
Por Jeferson Miola, publicado no blog do autor
A Globo perdeu fragorosamente. E perdeu de forma desonrosa, abraçada ao que há de pior na política brasileira, que é o chorume bolsonarista.
Estava tudo engendrado pela Globo para Lula perder em qualquer condição: seja participando do debate, seja se ausentando dele. Mas, no fim, o plano da Globo fracassou.
Mesmo ausente, Lula foi um craque, e ganhou de goleada. Lula venceu uma batalha crucial, que pode significar seu triunfo já no domingo, dia 4.
Até às 9 horas da manhã deste dia seguinte ao cancelamento do debate da Globo, a entrevista do Lula ao Podcast Flow já tinha mais de 17 milhões de visualizações e retransmissões: 10 milhões no próprio Flow, e outros sete milhões em outras plataformas e perfis nas redes.
A audiência preponderante do Flow é composta por um público jovem, e as pesquisas indicam que são justamente os eleitores entre 16 e 34 anos os que mais podem mudar de voto [27%] até domingo; mais que o dobro da média geral do eleitorado que ainda pode escolher outro candidato [12%].
A Globo alegou que interferências do TSE e STF a levaram a cancelar o debate, mas se sabe que o verdadeiro motivo do cancelamento foi a desistência de Flávio Bolsonaro, que fugiu medrosamente ao saber que Renan Santos, do Missão, ganhou no STF o direito de participar.
O descontrole intestinal que levou ao desmaio do gângster-filho durante debate para a disputa da prefeitura do Rio em 2016 foi muito relembrado nas redes sociais, fortalecendo a intuição de que Flávio B. não teria estrutura emocional e “estabilidade intestinal” para enfrentar os ataques do Renan, que o chama de bandido para baixo e costuma recitar a extensa ficha criminal dele e da família de gângsteres.
Na terça-feira, 29/9, o presidente do TSE Kássio Nunes Marques assegurou, sem amparo legal, a participação do candidato lanterna nas pesquisas, com 1%, o Zema.
Apesar disso, Flávio não desistiu de participar do debate e a Globo não cancelou o evento, porque a inclusão de Zema conviria à estratégia armada para beneficiar Flávio – circulavam rumores de que Zema usaria solenemente o púlpito da Globo para comunicar o abandono da disputa e o apoio a Flávio.
Flávio e Globo também não anunciaram desistência e cancelamento do debate mesmo depois da decisão da ministra do TSE Estela Aranha, por volta das 18 horas da quinta-feira, 1º/10, que proibiu tanto a exploração da imagem do púlpito vazio reservado ao Lula, como também a esdrúxula previsão de “perguntas ao púlpito” do candidato ausente.
O Flávio só comunicou a fuga do confronto e a Globo só decidiu cancelar o debate depois que foi publicada a decisão do ministro do STF Gilmar Mendes, por volta das 19:20 horas, determinando a participação de Renan Santos.

Gilmar considerou que com 3% nas pesquisas, o triplo de Zema, Renan atenderia à regra da própria Globo: “em caso de desistência, poderia convidar o candidato mais bem colocado na pesquisa Quaest de 28 de setembro entre aqueles que não tinham participação assegurada pela legislação”.
Não é casual que tanto Globo como Flávio agora adotem como narrativa comum a crítica à “interferência do judiciário” para esconder o real motivo do cancelamento do debate.
O conglomerado de mídia da família Marinho é aliado eleitoral da família miliciana. A Globo trabalha para eleger Flávio. Isso não é suspeita ou ilação; mas uma evidência caracterizada:
[i] pelo favorecimento escandaloso do gângster-filho nas entrevistas do Jornal Nacional;
[ii] na cobertura enviesada sobre os escândalos Master e INSS para incriminar Fábio Luís e colocar foco exclusivo em Alexandre de Moraes enquanto esconde envolvimento de agentes bolsonaristas – o próprio Mendonça, Fux, Toffoli, “KN”, Campos Neto, Flávio B. etc; e
[iii] na construção narrativa da Globo sobre a crise do STF desde a perspectiva bolsonarista, que vitimiza Mendonça e incrimina o judiciário para alavancar a campanha do Flávio B. à presidência e as candidaturas da extrema-direita ao Senado.
A descoberta dos conteúdos dos celulares de Daniel Vorcaro que André Mendonça escondeu durante meses para proteger a si mesmo e a outros bolsonaristas, desnudou vínculos suspeitos de Luciano Huck com o banqueiro mafioso.
Huck foi sócio de Vorcaro pelo menos na propriedade de um avião, e intermediou contratos da Globo com o Master.
A Globo deve muitas explicações sobre patrocínios e apoios recebidos do esquema criminoso, e provavelmente por isso faz uma cobertura que desvia a atenção do essencial para proteger os interesses bolsonaristas.
É uma postura diferente da cobertura da Lava Jato, instrumentalizada para derrubar Dilma, prender Lula e eleger Bolsonaro, porque a Globo aposta na eleição do Flávio para varrer sua corrupção para debaixo do tapete, junto com a corrupção e os crimes dos Bolsonaro.