
A Veja negociou com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a obtenção de um canal de televisão aberta em troca da publicação de uma reportagem com acusações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A denúncia foi relatada por uma fonte ao DCM, que afirma ter recebido a informação diretamente de um diretor da revista.
Segundo a fonte, Flávio prometeu à empresa a abertura de um canal de TV aberta, semelhante ao da Jovem Pan. A negociação estaria vinculada à publicação da reportagem sobre um suposto financiamento irregular do documentário “Lula”, dirigido pelo cineasta americano Oliver Stone.
A Veja possui uma operação no streaming, mas, de acordo com o relato, pretende ampliar suas atividades para a TV aberta. A decisão de publicar as acusações contra Lula teria partiu do comando da Editora Abril. “A matéria foi pedida pela direção da empresa e a Veja topou dar dentro dessa negociação pra depois obter uma TV aberta”, afirma.
A reportagem publicada pela Veja nesta sexta-feira (9) apresenta áudios atribuídos a Vorcaro. “O filme do Lula eu coloquei acho que até mais que no filme sobre Jair Bolsonaro. Só que o do Lula foi por fora, foi errado”, diz o ex-banqueiro na gravação divulgada.
Fábio Carvalho, dono na Abril, participou de jantares de apoio a Flávio como anfitrião ou convidado, segundo João Moreira Salles em artigo na Piauí.
As acusações não encontram respaldo nas mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro. O aparelho, apreendido em novembro de 2025, contém conversas de julho de 2012 até a prisão do banqueiro, abrangendo o período de produção do documentário. Não foram encontrados registros de pagamentos, patrocínios ou negociações financeiras envolvendo o filme sobre Lula.
Em contrapartida, as mensagens recuperadas pela PF apresentam discussões sobre investimentos em produções relacionadas a Jair Bolsonaro e Michel Temer. No caso de “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente, Flávio Bolsonaro negociou US$ 24 milhões com Vorcaro, dos quais pelo menos US$ 10,6 milhões foram pagos, conforme investigação publicada pelo Intercept Brasil.
O advogado criminalista Daniel Bialski, que defende Vorcaro, afirmou na sexta-feira (9) que seu cliente não prestou depoimento recente à PF sobre o suposto repasse de dinheiro. “Eu não estava na defesa do Daniel Vorcaro quando foram apresentadas as propostas de colaboração. O que posso afirmar é que ele não prestou nenhum novo depoimento à Polícia Federal discorrendo sobre isso”, declarou ao Correio Braziliense.
A Veja também afirmou que Vorcaro apresentou à Procuradoria-Geral da República um documento no qual relatava pagamentos de aproximadamente R$ 30 milhões em espécie para o documentário sobre Lula. Fontes da PGR e da Polícia Federal, porém, negaram a existência desse documento e disseram desconhecer a gravação divulgada pela revista.
A Procuradoria esclareceu que não houve depoimento oral de Vorcaro e que todas as propostas de colaboração premiada foram encaminhadas por seus advogados. A defesa do ex-banqueiro também afirmou desconhecer o suposto documento apresentado à PGR e o áudio publicado pela Veja.
A campanha de Lula classificou a publicação como uma “grande farsa montada por Flávio Bolsonaro e Vorcaro”. A defesa do presidente anunciou medidas judiciais, incluindo uma queixa-crime contra o ex-banqueiro, uma ação indenizatória contra a revista e um pedido à Polícia Federal para investigar a autenticidade das declarações e a eventual divulgação de informações falsas.