
O empresário Pablo Marçal ficou irritado com um produtor envolvido no projeto da criptomoeda B22, criada para promover a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), segundo relato de Kevim Flores, um dos principais responsáveis pela iniciativa. Em áudio enviado pelo WhatsApp, Flores afirmou que Nahuel Medina, ligado a Marçal, o aconselhou a manter o site da moeda no ar, desde que estivesse tranquilo com o projeto. Na mesma conversa, disse que “o Pablo ficou puto com ele”, em referência ao produtor, a quem chamou de braço direito de Marçal na área de mídia.
A declaração aparece em meio a conversas entre os responsáveis pela B22 sobre os rumos do projeto, que passou a enfrentar cobranças de compradores e quedas na cotação desde seu lançamento, na terça-feira (6). Em mensagens de WhatsApp, Flores pressionou participantes a sustentar o preço da criptomoeda e discutiu mudanças na estratégia de divulgação, incluindo a retirada de conteúdos políticos do site até a eleição.
A B22 é uma memecoin, tipo de criptomoeda associada a memes e tendências da internet. O projeto oferecia tokens a usuários que compartilhassem conteúdos favoráveis ao candidato do PL. Também anunciava que parte dos recursos seria destinada a crianças de Uganda, por meio de uma parceria com o Hypers Kids Africa, grupo que reúne 12,9 milhões de seguidores no Instagram.

O nome de Marçal também apareceu em um vídeo divulgado pelo grupo africano. Na gravação, crianças vestidas com camisetas da B22 incentivavam o voto em Flávio Bolsonaro e mencionavam o empresário e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Flores participou ainda de uma transmissão com Nahuel Medina, ligado a Marçal, na qual discutiu estratégias de divulgação da criptomoeda.
Em mensagens divulgadas neste sábado (10), Flores demonstrou irritação com a desvalorização do ativo e cobrou uma reação dos compradores. “Vocês são um bando de frouxo”, escreveu na noite de quinta-feira (8), pouco depois de uma queda na cotação. Ele afirmou que “só petistas” haviam vendido seus investimentos e, em seguida, ordenou: “Faça esse gráfico subir”. Em outra mensagem, disse que a B22 estava a “preço de banana se for especular uma possível vitória do Flávio”.
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) incluiu o projeto em uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) contra Flávio Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os advogados alegam abuso de poder econômico e solicitaram o bloqueio da página e a proibição de recompensas oferecidas em troca de propaganda eleitoral. Na sexta-feira (9), a ministra Estela Aranha determinou a retirada do site da criptomoeda do ar.
A repercussão também provocou o rompimento da parceria com o Hypers Kids Africa. O grupo de Uganda apagou um vídeo de divulgação da B22, anunciou que devolveria os 120 milhões de tokens recebidos e pediu desculpas ao público brasileiro. Seus integrantes afirmaram que esperavam conseguir recursos para concluir a construção de uma casa e que não desejavam envolvimento com partidos políticos. Flores já havia comentado a possibilidade de rompimento: “Se a HyperKids quiser devolver os tokens, está tudo certo. Eu vou arrumar outro grupo —e dessa vez provavelmente um grupo brasileiro— para transferir essa causa social”.
Após a decisão do TSE, os responsáveis pela B22 retiraram os pedidos de voto de sua página e anunciaram a suspensão das recompensas por compartilhamentos favoráveis a candidatos bolsonaristas. O projeto informou que manteria uma comunicação exclusivamente social até 25 de outubro. A campanha de Flávio Bolsonaro negou qualquer ligação com a criptomoeda e anunciou que adotaria medidas judiciais.
Responsáveis e compradores da criptomoeda B22, que promoveu Flávio Bolsonaro (PL), trocam cobranças e discutem prejuízos em um grupo de WhatsApp desde o lançamento do ativo na terça-feira (6). Em mensagens às quais a Folha teve acesso, Kevim Flores, um dos principais divulgadores do investimento, pressionou participantes a sustentar o preço da B22 e relatou decisões sobre o negócio, entre elas um recuo no discurso político até a eleição. O B22 é uma memecoin, criptomoeda associada a memes e tendências da internet. Como revelou a Folha, o projeto oferecia tokens a quem divulgasse conteúdos que incentivavam o voto em Flávio e dizia destinar parte dos recursos a crianças de Uganda —uma parceria com o Hypers Kids Africa, grupo com 12,9 milhões de seguidores no Instagram.
📲Leia mais na #Folha: https://t.co/000UcA3I4Q
📝 Laura Intrieri
#politica #videosdafolha #reportagem
— Folha de S.Paulo (@folha) October 10, 2026