Alternativas para Política da Esquerda, por Fernando Nogueira da Costa

Alternativas para Política da Esquerda

por Fernando Nogueira da Costa

O historiador Timothy Shenk, no livro Left Adrift: What Happened to Liberal Politics (2024), analisa a transformação estrutural da política eleitoral da esquerda ao longo dos últimos cinquenta anos. Entre as principais ideias destaca-se a erosão do voto de classe (dealignment) como uma mudança nas regras tradicionais.

No passado, a divisão política nos Estados Unidos era simples e previsível: o Partido Republicano representava o mundo corporativo e os Democratas representavam os trabalhadores industriais e de colarinho azul (blue-collar). Hoje, essa divisão estritamente econômica ruiu.

No novo mapa eleitoral, os democratas passaram a obter seus melhores resultados entre os eleitores de maior renda e mais alta escolaridade, enquanto os republicanos passaram a vencer com margens expressivas entre os trabalhadores sem diploma universitário.

O historiador analisa a transformação da coalizão democrata. Em 1948, quando Harry Truman dessa linha política foi reeleito, a probabilidade de votar nos democratas caía de acordo com a elevação da escolaridade e a renda do eleitor subiam, ou seja, era um gráfico eleitoral uma linha diagonal descendente. Em 2016, com Hillary Clinton, essa curva virou um formato em “U” ou “anzol” (fishhook): os democratas mantiveram apoio entre os eleitores de menor escolaridade (um grupo proporcionalmente muito menor no eleitorado atual), mas registraram seus maiores picos de votação entre as elites urbanas e suburbanas altamente diplomadas.

A esquerda deixou de ser uma coalizão moldada por sindicatos e passou a ser ancorada nas universidades, tornando-se uma aliança entre profissionais de colarinho branco e as camadas mais pobres da população. Terá ocorrido a mesma mudança de sindicatos a universidades no eleitorado do Partido dos Trabalhadores no Brasil?

Além dos limites americanos, Shenk enfatiza que essa reconfiguração não se explica apenas por dinâmicas locais dos EUA (como o backlash racial do pós-direitos civis nos anos 1960). A migração de profissionais diplomados para a esquerda e de trabalhadores para a direita populista ocorreu simultaneamente em países como França, Itália, Dinamarca, Brasil, Índia e Filipinas, caracterizando-a como um fenômeno global.

Porém, embora crescente no Brasil, a proporção de diplomados com ensino superior completo é pequena (apenas um em cada cinco brasileiros), conforme os dados do Censo 2022 do IBGE. O índice dos maiores de 25 anos quase triplicou, nas últimas duas décadas, subindo de 6,8% em 2000 para 18,4% em 2022.

Há cientista político em defesa da ideia de “os eleitores não são tolos”, mesmo diante da sociedade ser permanentemente dividida por múltiplas fraturas: classe, raça, gênero, religião, região e escolaridade. O elemento crucial da democracia é saber qual dessas fraturas os políticos e seus partidos escolhem trazer para o centro do debate.

O livro desenvolve essa história acompanhando a trajetória das visões em confronto de dois influentes de  consultores estrategistas e pesquisadores do centro-esquerda internacional. Um (Stan Greenberg) defendia “o projeto de classe”. Acreditava os democratas poderem ressuscitar a coalizão do New Deal combinando populismo econômico a concessões pragmáticas em relação às ansiedades culturais da classe trabalhadora.

O outro (Doug Schoen) dizia a polarização cultural haver favorecido a direita de forma irreversível. A única saída para os democratas seria mover-se ao centro, tanto em temas econômicos, quanto em sociais, em busca de consenso e unidade nacional. Embora ambos tenham dedicado suas carreiras a tentar conter o avanço da polarização cultural para preservar a viabilidade de seus partidos, ambos perderam a disputa e os polarizadores venceram.

A Ciência Política do pós-guerra retratava os eleitores como desinformados ou irracionais, mas um cientista político (V. O. Key Jr.), no livro The Responsible Electorate (1966), defendeu o eleitorado reagir de forma razoável a questões políticas reais e a mensagens bem estruturadas.

A coalizão do New Deal, construída por Franklin D. Roosevelt em 1936, baseava-se em divisões econômicas. Quando essa aliança ruiu, em 1968, com as divisões sobre a Guerra do Vietnã e os direitos civis, a tese de Key influenciou tanto Greenberg quanto Schoen na busca por uma nova fórmula de vitória.

Durante sua formação em Harvard, Greenberg estudou o pensamento marxista de Antonio Gramsci. Absorveu a ideia de a consciência de classe não surgir automaticamente da opressão econômica, mas precisar ser construída, política e culturalmente, através da disputa por hegemonia.

Ao analisar dados da campanha de 1968, ele notou:  o anticomunismo de Eugene McCarthy atraía os jovens suburbanos bem-educados de classe média, enquanto Robert F. Kennedy (RFK) construía uma coalizão multirracial, focada nos trabalhadores e nos pobres. Greenberg tomou o modelo de RFK  de “Projeto de Classe” (Class Project) como a missão de sua vida.

Greenberg, em  seus grupos de foco, descobriu: os trabalhadores de colarinho azul ao emigrarem para votar em Ronald Reagan não agiam apenas por racismo, mas por ansiedades econômicas genuínas, medo do declínio de status da classe média e pela sensação de o Partido Democrata os haver abandonado em favor de elites e grupos de interesse.

Greenberg defendia então os Democratas deverem articular um populismo econômico universal, focado em empregos, saúde e impostos sobre os mais ricos. Ao mesmo tempo, deveriam moderar o tom nas guerras culturais, para neutralizar as divisões e reunir a classe trabalhadora multirracial, em uma estratégia de classe.

A abordagem pragmática de Schoen enxergava a política não como uma luta moral de classes, mas como um jogo pragmático, focado em “obter uma fatia do bolo” e responder ao interesse próprio do eleitor. Adotou a premissa de o eleitor médio decisivo ser a favor do “consenso moderado” no centro do país — personificado na figura da “dona de casa de 47 anos do subúrbio de Dayton, Ohio”.

Schoen analisou o discurso anti-imigração  e concluiu estatisticamente: a reação cultural da classe trabalhadora era uma força devastadora capaz de alterar eleições. Quando a elite ignora as frustrações populares sobre cultura e segurança, os eleitores migram para populistas de direita.

Ele argumentava: os EUA viviam sob um “consenso anti-New Deal” capaz de eleger o neoliberal Reagan. Para sobreviver, os Democratas precisavam abandonar a retórica de conflito de classe, adotar moderação fiscal e social, e buscar a unidade no centro do eleitorado.

Nesse confronto de visões, Shenk estabelece o contraste central entre os dois estrategistas. Um buscava o conflito de classe e o populismo social-democrata, acreditando ser possível ressuscitar a maioria do New Deal. Outro defendia a busca pelo centro, a moderação e o consenso, argumentando a polarização cultural ter tornado a linguagem de classe eleitoralmente inviável para a esquerda.

Ambos os estrategistas detestavam as elites e os ativistas liberais de seu próprio partido, mas a rivalidade entre o “projeto de classe” de Greenberg e o “projeto de consenso” de Schoen definiria os rumos do Partido Democrata nas décadas seguintes. Shenk faz uma referência explícita ao Brasil para ilustrar como o eleitorado de esquerda se reconfigurou ao longo das últimas décadas.

Nos anos 1990, o apoio ao principal partido de esquerda brasileiro (o PT) concentrava-se proporcionalmente nos eleitores de maior escolaridade. Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, a base de apoio sofreu um realinhamento econômico direto, passando a ser ancorada fortemente nos eleitores de menor renda e das regiões mais pobres.

Na disputa eleitoral contra Jair Bolsonaro, em 2022, Lula manteve o apoio sólido da população de menor renda, mas compensou perdas em certas áreas de baixa renda, melhorando o desempenho em regiões mais abastadas e com maior presença de diplomados como nos centros urbanos de São Paulo e Rio de Janeiro.

Embora o livro não conceitualize o PT através de Greenberg e Schoen, a tensão teórica entre as duas abordagens ajuda a ilustrar dinâmicas presentes nas decisões de campanhas de centro-esquerda por meio de um paralelo conceitual.

O projeto de classe (Stan Greenberg) defende a mobilização de uma maioria de trabalhadores por meio do populismo econômico (empregos, saúde, renda e impostos sobre o topo), reduzindo a centralidade das pautas morais para evitar a divisão da base trabalhadora. O projeto de consenso (Doug Schoen) argumenta a polarização inviabilizar o discurso puro de luta de classes, exigindo moderação fiscal, acenos ao centro e frentes amplas de governabilidade em nome da estabilidade.

A trajetória do Partido dos Trabalhadores, relatada por Shenk, mostra como a legenda combinou o apelo material à base da pirâmide com a construção de alianças amplas ao centro para viabilizar e sustentar suas vitórias eleitorais.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]. 

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