Senadores dos EUA alertam Trump contra interferência nas eleições do Brasil

Três senadores dos Estados Unidos acusaram o governo Donald Trump de conduzir uma campanha de interferência e desestabilização no Brasil para favorecer Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais. 

Em carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, os parlamentares exigem que Washington reconheça o resultado das urnas, independentemente do candidato escolhido pelos brasileiros.

O documento é assinado pelos democratas Jeanne Shaheen, principal representante da oposição no Comitê de Relações Exteriores do Senado, Tim Kaine e Peter Welch. A iniciativa aumenta a pressão sobre a Casa Branca a quatro dias do primeiro turno, marcado para domingo (4).

“Em vez de ajudar a defender a democracia brasileira, os Estados Unidos estão utilizando pressão diplomática, econômica e política de maneiras que ameaçam enfraquecer as instituições democráticas do país, minar a confiança no processo eleitoral brasileiro e causar mais danos à nossa relação com um aliado estratégico e parceiro comercial dos EUA”, afirmam.

Os senadores perguntam se o governo Trump “se comprometerá a reconhecer o resultado certificado das eleições democráticas de 2026 no Brasil” e manterá relações diplomáticas normais com qualquer candidato “livre e justamente escolhido pelo povo brasileiro”.

A carta é a segunda enviada por parlamentares norte-americanos a Rubio em menos de uma semana.

 Na quarta-feira passada (24), um grupo de 31 integrantes do Congresso, liderado pela deputada Delia Ramirez e com participação do senador Bernie Sanders, já havia denunciado a ingerência dos Estados Unidos e cobrado respostas do Departamento de Estado até esta quinta-feira (1º).

Pressão para favorecer Flávio

Na nova manifestação, os senadores afirmam que autoridades norte-americanas promovem uma “campanha de interferência e desestabilização no Brasil” desde o início do segundo mandato de Trump. 

Segundo eles, a ofensiva se intensificou em 2025, quando Washington aplicou tarifas e sanções para tentar influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF).

O ex-presidente foi condenado a mais de 27 anos de prisão por sua liderança na tentativa de golpe destinada a impedir a posse de Lula e mantê-lo no poder após a derrota eleitoral de 2022.

Para os parlamentares, a preferência da Casa Branca na atual disputa ficou evidente com a recepção oferecida a Flávio Bolsonaro no Salão Oval, em maio. O encontro ocorreu enquanto o candidato da extrema direita tentava conter as consequências do escândalo sobre o banco Master.

“A recente reunião no Salão Oval entre o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e o presidente Trump evidencia a disposição da Administração em interferir no processo eleitoral”, diz a carta.

A reunião foi seguida pela classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos. A medida foi criticada por Lula, que rejeitou qualquer tentativa de Washington de usar o combate ao crime organizado como justificativa para violar a soberania brasileira.

Os senadores também lembraram as tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e as sanções aplicadas ao ministro Alexandre de Moraes. Trump vinculou publicamente as retaliações ao processo contra Jair Bolsonaro.

Do reconhecimento de Lula à ofensiva de Trump

A postura atual da Casa Branca, segundo os democratas, contrasta com a atuação dos Estados Unidos após as eleições brasileiras de 2022. Na ocasião, Washington reconheceu rapidamente a vitória de Lula e ajudou a esvaziar as tentativas bolsonaristas de contestar o resultado.

Depois dos ataques de 8 de janeiro de 2023, o governo norte-americano também apoiou o presidente recém-empossado e participou da articulação regional em defesa das instituições brasileiras.

“O contraste com a postura dos Estados Unidos durante a eleição presidencial anterior no Brasil não poderia ser mais evidente”, afirmam Shaheen, Kaine e Welch.

Agora, avaliam, o governo Trump reproduz no Brasil uma política aplicada em outros países latino-americanos. “Esse padrão ameaça não apenas minar a integridade dos processos eleitorais em países específicos, mas também corroer progressivamente a confiança pública nos processos e instituições democráticas em toda a região”, alertam.

Supremacista branco comanda ofensiva

A carta aponta Darren Beattie, assessor sênior do Departamento de Estado para o Hemisfério Ocidental, como um dos principais articuladores da ofensiva contra o Brasil. Os senadores o descrevem como “um conhecido extremista de extrema direita e supremacista branco”.

Beattie trabalhou como redator de discursos no primeiro governo Trump, mas foi demitido em 2018 depois que a imprensa revelou sua participação em uma conferência de nacionalistas brancos. 

Fora do governo, fundou o site Revolver News, que difundiu mentiras e teorias conspiratórias sobre a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021.

Ele retornou ao Departamento de Estado em fevereiro sem passar por sabatina no Senado. Para os três parlamentares, suas declarações revelam “um compromisso ideológico aberto em minar as instituições democráticas do Brasil e promover os interesses da extrema direita brasileira”.

Em março, o governo brasileiro negou visto a Beattie. Segundo o Itamaraty, o assessor omitiu ou apresentou informações falsas sobre o motivo da viagem. Ele havia alegado interesse em participar de um evento sobre terras raras, mas planejava visitar Jair Bolsonaro.

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