Jovens economistas a Lula: Qual o Brasil que vamos entregar?

Jovens economistas a Lula: Qual o Brasil que vamos entregar?

Esta Carta busca compreender criticamente como as transformações econômicas, tecnológicas e políticas do nosso tempo atingem a juventude brasileira e, de forma mais ampla, todos aqueles que vivem na periferia do capitalismo. Mas não basta interpretar a realidade: é preciso disputá-la. Os problemas que atravessam nossa geração não são resultado apenas de escolhas individuais, mas expressão de mudanças profundas na economia, no trabalho, nas relações sociais e nas possibilidades de construir o futuro.

Acreditamos que esses problemas precisam ser tomados pela raiz e isso exige a radicalidade de enfrentar as estruturas que os produzem, ao invés de apenas administrar seus efeitos. A concentração de riqueza e poder, a erosão de direitos, a violência contra a diversidade e o avanço de tendências autoritárias não são fenômenos isolados, eles integram uma estrutura social que reproduz desigualdades e sustenta formas de exploração próprias do capitalismo contemporâneo. Nesse processo, a meritocracia e o individualismo competitivo cumprem também uma função ideológica, ao transformar problemas coletivos em fracassos pessoais e apresentar como resultado do esforço individual desigualdades produzidas socialmente. Ser radical, nesse sentido, não é ignorar a realidade, mas compreendê-la em sua profundidade para ampliar as possibilidades concretas de transformá-la.

É também nesse sentido que entendemos o papel da esquerda democrática. Uma frente ampla necessária à defesa da democracia não pode significar o abandono da disputa por um projeto de sociedade capaz de superar as desigualdades e os limites do paradigma neoliberal. Cabe à nossa geração produzir conhecimento, disputar o debate público e formular alternativas concretas para essa transformação. Esta Carta pretende contribuir para essa tarefa: não como um manifesto idealista, indiferente às condições reais, nem como um exercício de conformismo dedicado apenas a administrar o estado das coisas, mas como uma perspectiva crítica de recolocar as raízes dos problemas da juventude no centro da política. Entre o idealismo sem consequência e o pragmatismo sem horizonte, queremos recuperar a capacidade de imaginar futuros e construir os caminhos para realizá-los.

Uma carta da juventude sobre desenvolvimento, direitos e futuro

O início da vida adulta é marcado por incertezas, grandes transições e a busca por autonomia. Contudo, para a juventude brasileira contemporânea, o horizonte de emancipação vem sendo substituído por um estrangulamento socioeconômico sistêmico. Longe de ser fruto de escolha ou irresponsabilidade individual, a crise vivenciada pelas novas gerações resulta da combinação da desregulamentação do trabalho, especulação imobiliária, captura financeira via juros abusivos e um modelo de desenvolvimento que não absorve a recente e expandida qualificação acadêmica do país. Nesse sentido, há uma pergunta que sintetiza a crescente insegurança das novas gerações: vamos conseguir viver melhor do que os nossos pais?

A geração dos nossos avós cresceu em um Brasil que se urbanizava, se industrializava e construía infraestrutura, universidades e novas profissões. Era um país profundamente desigual, mas atravessado por uma ideia de desenvolvimento em que o avanço individual dependia, em alguma medida, do avanço coletivo: para que cada família pudesse melhorar de vida, o próprio Brasil precisava produzir mais, formar mais gente, criar novos empregos e ampliar suas capacidades. Esse projeto foi interrompido pelo golpe de 1964, que não apenas rompeu a democracia, mas também alterou os termos sobre os quais o desenvolvimento brasileiro seria conduzido.

A geração dos nossos pais cresceu sob essa nova ordem. Viveu a ditadura, a luta pela redemocratização e, depois, as crises econômicas, a inflação e a estagnação das décadas de 1980 e 1990. O país continuou se modernizando, mas já sem aquela mesma perspectiva de transformação coletiva: consolidou-se uma estrutura em que crescimento e mobilidade passaram a conviver com a preservação de profundas desigualdades e com uma concentração persistente de renda, riqueza e poder. Na virada do milênio, especialmente durante os governos do PT, abriram uma nova janela de mobilidade para milhões de brasileiros: expandimos universidades e Institutos Federais, colocamos a classe trabalhadora no ensino superior por meio das cotas e, mais recentemente, ampliamos a escola em tempo integral e criamos o Pé-de-Meia, ao mesmo tempo em que o Novo Fundeb fortaleceu as bases de financiamento da educação pública.

Esses avanços fizeram nossa geração chegar mais longe na escola e na universidade, mas ocorreram sem uma transformação equivalente da estrutura produtiva brasileira. A desindustrialização continuou avançando, juros elevados e câmbio valorizado limitaram a expansão de setores capazes de criar empregos qualificados em escala. Para quem tem vinte e poucos anos hoje, essa contradição aparece já na porta de entrada do mercado de trabalho: estágios mal pagos, dificuldade de conseguir o primeiro emprego, vínculos instáveis, jornadas extensas, precarização, uberização e poucas condições de transformar formação em autonomia. Somos uma geração mais escolarizada e conectada, mas que entra na vida adulta sem saber se conseguirá construir uma carreira, sair da casa dos pais ou planejar os próximos anos, justamente quando a inteligência artificial e as novas formas de trabalho estão mudando ainda mais rápido as ocupações de entrada.  

Enfrentamos uma série de desafios globais que põem em risco a própria existência de qualquer futuro para sonhar. Seja pela crise climática, que já faz seus efeitos sentidos como na tragédia que atingiu o sul do Brasil e as praias de São Paulo; seja pelo perigo do desenvolvimento desenfreado da inteligência artificial, como já falam até mesmo os CEOs das principais corporações.

Esse é o paradoxo que enfrentamos: enquanto se espera que o jovem conquiste independência por meio do trabalho, da formação e da construção de patrimônio, as condições materiais para que isso ocorra tornam-se progressivamente mais restritas.

Trabalhamos, mas não necessariamente temos estabilidade. Estudamos, mas o diploma já não garante uma trajetória profissional. Recebemos salário, mas o aluguel consome uma parte crescente dele. Temos acesso fácil ao crédito, mas também às dívidas.

Flexibilidade não pode ser sinônimo de insegurança. Uma geração inteira não pode ser obrigada a escolher entre jornadas exaustivas, como a escala 6×1, e formas de trabalho sem férias, previdência ou renda previsível. Mesmo com o avanço do emprego, a inserção da juventude segue desigual: Dados do DIEESE revelam que no 2º trimestre de 2025, 39,5% dos jovens ocupados estavam na informalidade, com rendimento médio de R$2.314, e 43% ganhavam até um salário mínimo. E esse mínimo compra menos: em São Paulo, ele valia 2,10 cestas básicas em 2014 e hoje, mesmo após a recuperação, está em cerca de 1,80. O problema de fundo é que a proteção do Estado – férias, 13º, FGTS, seguro-desemprego, Previdência – continua amarrada ao emprego formal, que já não corresponde à realidade de milhões. Hoje somos jovens, mas vamos envelhecer, e exigir contribuição individual regular como porta de entrada da proteção pesa justamente sobre quem vive de bicos, plataformas e renda instável.

Além disso, para uma geração que associa a vida adulta à autonomia, sair da casa dos pais ficou cada vez mais difícil. Em julho de 2026, o aluguel médio nas 36 cidades do FipeZAP chegou a R$54,17 por m² – um apartamento de 50 m² custa cerca de R$2,7 mil de aluguel ou R$ 500 mil de investimento. Aluguel alto, juros elevados e a dificuldade de juntar a entrada adiam por anos a casa própria, mesmo entre jovens empregados. Por trás disso há uma mudança de função da moradia: em muitas cidades o imóvel virou ativo de investimento, disputado por fundos e plataformas de aluguel de curta duração, enquanto cresce a insegurança habitacional. Moradia deixou de ser condição básica para quem está começando e passou a ser, cada vez mais, valorização patrimonial para quem já tem patrimônio.

Muitos jovens chegam à vida adulta sem patrimônio, mas já com parcelas e juros que sufocam  a capacidade de  planejamento. Segundo o relatório de Cidadania Financeira do Banco Central a exposição ao crédito disparou: entre 2016 e 2024, os jovens com acesso a crédito saltaram de 13,7 para 27,6 milhões (+101%), e dos 17 milhões com cartão, 13 milhões (79%) recorreram ao rotativo ou ao parcelamento da fatura. A armadilha está nas taxas: o rotativo chegou a 430% ao ano em 2024 e o comprometimento da renda com o cartão subiu de 38,5% (2020) para 54% (2024) — lembrando que sete em cada dez desses jovens recebem até dois salários mínimos. E a disputa pela renda não para nos bancos: a indústria de apostas fez dos jovens seu público principal — segundo o Ministério da Fazenda, cerca de 25,2 milhões de brasileiros apostaram online em 2025, enquanto as bets somaram cerca de R$37 bilhões em receita. Tratar isso como falta de educação financeira inverte a questão: nenhum planejamento resolve uma renda que não cobre o custo de vida.

No último governo do Partido dos Trabalhadores, conseguimos interromper parte do desmonte do Estado e reconstruir políticas e capacidades públicas importantes. Mas a juventude precisa de um Estado que, além de reconstruir, seja capaz de olhar para a frente. Nossa geração é a mais estudada e conectada da história, mas ainda encontra enormes dificuldades para entrar plenamente no mercado de trabalho, conquistar autonomia e planejar a própria vida. Apesar dos avanços recentes, permanecem problemas estruturais: faltam empregos qualificados, salários capazes de sustentar projetos de futuro e uma economia que transforme formação, tecnologia e conhecimento em oportunidades concretas. O desafio agora é fazer um governo que não apenas estanque a sangria do passado, mas um que possa nos ajudar a construir as condições concretas para que nossa geração possa imaginar e realizar o futuro.

Milhões de jovens vivendo os mesmos problemas não constituem milhões de fracassos individuais, constituem um problema político. E problemas políticos exigem respostas coletivas. Precisamos transformar aquilo que hoje aparece como ansiedade, frustração ou dificuldade individual em pauta pública, organização e disputa por outro projeto de país. É construindo coletivamente as condições para que a nossa geração possa definir como quer trabalhar, morar, estudar, construir patrimônio e planejar nosso futuro que vamos avançar.

Redação e Revisão: Lenise Ribeiro, Luisa Canazarro, Luiz Gustavo Santiago, Nathan Caixeta, Pedro Henrique Chinaglia, Rebeca Amazonas, Thiago Jacó

Jovens Economistas com Lula, 17 de setembro de 2026

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