Um incêndio de grandes proporções atingiu a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, na noite desta quarta-feira (7), destruindo laboratórios, equipamentos e pesquisas científicas acumuladas ao longo de duas décadas. O prejuízo é estimado em R$ 100 milhões, segundo o reitor Alfredo Gomes. A tragédia ocorreu em meio a denúncias de ameaças contra estudantes que participaram de manifestações em apoio à reeleição do presidente Lula (PT) e contra o candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro (PL).
As circunstâncias do incêndio ainda são investigadas e até o momento não há comprovação de relação entre as ameaças políticas e a origem das chamas. A sequência dos acontecimentos provocou indignação e mobilizou autoridades, parlamentares e integrantes da comunidade acadêmica, que cobram uma investigação rigorosa.
O fogo atingiu o antigo prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine), na Cidade Universitária, onde funcionavam laboratórios de fármacos, informática, computação e genética, além do Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica.
O reitor Alfredo Gomes dimensionou a gravidade da destruição. “Perdemos completamente todos os equipamentos, estimados em aproximadamente R$ 100 milhões”, declarou. Sobre os materiais científicos, acrescentou: “É uma perda irreparável”.
Segundo ele, o prédio abrigava cerca de 100 tipos de pesquisas, desenvolvidas por professores, estudantes de iniciação científica, mestrandos e doutorandos. Entre os estudos afetados estavam investigações sobre câncer, obesidade, Covid-19, autismo e TDAH. Pelo menos 80 dissertações e teses estavam vinculadas às atividades realizadas no local.
Em nota, a universidade lamentou profundamente os danos e perdas causadas, especialmente sobre as pesquisas, e afirmou: “A UFPE presta solidariedade a todos os pesquisadores, docentes e estudantes que trabalhavam no local”.
Apesar da dimensão do fogo, não houve feridos. O Corpo de Bombeiros trabalhou durante a madrugada e encerrou a operação por volta das 5h desta quinta-feira (8). A Polícia Federal anunciou a abertura de inquérito e enviou peritos ao local.
Ameaças antes do incêndio exigem investigação
Horas antes do incêndio, estudantes da UFPE relataram ter recebido mensagens de intimidação política atribuídas a apoiadores de Flávio Bolsonaro. Uma das ameaças mencionava a possibilidade de “explodir o departamento”.
O episódio ocorreu após mobilizações estudantis em defesa da democracia e da reeleição de Lula, em um momento de acirramento da disputa presidencial. A comunidade acadêmica teme que as ameaças representem uma tentativa de intimidar estudantes e restringir a livre manifestação política dentro das universidades.
Embora não exista comprovação de vínculo entre as mensagens e o incêndio, as denúncias precisam ser investigadas, com identificação dos responsáveis e esclarecimento das circunstâncias da destruição do prédio.
Luciana Santos lamenta perdas para a ciência brasileira
A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos (PCdoB), ex-aluna da UFPE, manifestou solidariedade à comunidade acadêmica e lamentou a destruição de laboratórios fundamentais para a pesquisa nacional. “Preocupante o incêndio ocorrido hoje em um prédio da UFPE que abrigava laboratórios de fármacos, informática e genética. Esta é uma perda dolorosa para a ciência brasileira e para Pernambuco”, escreveu a ministra nas redes sociais.
Luciana ressaltou o alívio pela ausência de vítimas, mas alertou para a dimensão dos danos à universidade e à produção científica brasileira. “Minha solidariedade aos pesquisadores, docentes e estudantes atingidos pelo incêndio e a toda a comunidade acadêmica neste momento difícil”, afirmou.
A ministra também se colocou à disposição do reitor Alfredo Gomes para contribuir com as medidas necessárias diante dos prejuízos.
Jandira Feghali e Gil do Vigor cobram investigação das autoridades
A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) cobrou esclarecimentos sobre o incêndio e chamou a atenção para as denúncias de ameaças. “Um dia após as grandes manifestações contrárias a Flávio Bolsonaro que estudantes da UFPE promoveram em Recife, prédios da universidade foram atingidos por um incêndio” escreveu. “Uma investigação rigorosa é urgente. Mas uma coisa é certa: os estudantes não podem ser intimidados em seu direito de manifestação”, concluiu.
O economista e pesquisador Gil do Vigor, assim como Luciana, também é formado pela UFPE. Em vídeo publicado nas redes, ele demonstrou indignação com a situação e reforçou a investigação. “O que está acontecendo com a UFPE é de uma tristeza tão grande, ver a universidade que me formou em chamas”, lamentou. “Tem que ser investigado isso, porque, se existe qualquer possibilidade, minha gente, disso ser reflexo de ódio, pelo amor de Deus, tem que ser investigado e tem que ser punido”, afirmou.
Gil ressaltou ainda o papel fundamental das universidades públicas na formação de profissionais e na produção do conhecimento científico. Ao recordar sua trajetória na UFPE, Gil destacou que é justamente à ciência que a sociedade recorre em momentos de crise. “Quando vem uma pandemia, que o mundo tá desesperado, sabe qual a esperança que o mundo recorre? À ciência, à pesquisa, às universidades”, declarou.
No Rio, estudantes da Uenf também são ameaçados
Esse clima de intimidação política alcançou ainda à Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.
O diretório municipal do PT e o Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF) registraram boletim de ocorrência na 134ª Delegacia de Polícia para denunciar ameaças dirigidas a estudantes identificados com a esquerda.
Segundo a denúncia, mensagens divulgadas em um grupo de WhatsApp denominado “Campistas com Bolsonaro” faziam referências a agressões físicas e até ao uso de explosivos nas dependências da universidade, especialmente nas proximidades do Restaurante Universitário.
Após tomar conhecimento das mensagens, o presidente municipal do PT, Danilo Dutra, procurou as autoridades, que deverão apurar a autoria e as responsabilidades individuais pelas ameaças.
Universidades não podem ser alvo de intimidação política
As denúncias ocorrem em meio à crescente mobilização de estudantes contra a extrema direita e em defesa da reeleição de Lula. Mais cedo, uma manifestação organizada por entidades estudantis levou jovens às ruas do Rio de Janeiro em defesa da educação pública e da democracia.
O ambiente universitário também tem sido palco de confrontos provocados por apoiadores e candidatos bolsonaristas que utilizam gravações e publicações nas redes sociais para hostilizar estudantes, professores e manifestações políticas. Relatos de episódios desse tipo reforçam a necessidade de proteger a comunidade acadêmica e apurar eventuais crimes.
A liberdade de expressão, a autonomia universitária e o direito à organização estudantil são garantias democráticas que não podem ser submetidas a ameaças ou intimidação.
Enquanto a Polícia Federal investiga a destruição do patrimônio científico da UFPE, cresce a cobrança para que as denúncias de violência política também sejam esclarecidas.
A perda de milhões de reais em equipamentos e de anos de trabalho científico representa um golpe na universidade pública brasileira. Esclarecer as causas do incêndio, recuperar a capacidade de pesquisa e garantir a segurança de estudantes e pesquisadores são medidas urgentes para a defesa da ciência, da educação e da democracia.
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com informações de agências