.
E aí perguntamos nós: por que chegamos ao ponto de ler, nos emocionar e até aplaudir mensagens cifradas, se vivemos numa democracia? Por que essas mensagens, na hora do voto, parecem relevantes?
Esta é uma das respostas possíveis: as pessoas que publicam escolhas cifradas passaram a maior parte das suas vidas sem a verbalização do que pensam em relação a questões que consideram delicadas.
Falam de qualquer coisa, mas não de ‘política’. E política aqui deveria ser tudo o que envolve o que enfrentamos, fazemos e pensamos cotidianamente, e não necessariamente as posições partidárias. Tudo o que interfere no fundamental de nossas vidas. Mas não precisamos dizer todos os dias que admiramos Lula ou militamos pelo PT.
Podemos dizer, com a mesma frequência com que falamos de banalidades, que somos assumidamente antifascistas. Que não aceitamos o racismo, mas não genericamente, e sim citando casos concretos.
Que abominamos a discriminação de gays e as atitudes e falas machistas. Mas não apenas de forma gasosa, mas no concreto, com exemplos de quem e do que nos incomoda. Genericamente, qualquer um pode ser politicamente correto.
Não é fácil ir mais longe. Não, porque as pessoas das mensagens cifradas são geralmente as que consideram arriscado dirigir qualquer texto ou fala contra a extrema direita. Muito menos citando o bolsonarismo. E dificilmente nomeando um Bolsonaro, o pai ou os filhos.
Essa dificuldade explica a existência dos textos em código. Uau, o fulano vai votar no Lula. E esse fulano do texto cifrado não é um fulano qualquer, é uma figura pública. Que poderia votar no Bolsonaro?
Um texto cifrado recente, apenas como exemplo, foi publicado no Globo pelo ex-ministro Pedro Parente. O economista já havia avisado que não votaria em Flávio Bolsonaro. Diz no artigo que o voto em branco, o nulo ou a abstenção transferem decisões para os outros e defende que as pessoas escolham um lado.

Que essa escolha seja feita mesmo por exclusão, em favor do menos pior. Depois de desenvolver a tese, Parente não diz nada categórico e mantém, do começo ao fim do texto, a ideia de que é possível divertir o leitor com esse tipo de conversa.
Por tudo isso, os recados cifrados acabam sendo o que de fato são: expressões de uma época anormal, em que pessoas maduras, com alguma reputação em suas áreas e até respeitadas pelo que fazem e dizem, na hora de dizer em quem votam, se sentem constrangidas e temerosas.
O voto, se tornado público, nunca deveria ser uma charada. É como se estivéssemos vivendo sob ditadura, ou num ambiente que nos levará a algo parecido.