Renan se aproxima da esquerda, critica Flávio e vira peça disputada no segundo turno

Ex-candidato recebeu 2,67 milhões de votos e passou a dialogar com setores progressistas, mas nega apoio formal a Lula; comportamento de seu eleitorado pode ter peso numa disputa separada por pouco mais de 2,2 milhões de votos no primeiro turno

Da Redação

Renan Santos entrou no segundo turno presidencial ocupando uma posição que poucos imaginariam quando a campanha começou. Fundador do MBL, presidente do partido Missão e candidato que passou boa parte da disputa atacando simultaneamente Lula e Flávio Bolsonaro, ele terminou o primeiro turno com 2.675.887 votos e, nos dias seguintes, passou a produzir sinais políticos que despertaram atenção tanto na esquerda quanto na direita.

A mudança, contudo, precisa ser descrita com precisão. Renan não declarou apoio a Lula. Ao contrário: afirmou publicamente que não pretende votar no presidente e reiterou sua oposição ao PT. O que mudou foi principalmente o tom de sua intervenção pública. Desde domingo, ele ampliou críticas ao bolsonarismo, dialogou com figuras progressistas, recomendou a leitura de autores de esquerda e passou a defender que direita e esquerda abandonem parte das barreiras que transformaram a política brasileira numa sucessão de campos impermeáveis.

Até uma cortina vermelha instalada em sua casa virou assunto eleitoral.

Depois de publicar um vídeo mostrando a nova decoração, Renan passou a ser alvo de especulações sobre uma eventual sinalização ao campo de Lula. Ele respondeu dizendo que gostava da cortina, mas rejeitou a interpretação política e reafirmou sua oposição ao PT.

A brincadeira acabou se transformando em símbolo de uma questão mais ampla: existe ou não espaço para uma aproximação entre setores que passaram anos em lados opostos do debate político diante de uma eleição definida agora entre Lula e Flávio Bolsonaro?

O artigo publicado pelo Brasil 247 nesta sexta-feira defende que a campanha de Lula deveria procurar Renan e tentar construir algum tipo de entendimento. A tese parte principalmente do tamanho de seu eleitorado.

Renan recebeu cerca de 2,67 milhões de votos. A diferença entre Flávio e Lula no primeiro turno foi pouco superior a 2,2 milhões. Em termos puramente aritméticos, portanto, o número de votos conquistados pelo candidato do Missão supera a vantagem obtida pelo candidato do PL.

Isso não significa, evidentemente, que esses votos pertençam a Renan ou possam ser transferidos em bloco.

Eleitores não seguem automaticamente orientações partidárias, e as primeiras pesquisas do segundo turno mostram justamente essa fragmentação.

A AtlasIntel registrou nesta sexta-feira que 40,3% dos entrevistados que votaram em Renan dizem agora preferir Flávio Bolsonaro. Lula aparece com 28,1%. Outros 31,6% ainda declaram voto branco, nulo ou permanecem sem posição definida.

O dado mostra uma situação mais complexa do que a ideia de um simples “apoio” capaz de deslocar milhões de votos.

Renan conquistou uma base heterogênea, formada em grande medida por eleitores que rejeitaram tanto o PT quanto o bolsonarismo durante o primeiro turno. Parte desse público mantém forte resistência a Lula; outra parcela demonstra rejeição ainda maior a Flávio.

É justamente essa divisão que transforma o grupo numa das áreas abertas da campanha.

A ruptura com o bolsonarismo

Se a distância de Renan em relação ao PT continua evidente, sua relação com o bolsonarismo ficou ainda mais conflituosa.

Durante a campanha, o candidato do Missão atacou repetidamente Flávio Bolsonaro e questionou a tentativa de apresentar o senador como representante natural de toda a direita brasileira. Em diferentes momentos, acusou o bolsonarismo de transformar o campo conservador numa estrutura subordinada à família Bolsonaro.

Depois do primeiro turno, essa crítica não desapareceu.

Renan passou a confrontar figuras influentes da direita bolsonarista e a defender a construção de um campo político próprio, capaz de disputar o eleitor conservador sem aceitar automaticamente a liderança de Flávio.

Essa disputa ajuda a explicar parte de sua movimentação atual.

Uma eventual aproximação com setores da esquerda não precisaria significar conversão ideológica ou adesão ao programa do PT. Poderia funcionar também como instrumento para marcar distância do bolsonarismo e construir uma identidade política própria para o Missão.

A Folha registrou nos últimos dias uma modulação no discurso de Renan, incluindo interações com figuras identificadas com a esquerda e manifestações em defesa de maior circulação de ideias entre campos políticos diferentes.

Ele chegou a recomendar um livro do filósofo marxista Mark Fisher e defendeu que pessoas de direita leiam autores da esquerda da mesma maneira que pessoas da esquerda deveriam conhecer autores conservadores.

Esse tipo de gesto seria banal fora de um ambiente profundamente polarizado. Na política brasileira atual, porém, passou a ser interpretado quase como declaração de alinhamento.

Renan insiste que não é.

O eleitor de Renan virou terreno de disputa

A importância eleitoral do movimento aparece quando se observa não apenas o número de votos conquistados por ele, mas a situação geral do segundo turno.

Flávio terminou a primeira votação com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 45,16%. A diferença foi de aproximadamente 2,22 milhões de votos.

Renan teve 2,67 milhões.

Ronaldo Caiado e Augusto Cury também receberam votações expressivas, formando um contingente de milhões de eleitores que agora precisam escolher entre dois candidatos que rejeitaram no primeiro turno.

Cury já decidiu apoiar Flávio Bolsonaro. Caiado também se aproximou do candidato do PL. Renan seguiu outro caminho: não declarou apoio a nenhum dos dois.

Essa neutralidade formal tornou seu eleitorado especialmente interessante para as campanhas.

A Atlas mostra Flávio numericamente à frente entre esses eleitores, mas também registra quase um terço ainda fora das duas candidaturas. Lula, por sua vez, obtém pouco mais de um quarto desse grupo.

Há, portanto, espaço real para movimentação.

A pergunta é se a campanha do presidente tentará disputar esse eleitorado diretamente e se Renan aceitará algum tipo de diálogo político sem transformar isso numa adesão formal.

Até agora, não houve anúncio de negociação.

Diálogo não significa aliança

A discussão provocada pelo artigo do Brasil 247 toca em um problema recorrente da política brasileira: a dificuldade de estabelecer diálogo entre adversários sem transformar qualquer conversa em adesão total.

Renan construiu sua carreira política combatendo o PT. Lula e dirigentes petistas foram alvo permanente do MBL desde as manifestações que antecederam o impeachment de Dilma Rousseff.

Esse passado não desaparece porque surgiu uma disputa entre Lula e Flávio.

Da mesma forma, as críticas atuais de Renan ao bolsonarismo não o transformam automaticamente em aliado da esquerda.

O que existe é uma circunstância política nova.

O bolsonarismo consolidou grande parte da direita partidária em torno de Flávio. Renan tenta construir uma alternativa a essa hegemonia. Lula, por sua vez, precisa ampliar seu eleitorado para além da base que levou ao primeiro turno.

Os interesses podem produzir conversas mesmo sem produzir uma aliança.

É justamente por isso que a movimentação de Renan desperta tanta atenção.

Ele não precisa declarar voto em Lula para que sua crítica a Flávio tenha impacto político. Tampouco precisa abandonar sua oposição ao PT para defender que seus seguidores avaliem autonomamente o segundo turno.

No domingo da eleição, foi exatamente essa a posição inicial: seus eleitores deveriam decidir por conta própria.

O que mudou desde então foi o ambiente.

Com Flávio incorporando apoios de antigos adversários e Lula buscando ampliar alianças para reduzir a diferença registrada no primeiro turno, qualquer movimento dos candidatos derrotados passou a adquirir importância maior.

Renan encontra-se numa posição particular porque possui um eleitorado maior do que a distância que separou Lula e Flávio nas urnas e, ao mesmo tempo, não entregou esse capital político a nenhuma das candidaturas.

Por enquanto, falar em apoio de Renan a Lula seria ir além dos fatos.

Mas ignorar a disputa por seus 2,67 milhões de eleitores também significaria ignorar uma das poucas parcelas do eleitorado que continuam claramente abertas no segundo turno.

A questão, portanto, não é se esses votos pertencem a Renan. Não pertencem.

A questão é quem conseguirá convencer os brasileiros que votaram nele de que, diante de apenas duas opções na urna, existe uma escolha que vale a pena fazer em 25 de outubro.

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