De olho nas riquezas do Brasil, Trump celebra Flávio Bolsonaro no 2º turno

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comemorou, nessa segunda-feira (5), o que ele considera ter sido uma “grande vitória” de Flávio Bolsonaro (PL) no domingo (4). Não poderia ser diferente: a ida do senador entreguista para o segundo turno com Lula converge (não por coincidência) com os interesses colonialistas e intervencionistas do imperialismo.

Trump disse que mesmo apertado — com 2% de diferença a favor de Flávio —, o resultado foi “incrível”. Antes do primeiro turno, havia declarado: “Estamos de olho na coisa toda e acompanhamos essa eleição de muito perto”.

Essa última frase, aliás, é puro eufemismo e ironia. Afinal, já vieram à tona denúncias de possível uso de recursos dos EUA para influenciar as eleições (o que é ilegal), além da mão amiga dos algoritmos das redes sociais que, sem regulação, estão sempre a postos para beneficiar a direita em âmbito mundial.

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A postura de Trump não surpreende, mas confirma os riscos que o Brasil corre se Flávio Bolsonaro vencer. E, embora para muita gente esse debate possa parecer distante do dia a dia da população, a verdade é que a atinge diretamente — assim como a afetou o tarifaço lançado pelo presidente dos EUA.

Há muito com o que os brasileiros devem se preocupar. Uma vez eleito, Flávio “abriria as porteiras”— usando um termo cunhado no governo de seu pai, Jair Bolsonaro (PL) — para tudo o que há de mais antipatriótico, vendido e nocivo ao desenvolvimento do país.

Apropriação das terras raras

Um dos exemplos mais gritantes envolvem a questão das terras raras. Em março, Flávio disse, com todas as letras, que o Brasil é a “solução para os EUA terem minerais de terras raras”. Para tanto, defendeu “acabar com as amarras ambientais” — ou seja, com o regramento necessário para que a exploração não seja mais um fator de extinção de biomas brasileiros.

Portanto, fica claro que não faz parte do escopo de Flávio a exploração dessas riquezas pelos brasileiros, para beneficiar a sua própria nação, de maneira sustentável e responsável. A ideia é tratorar (talvez literalmente) as salvaguardas ambientais e entregar de mão beijada o material in natura para que as empresas estadunidenses transformem esse minerais em itens essenciais para produtos de alta tecnologia, fabricados por eles mesmos.

Trata-se, portanto, da velha lógica colonial bastante conhecida pelos latino-americanos — porém, implantada em pleno século 21 — sendo defendida por um senador e candidato à presidência da República, o que torna a situação ainda mais esdrúxula e grave.

Para os EUA de Trump, a jogada é essencial. De um lado, para garantir um governo fantoche de extrema direita no maior país da América do Sul; de outro, para assegurar acesso ilimitado a minerais estratégicos. Afinal, o Brasil está entre os cinco principais países detentores de minerais críticos e tem a segunda maior reserva de terras raras, atrás apenas da China, rival direta dos EUA.

E para os brasileiros, o que fica? Para citar apenas parte dos desdobramentos, o País perderia uma chance de ouro de usar essas riquezas em indústrias nacionais de alta tecnologia, gerando mais recursos, mais empregos qualificados e aumento de renda do povo brasileiro.

Além disso, ficaria refém de autos índices de desmatamento e mal uso dos recursos naturais, o que pioraria os efeitos da crise climática, sobretudo em solo brasileiro. Isso sem falar do interesse de grandes potências (especialmente os EUA) em países com a rica biodiversidade e grandes estoques de água doce, como o Brasil.

Pix “na mesa”

Outro ponto importante para as comemorações de Trump: com Flávio, as empresas estadunidenses teriam carta-branca para explorar, conforme os interesses dos EUA, o sistema financeiro nacional, entre outros setores da economia.

Não é segredo o ranço que Trump tem com o Pix, sistema público e altamente funcional que coloca no chinelo o similar dos EUA e incomoda as grandes empresas de cartões de crédito (embora elas tenham ganhado muito desde que a ferramenta desenvolvida pelos servidores do Banco Central começou a operar).

Eduardo Bolsonaro — que passou os últimos anos tramando nos EUA contra o Brasil e não volta para não ser preso por tentar interferir no julgamento de seu pai pela trama golpista — já deixou clara a visão do clã sobre a questão.

Apontado como possível ministro das Relações Exteriores do Brasil caso Flávio vença as eleições, Eduardo já disse que o Pix poderia “ir para a mesa de negociações” com a Casa Branca e que Brasil estaria prejudicando “injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico” — empresas, diga-se, que figuram entre as maiores e mais rentáveis do mundo.

Em meio à campanha, Flávio tentou se desvincular das ideias do irmão, dizendo que o Pix seria “inegociável” — mas todos sabemos que cumprir com a palavra e dizer a verdade não é um dos pontos fortes do senador.

Tarifas injustas

Por fim, vale mencionar o empenho sem precedentes do clã Bolsonaro na imposição de tarifas injustas ao Brasil. Para tentar desgastar o governo Lula e barrar o julgamento de seu pai golpista, Eduardo e seu fiel escudeiro Paulo Figueiredo passaram 2025 esperneando junto à gestão Trump.

A convergência dos interesses da família com os de Trump levou ao aumento das tarifas e a sanções contra autoridades brasileiras, num claro ataque à independência do País, mas não impediram que Jair Bolsonaro fosse condenado e preso.

Neste ano, ao entrar em vigor novas alíquotas resultantes de uma “investigação” do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) contra o Brasil, Flávio foi a uma audiência pública em Washington sobre o tema.

Na ocasião, tentou vender a imagem de que estaria defendendo os interesses nacionais. Mas, na verdade, argumentou que as vésperas das eleições seriam o “pior momento possível” para aplicar o tarifaço, pois isso geraria um efeito reverso dos interesses de Trump, podendo fortalecer o governo Lula. Assim, ao invés de batalhar pelos interesses de empresários e trabalhadores brasileiros, Flávio apenas pediu o adiamento da decisão final dos EUA para após as eleições.

Não é por acaso, portanto, que Flávio e sua família — assim como seus apoiadores — batem continência à bandeira dos EUA em qualquer ocasião (até mesmo no 7 de Setembro, Dia da Independência do Brasil), mesmo fazendo questão de usar camisetas da Seleção e se dizerem “patriotas”.

A reverência ao símbolo máximo dos EUA, aliás, é uma sinalização cristalina sobre como o senador, com o sua submissão ridícula, pretende tratar o próprio país se chegar à presidência da República. De fato, a ascensão de alguém como Flávio é motivo de satisfação para Trump colocar em prática seu plano de subjugação da América do Sul.

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