
O jornalista americano Glenn Greenwald, que possui residência permanente no Rio de Janeiro, publicou nesta quinta-feira (8) uma postagem no X identificada como “Parceria paga” com a Kalshi, plataforma americana de apostas sobre acontecimentos futuros, incluindo resultados eleitorais.
A empresa está entre as operadoras de mercados de previsão cuja atuação foi proibida no país pelo governo federal.
Na publicação, o bolsonarista Greenwald comenta as perspectivas eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), acompanhadas de um gráfico da Kalshi. A imagem mostra contratos negociados na plataforma que atribuem 86% a Flávio e 16% a Lula. Os números representam preços de contratos associados a resultados eleitorais, e não intenções de voto apuradas por pesquisas.
“O ano todo — até voltando a 2025, quando Jair Bolsonaro, da prisão, surpreendentemente escolheu seu filho Flávio como candidato do partido dele — a maioria das pessoas que eu conheço, e a maioria na mídia, achava que as chances de Lula ser reeleito eram muito altas”, escreveu em inglês. “No entanto, aqui estamos nós. A incumbência é um pesado albatroz”.
A identificação “Parceria paga”, exibida abaixo da publicação, indica que o conteúdo possui natureza comercial. A imagem, isoladamente, não permite identificar o valor recebido pelo jornalista nem as condições do contrato publicitário, mas Greenwald não se vende por pouco.
Em abril de 2026, o Ministério da Fazenda anunciou a proibição dos mercados de previsão oferecidos por empresas como Kalshi e Polymarket. O governo informou que havia solicitado o bloqueio de 27 plataformas, por considerar que suas atividades não se enquadram nas modalidades de apostas previstas na legislação brasileira.

Foto: Lia de Paula/Agência Senado
A restrição foi acompanhada de uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN), com vigência a partir de 4 de maio, que impede a oferta e negociação de contratos de previsão sobre temas políticos, eleitorais, sociais e culturais. Diferentemente das pesquisas eleitorais, esses mercados funcionam pela compra e venda de contratos financeiros cujo pagamento depende da ocorrência de determinado resultado.
Em setembro, o governo Lula ampliou as restrições ao setor com a Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no território nacional. O artigo 16 também veta ações de marketing e patrocínio relacionadas a essas apostas, inclusive em meios digitais. A proibição alcança conteúdos direcionados ao público brasileiro, independentemente da forma de remuneração.
O artigo 18 da medida provisória estabelece que a publicidade em desacordo com essas regras configura prática abusiva, sujeita a sanções administrativas previstas no Código de Defesa do Consumidor, sem prejuízo de eventual responsabilidade civil e penal. A aplicação dessas disposições à publicação de Greenwald depende, porém, da análise do conteúdo, do público ao qual a campanha foi direcionada e da natureza jurídica do serviço anunciado. A residência permanente no Brasil, por si só, não determina a existência de infração.
A divulgação de plataformas de apostas eleitorais já provocou ações das autoridades brasileiras. Em setembro, o Ministério da Fazenda atuou para retirar do Instagram um perfil da Polymarket voltado ao público nacional. A iniciativa ocorreu após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acionar a Advocacia-Geral da União (AGU) sobre a continuidade da promoção de apostas eleitorais nas redes sociais.
O caso de Greenwald acrescenta outra questão à fiscalização: a contratação de jornalistas e influenciadores para promover plataformas estrangeiras cujas operações estão proibidas no país.