
O cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, avalia que o resultado do primeiro turno mostrou uma consolidação do eleitorado de direita e colocou Flávio Bolsonaro (PL) em vantagem na disputa presidencial. Em entrevista ao jornal Globo, ele afirmou que o crescimento do candidato na reta final já era perceptível nas pesquisas e foi impulsionado pelo voto útil de eleitores que antes estavam com outras candidaturas.
Para Nunes, Lula (PT) terá de reconstruir a frente ampla que o ajudou na eleição de 2022 e disputar principalmente os 8% que votaram em outros candidatos no primeiro turno. O cientista político também vê espaço para a campanha petista buscar eleitores que se abstiveram, mas ressalta que uma eventual virada exigirá uma estratégia diferente da adotada até agora:
O movimento de ontem foi inesperado, considerando as pesquisas da véspera que ainda indicavam Lula na liderança?
Já tem mais ou menos 15 dias que estamos vendo uma movimentação previsível no campo da direita. Esse voto que estava nas candidaturas alternativas foi se consolidando em torno de Flávio. Para mim, Caiado, Cury, Renan e Zema funcionaram como uma caixa d’água de votos, um reservatório da direita. Quando esse eleitor percebeu que as candidaturas não tinham viabilidade, fez o voto útil. O percentual deles sai de 16% para 8%. São os oito pontos que o Flávio cresceu na reta final. Era totalmente previsível. Eu disse no sábado que, dado o movimento de voto útil dos últimos dias, não me surpreenderia se Flávio aparecesse na frente do Lula.
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De novo, um candidato de oposição termina o primeiro turno à frente. É reflexo da tal maldição do incumbente mundo afora?
O eleitor está mais impaciente. Tem hoje um reflexo muito mais imediatista, então os governos do mundo todo estão com dificuldade de responder aos anseios da população. Não à toa vemos mais vitórias da oposição. O mundo está dopado na dopamina, querendo tudo para ontem.
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Flávio é favorito no segundo turno?
Quem disputa o segundo turno na frente é favorito. Todos os candidatos que foram ao segundo turno na frente venceram a eleição. Flávio, claro, se torna favorito. Vai ser preciso ter uma campanha muito estratégica para Lula, a vantagem de Flávio é expressiva.
Para conseguir uma virada inédita, Lula tem que tirar votos de onde?
Existem dois tipos de eleitores que são “swing” no Brasil. Quando descrevi no livro “O Brasil no espelho” as nove bolhas brasileiras, disse que o Lula teria o progressista, o militante de esquerda e as classes D e E. Já o candidato da direita teria o agro, o conservador cristão, boa parte dos empresários e a extrema direita. Em disputa estão o liberal social e o empreendedor individual. Hoje, o empreendedor individual que votou mais no Lula em 2022 está votando no Flávio, e boa parte dos liberais sociais se sentiu traída pelo governo Lula, que foi menos de frente ampla do que eles imaginavam. Alguns deles ainda ficaram no Caiado, no Renan, no Cury. Esses poucos são fundamentalmente os liberais sociais. Lula vai ter que formar de novo uma frente ampla, que se desfigurou.
É possível tirar voto de Flávio, como fez contra Geraldo Alckmin em 2006?
O fundamental é lembrar que tem 8% em disputa. E que boa parte do eleitor mais à direita já foi embora para o Flávio em voto útil. O que sobrou é um eleitor que rejeita os dois; que vê o Flávio como uma opção que não é a melhor que ele gostaria, e o Lula como alguém que o traiu. Esse é o eleitor que está em disputa, e o percentual de 8% é enorme numa disputa tão apertada. É muita gente. Tem outros dois movimentos possíveis: diminuir a abstenção, que continua seguindo o padrão histórico de gente mais velha e das regiões mais pobres, e tentar fazer com que os debates agora aconteçam, e aí há uma discussão fundamental para entender como ganhar esses 8%.
A campanha teve várias revelações de escândalos contra os dois lados. Isso já não impacta mais?
O que dá para cravar é o que documentamos ao longo da campanha. Em vários momentos, perguntei sobre o Master, por exemplo, e em todos o eleitor brasileiro disse que a crise do Master era do sistema, não do Lula ou do Flávio. É óbvio que isso fez efeito, porque quando você enxerga uma crise do sistema, busca mudança. É impossível entender essa eleição sem o recado de mudança. Os escândalos serviram para alimentar esse sentimento. Na opinião dos eleitores de direita, o áudio de Flávio com Vorcaro é um áudio explicado pela campanha, “dinheiro privado”. A direita comprou isso, a narrativa funcionou.