
Bolsonaristas tentaram emplacar uma teoria conspiratória de que a esquerda tentaria um “golpe” caso Flávio Bolsonaro (PL) vencesse as eleições no primeiro turno, neste domingo (4). A narrativa sobre o “golpe da esquerda” começou a circular com maior intensidade na sexta (2) e associa o fechamento temporário de representações diplomáticas no Brasil a uma preparação dos Estados Unidos para intervir no país e garantir o resultado eleitoral.
A versão difundida nas redes afirma que o governo americano teria descoberto um plano articulado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo governo Lula para anular a eleição em caso de vitória de Flávio.
Algumas publicações dizem que a medida provocaria uma “inevitável” guerra civil e que uma intervenção dos Estados Unidos ocorreria para impedir o suposto golpe. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também desmentiu mensagens sobre supostos ataques de facções criminosas durante a votação e informou não haver indícios de uma ameaça generalizada às seções eleitorais.
O alcance da narrativa cresceu rapidamente. Levantamento do Instituto Democracia em Xeque divulgado neste sábado (3) identificou 164,8 mil publicações sobre uma possível intervenção estrangeira no processo eleitoral apenas na sexta. Juntas, elas acumulavam 2,2 milhões de interações.
A teoria também tratava como certa uma vitória de Flávio no primeiro turno, embora o agregador de 20 institutos de pesquisa citado no levantamento mostrasse Lula com 40,2% das intenções de voto e Flávio com 36,8% na noite de sábado.

Algumas versões passaram a incluir o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, alegando que as facções teriam sido mobilizadas para promover ataques terroristas próximos a embaixadas caso Flávio vencesse. Uma publicação de um influenciador que se apresenta como ex-integrante do PCC alcançava 2,5 milhões de visualizações.
“Eu sei o que eu estou falando, de uma suposta aliança entre o Comando Vermelho e o PCC para as eleições caso o Flávio Bolsonaro ganhe”, afirmou. Também circularam publicações que atribuíam à Polícia Militar de São Paulo a descoberta de um plano do PCC para realizar ataques em caso de vitória do senador, informação classificada como falsa em checagem.

A narrativa, inicialmente publicada por perfis bolsonaristas de menor alcance, chegou a influenciadores, políticos e candidatos. O deputado federal Paulo Bilynskyj (PL-SP) relacionou o fechamento das representações diplomáticas a uma suposta previsão de vitória de Flávio.
“Ataques terroristas. Esse é o motivo da embaixada dos Estados Unidos e da Austrália terem fechado em Brasília. O que que eles estão prevendo? Que o Flávio vai ganhar a eleição, que o PT vai tentar tocar o terror.” A publicação do parlamentar somava 429 mil visualizações.

Jeffrey Chiquini (Novo-PR), candidato a deputado federal e advogado de Filipe Martins, ex-assessor internacional do governo Jair Bolsonaro, também reproduziu a narrativa. Em um vídeo nas redes sociais, ele relacionou uma publicação do ministro Flávio Dino sobre as eleições presidenciais americanas de 2000 a uma suposta preparação para anular o pleito brasileiro sob a justificativa de interferência estrangeira.
Chiquini ainda associou a alegação a um pedido de afastamento dos ministros André Mendonça e Nunes Marques, do TSE, e convocou seus seguidores a votar em Flávio. “Eu achei isso daqui extremamente grave e preocupante”, afirmou em vídeo que acumulava 2,9 milhões de visualizações.

O fechamento temporário das representações diplomáticas ocorreu, mas não há evidências apresentadas de relação com um plano para anular as eleições ou com uma intervenção americana. Na quinta-feira (1º), os Estados Unidos anunciaram a suspensão dos atendimentos consulares presenciais no Brasil a partir do dia seguinte por preocupações com segurança.
Na sexta (2), a Austrália também anunciou o fechamento de sua embaixada em Brasília pelo mesmo motivo. Os comunicados não mencionaram interferência no resultado eleitoral.
A Polícia Federal realizou na sexta-feira uma operação preventiva para investigar possíveis ameaças contra instalações diplomáticas, em cooperação com agências de inteligência estrangeiras. A corporação informou que não havia encontrado elementos que confirmassem os riscos investigados nem identificado suspeitos ligados a organizações criminosas.
Neste domingo (4), o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou ainda que, após medidas judiciais relacionadas à comunicação feita pela Embaixada dos Estados Unidos, a corporação não comprovou elementos concretos de risco efetivo à representação diplomática.