Por que os jornalões se entregaram para o fascismo. Por Moisés Mendes

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Foto: Reprodução

Em lenta ruminação, a extrema direita vai engolir também as corporações de mídia, depois de comer o centrão. Não matará os negócios de TVs, rádios e jornais, principalmente os de Globo, Folha e Estadão, mas o que restava da ‘alma’ pós-ditadura. Vai se apossar do que pode ter sobrado do período pós-68, quando os jornalões passaram a defender a própria sobrevivência.

Mas como o bolsonarismo pode comer as corporações sem aniquilar seus negócios, suas audiências e seus lucros? Porque agora, ao contrário do que ocorreu a partir da resistência à censura e à fase terminal dos militares, o bem maior não existirá mais, se Flávio Bolsonaro for eleito.

O bem maior é a democracia, protegida pelos jornalões nos anos 70, quando se iniciou a reação à ditadura. A democracia era um bem e um produto a ser vendido. Apresentava consistência como valor maior e como mercadoria. Tinha muito glamour.

Os jornalões defenderam o resgate da democracia, com a força do ativismo de suas redações, porque a luta e o clima criado eram charmosos para os donos dos jornais. Era chique defender a democracia, no impulso que mobilizava o mundo todo contra regimes autoritários.

Era preciso, para Roberto Marinho no Globo, Octavio Frias de Oliveira na Folha e Julio de Mesquita Neto no Estadão, rejeitar os controles absolutos exercidos pelos militares sobre o que deveriam publicar. Eles precisavam, por atavismo, pela índole como vendedores de informação, salvar suas empresas do controle de ditadores, depois de terem sido colaboracionistas do golpe.

Era um aviso pós-AI-5: daqui vocês não passam. E sabemos o que aconteceu na sequência. Todos se lembram, com certo romantismo, da histórica resistência do Estadão – com o truque de Os Lusíadas ocupando espaços censurados na capa – contra os emissários da ditadura que atuavam dentro do jornal.

ditadura militar
Militares derrubam e batem em manifestante durante as Greves do ABC que lutava pelo fim da ditadura militar brasileira. Foto: Divulgação/Arquivo Nacional

Os jornalões voltavam a ser defensores das liberdades, mesmo que conservadores e anticomunistas, porque a onda era pela democracia. Ser democrata era bacana. E o jornalismo de combate dentro das redações, que nunca mereceu abordagens aprofundadas de quem lida com as ciências da comunicação, empurrou chefias, patrões e seus entornos para a luta.

O regime buscou a transição da abertura, sob pressão da grande imprensa, de líderes do MDB, de dissidentes da Arena que abandonaram os generais e da reação das urnas. A democracia ameaçava voltar a funcionar, principalmente a partir do massacre da oposição na eleição de 1974.

Os jornalões, com a ajuda do que chamavam de imprensa nanica dos jornais alternativos de esquerda consumidos pela classe média, a infiltração de jornalistas ativistas (muitos militantes de organizações clandestinas) dentro das redações e também os jornais paroquiais caminharam junto com o que o povo queria.

O povo, a tal de sociedade civil, a OAB, os artistas, os professores, os sindicatos, os estudantes, os padres, todos queriam democracia. O resto é o que sabemos. Os jornais aderiram depois às Diretas Já, ao Fora Collor (uma figura que também ajudaram a criar) e continuaram o que sempre foram. Anticomunistas, depois antilulistas e antitudo o que está aí. Mas o retrato que temos hoje, dessa imprensa que cede à extrema direita, é o pior de todos em todas as épocas.

Roberto, Julio e Octavio já morreram. Os filhos de Roberto Marinho não mandam mais no Globo, gerido pela terceira geração. A ‘linha editorial’ do Estadão é orientada por gestores escolhidos por um fundo de bancos que salvou o jornal. A Folha é comandada por herdeiros que viraram banqueiros. E as redações sob o controle dos prepostos dessa gente perderam a capacidade de desafiar comandos, afrontar e contrabandear pautas transgressoras.

Roberto Marinho era apresentado no Jornal Nacional como ‘jornalista’. Os Mesquitas eram jornalistas, um dos Frias também era – Otavio Filho, que morreu em 2018. Não há mais nenhum Marinho, um só Mesquita ou um Frias jornalista no comando dos jornais da família. Estão em cargos honoríficos de conselhos que se dedicam a aconselhar, mas apenas no Estadão. É como se não houvesse mais nenhum açougueiro da família no balcão do tradicional açougue da esquina.

Os donos dos jornais, sem protagonismo como ‘jornalistas’, acovardaram-se diante do bolsonarismo porque viraram outras coisas. Não são mais o que seus antecessores, que carregavam até com arrogância a ambição de serem jornalistas, conseguiram ser. São homens dinheiristas dedicados a ganhar mais dinheiro.

A democracia não tem mais o valor que mobilizava seus pais e avós a seguirem em frente, na ambição de serem defensores de interesses coletivos das maiorias, dos direitos humanos e de expressão, das mais vastas ideias de liberdade. As novas gerações não têm nem compromisso com essa memória.

Flávio Bolsonaro
O candidato a presidência Flávio Bolsonaro (PL). Foto: Gabriela Biló/Folhapress

A maioria do povo decidiu no primeiro turno que Flávio Bolsonaro é o seu escolhido. As instituições não têm significado algum para essa maioria. A política se esvaiu e o fascismo avança com a contribuição da grande imprensa, que o naturalizou e que o colocou em lugar de equivalência com os democratas.

Nesta sexta-feira em que o ministro Flávio Dino fez uma manifestação de bravura, que é também um pedido de socorro, ao revelar nas redes sociais que vem recebendo centenas de ameaças de morte, o Globo trouxe esta manchete na capa: “PT adota estratégia do ‘medo’, usada no passado, para virar votos e pressionar Flávio Bolsonaro”.

O Flávio que estaria sendo ‘pressionado’ e deve ser considerado sob ameaça, segundo o Globo, é o Bolsonaro, e não o Dino, que um dos ameaçadores escolheu como “o primeiro a ser fuzilado”.

Essa grande imprensa que substitui um fato sobre ameaça de morte por uma ilação sobre medo busca preservar seu negócio, porque a audiência conservadora garante sua sobrevivência. Vai continuar faturando, mesmo em meio ao caos. Mas não terá mais o que lhe restava do conjunto de qualidades que trouxe da resistência à ditadura. Globo, Folha e Estadão vão continuar ganhando dinheiro vendendo manchetes que escondem as notícias sobre o fim do mundo.

Afirmar que é desolador é dizer quase nada. Muitos dos profissionais que participaram daquelas lutas, dos anos 70 aos 80, dentro das redações, estão passando dos 70 anos de idade e continuam na batalha em veículos ainda chamados de alternativos. Muitos outros morreram, enquanto grandes redações omissas ou colaboracionistas são subjugadas pela extrema direita.

Os que morrem nos deixam com a tarefa de testemunhar e, se possível, denunciar as próximas etapas dessa submissão. A democracia é uma manchete embolorada que as traças estão devorando em algum arquivo morto nos prédios da Folha, do Globo e do Estadão.

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