Uma onda de protestos com milhares de estudantes tomaram as ruas da França contra a falta de recursos na educação e o pacote de austeridade preparado pelo governo de Emmanuel Macron para 2027.
O projeto busca cortar 54 bilhões de euros nas contas públicas e prevê a eliminação de 1.588 postos de professores e o fechamento de cerca de 400 escolas.
Quase 2 mil pessoas foram detidas, a maioria adolescentes, desde o início das mobilizações, há duas semanas.
Os primeiros bloqueios ocorreram em Seine-Saint-Denis, região popular nos arredores de Paris, e se espalharam por todo o país. Os estudantes denunciam a falta de professores, as salas superlotadas, a carga excessiva de trabalho e as más condições das escolas.
O movimento também reivindica o fim da redução de vagas nas universidades e dos cortes nas bolsas de estudo.
Na última quinta-feira (1º), 1.027 instituições de ensino registraram protestos ou incidentes, segundo o ministério do Interior. Ao menos 222 escolas tiveram os acessos bloqueados, enquanto estudantes de cerca de 30 universidades também aderiram à mobilização.
A polícia respondeu aos atos com gás lacrimogêneo, balas de borracha e granadas de efeito moral. Entidades estudantis acusam as forças de segurança de espancar manifestantes. Dois adolescentes sofreram ferimentos graves nos olhos e outro perdeu vários dentes.
O ministério da Educação informou que 170 estudantes e 65 trabalhadores das escolas ficaram feridos. O governo também contabilizou mais de 300 policiais e bombeiros atendidos após os confrontos.
Houve incêndios e depredações em parte dos protestos. Uma escola foi atingida pelo fogo em Nantes, enquanto ônibus, carros e contêineres foram incendiados em cidades como Marselha, Estrasburgo e Le Havre.
Macron reconheceu que as reivindicações dos jovens são legítimas, mas condenou os bloqueios. “As escolas existem para permanecer abertas e compartilhar conhecimento. Não foram feitas para serem bloqueadas ou para terem lixeiras incendiadas”, declarou.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu convocou uma reunião de emergência e pediu que os ministros permanecessem no país. O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, orientou os procuradores a adotarem uma “resposta firme” e cobrarem dos pais os prejuízos atribuídos aos filhos menores de idade.
“Quando professores são atacados, quando o serviço público é atacado, evidentemente a Justiça deve agir”, afirmou Darmanin. O ministro admitiu, no entanto, que as reivindicações dos estudantes “devem ser ouvidas”.
Os protestos ganharam força no momento em que Lecornu apresentou uma proposta de orçamento que prevê retirar 54 bilhões de euros dos gastos públicos em 2027. Os estudantes temem que o ajuste aprofunde a falta de profissionais e a deterioração das escolas e universidades.
Sem conseguir conter as mobilizações, o governo passou a acusar a França Insubmissa (LFI), liderada por Jean-Luc Mélenchon, de estimular os protestos.
A LFI nega ter organizado os protestos. Mélenchon manifestou apoio aos estudantes e acusou o governo de promover uma repressão com “evidentes conotações racistas”. “Deixem nossa juventude em paz!”, escreveu nas redes sociais o líder da esquerda radical.
Mélenchon comemorou a dimensão alcançada pelo movimento, mas pediu que os manifestantes não ofereçam pretextos para a repressão. “As imagens de contêineres em chamas só servem ao adversário”, alertou.
A Union Syndicale Lycéenne, uma das principais entidades dos estudantes secundaristas, também rejeitou a versão do governo. Para Philémon Jouglet Marcus, representante da organização, atribuir os atos a partidos políticos é uma forma de negar aos jovens a capacidade de defender as próprias reivindicações.
“Isso me faz rir um pouco”, disse. Segundo ele, o governo “infantiliza os estudantes” ao sustentar que eles não seriam responsáveis pelo movimento que tomou as escolas francesas.