Lavrov acusa Europa de pressionar EUA a abandonar entendimento de Anchorage sobre Ucrânia

Chanceler russo afirma que Moscou aceitou proposta apresentada por Trump em 2025 e responsabiliza governos europeus pelo bloqueio das negociações; Washington contesta existência de acordo formal

Da Redação

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, voltou a responsabilizar governos europeus pelo fracasso das negociações iniciadas entre Moscou e Washington para tentar encerrar a guerra na Ucrânia. Nesta quarta-feira (7), o chanceler afirmou que os Estados Unidos não conseguiram resistir ao que classificou como uma pressão “sem precedentes” da Europa para abandonar os entendimentos discutidos entre Donald Trump e Vladimir Putin durante o encontro realizado em Anchorage, no Alasca, em agosto de 2025.

Segundo Lavrov, a posição russa naquele encontro foi aceitar uma proposta formulada originalmente pelos próprios Estados Unidos. O chanceler sustenta que Putin analisou os termos apresentados por Washington, reconheceu que continham elementos de compromisso e concordou em trabalhar a partir deles. Na versão de Moscou, a partir daquele momento existia uma base para negociar um acordo político mais amplo sobre a Ucrânia.

“Não é nossa culpa que os americanos não tenham conseguido resistir à pressão sem precedentes e descarada da Europa”, afirmou Lavrov durante uma entrevista coletiva após reunião de ministros das Relações Exteriores da Comunidade dos Estados Independentes.

A acusação faz parte de uma disputa que se prolonga há meses sobre aquilo que realmente aconteceu em Anchorage. Moscou costuma se referir aos chamados “entendimentos de Anchorage” ou ao “espírito de Anchorage” como uma estrutura diplomática aceita pelos dois presidentes. O governo norte-americano, entretanto, já apresentou outra interpretação. O secretário de Estado Marco Rubio rejeitou anteriormente a ideia de que Putin e Trump tenham concluído um acordo formal sobre a guerra.

A diferença não é apenas semântica. Ela envolve uma questão central para qualquer tentativa de retomada das negociações: se havia ou não um compromisso político concreto que Washington posteriormente abandonou.

Lavrov afirma que havia. Os Estados Unidos sustentam que as conversas não chegaram a produzir um acordo definitivo.

A disputa sobre Anchorage

Trump e Putin encontraram-se em Anchorage em agosto de 2025 numa tentativa de estabelecer um caminho para a negociação da guerra iniciada pela invasão russa em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022.

Depois da reunião, Putin afirmou publicamente que os dois governos tinham alcançado uma compreensão geral sobre a direção necessária para buscar o encerramento do conflito, mas reconheceu que várias questões permaneciam sem solução e precisavam de novas negociações.

Nos meses seguintes, autoridades russas passaram a afirmar que a proposta norte-americana envolvia concessões dos dois lados e permitiria avançar diretamente para uma solução política mais ampla, sem depender inicialmente de um simples cessar-fogo.

Uma das questões mais sensíveis dizia respeito ao Donbass. Reportagens sobre as negociações indicaram que o modelo discutido incluía algum tipo de retirada ou concessão territorial ucraniana em troca da interrupção do avanço russo em outras áreas. Kiev rejeitou propostas que implicassem reconhecer juridicamente territórios ocupados como parte da Rússia.

Para Moscou, a negociação deveria partir das condições militares e territoriais existentes e tratar das causas políticas que o Kremlin apresenta como origem do conflito, incluindo a expansão da Otan e a situação das regiões incorporadas pela Rússia.

Para Kiev, qualquer acordo precisa preservar sua soberania, oferecer garantias concretas de segurança e evitar que uma trégua seja utilizada para consolidar territorialmente as conquistas russas.

Essa distância permaneceu depois do encontro do Alasca.

Moscou coloca a Europa no centro do fracasso

A novidade da declaração de Lavrov nesta quarta-feira não está exatamente na crítica aos governos europeus, que já vinha sendo feita havia meses, mas na forma direta como o chanceler distribuiu responsabilidades.

Segundo ele, depois que Moscou aceitou a proposta apresentada pelos norte-americanos, governos europeus e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, intensificaram as conversas com Washington para modificar os termos.

Lavrov já havia afirmado anteriormente que líderes europeus ficaram alarmados com a possibilidade de Trump fechar um entendimento diretamente com Putin e passaram a atuar para impedir que a iniciativa avançasse.

O chanceler menciona reiteradamente declarações feitas pelo presidente francês Emmanuel Macron durante encontros internacionais realizados em junho. Segundo a interpretação russa, Macron teria celebrado o fato de o projeto construído em Anchorage ter sido abandonado e de Washington ter retomado uma posição mais próxima dos aliados europeus.

É importante separar a afirmação diplomática da comprovação factual. A existência de divergências entre Washington e os governos europeus sobre como negociar com Moscou foi amplamente registrada. Isso, porém, não prova por si só que a Europa tenha impedido a aplicação de um acordo já fechado, precisamente porque existe disputa sobre se esse acordo chegou a existir.

A posição europeia também parte de outra premissa. Governos da União Europeia argumentam que qualquer solução para a guerra precisa contar com a participação da Ucrânia e não pode ser definida exclusivamente numa negociação entre Estados Unidos e Rússia.

Kiev sustenta posição semelhante e rejeita que grandes potências negociem seu território sem participação direta do governo ucraniano.

Rússia e Estados Unidos mantiveram canais abertos

Apesar das acusações, o diálogo entre Moscou e Washington não foi completamente interrompido.

Lavrov manteve diferentes encontros com Marco Rubio ao longo da administração Trump. Os enviados norte-americanos Steve Witkoff e Jared Kushner também participaram de conversas com autoridades russas, incluindo Vladimir Putin.

Em setembro, os Estados Unidos chegaram a convidar Putin para participar da reunião do G20 marcada para dezembro em Miami, sinal de que os canais de interlocução entre os dois governos continuaram funcionando apesar das divergências em torno da Ucrânia.

Ao mesmo tempo, a política norte-americana não abandonou o apoio militar e financeiro a Kiev.

Essa combinação produziu uma situação incomum: Washington procura manter uma negociação direta com Moscou enquanto continua integrando o sistema de sustentação militar da Ucrânia.

Lavrov utiliza essa contradição para questionar o papel dos Estados Unidos como mediador. Rubio, por sua vez, já afirmou que Washington precisa reconhecer que possui interesses próprios e relações com Kiev ao mesmo tempo em que tenta impedir uma deterioração ainda maior das relações com Moscou.

A divergência sobre Anchorage tornou-se, nesse contexto, uma maneira de medir a confiança entre os dois governos.

Guerra continua enquanto diplomacia permanece travada

As declarações desta quarta-feira ocorrem num momento de nova intensificação do conflito.

No mesmo dia em que Lavrov falou sobre o fracasso das negociações, a Rússia realizou uma grande ofensiva com mísseis e drones contra diferentes regiões ucranianas. Autoridades ucranianas relataram dezenas de mortos e feridos. Moscou afirmou ter atingido instalações militares, industriais e de infraestrutura utilizadas pelas forças ucranianas.

Também nesta quarta, representantes dos países da União Europeia aprovaram novas sanções contra pessoas e entidades relacionadas à Rússia. A maior parte das medidas se concentra no complexo militar-industrial russo, incluindo empresas associadas à produção de mísseis e drones.

A combinação entre novas sanções, ataques militares e negociações inconclusivas mostra o tamanho da distância entre o discurso diplomático e o movimento real da guerra.

Moscou continua afirmando que está aberta a uma solução negociada, desde que ela reconheça determinadas condições políticas e territoriais. Kiev sustenta que não aceitará uma paz baseada na imposição das conquistas militares russas. Países europeus defendem que qualquer negociação preserve a capacidade de decisão da Ucrânia e mantenha garantias de segurança contra uma nova ofensiva.

Washington permanece no meio dessa disputa.

A versão apresentada por Lavrov é clara: Trump apresentou uma proposta, Putin aceitou e a Europa convenceu os Estados Unidos a recuar.

Mas essa é a interpretação de Moscou. A administração norte-americana não reconhece que um acordo formal tenha sido concluído em Anchorage, e o conteúdo integral das negociações entre Putin e Trump nunca foi publicado.

É justamente nessa zona de documentos não divulgados, propostas confidenciais e interpretações conflitantes que se trava hoje uma segunda batalha em torno da guerra da Ucrânia: não apenas sobre como terminá-la, mas também sobre quem impediu que uma possibilidade de negociação avançasse.

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