
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) pretende adotar no Itamaraty uma reforma inspirada na gestão de Marco Rubio, secretário de Estado do governo Donald Trump, caso vença a eleição, segundo reportagem de Patrícia Campos Mello na Folha de S.Paulo.
As propostas são apresentadas em reuniões fechadas por Marcos Degaut, aliado de Eduardo Bolsonaro na área de política externa, e incluem mudanças nas promoções, metas comerciais e a atribuição de funções a pessoas de fora do ministério.
A campanha, porém, afirmou que nem Degaut nem Eduardo Bolsonaro falam pelo candidato e disse que não se posicionaria sobre planos para a política externa. Cinco participantes das conversas relataram que Degaut descreveu as ideias como parte de um projeto para um eventual governo. Procurado, ele não respondeu.
O desenho apresentado prevê concentrar a atuação diplomática em 35 países considerados prioritários, grupo chamado de G35 que incluiria os integrantes do G20. Algumas representações receberiam mais dinheiro e pessoal, formando superpostos. Na África, África do Sul e Egito foram citados como possíveis centros dessa estrutura.

Os diplomatas passariam a atuar com maior concentração em regiões e temas específicos, acompanhados de metas de exportação, atração de investimentos e inserção comercial. O desempenho nessas tarefas teria peso nas promoções, reduzindo a importância do tempo de carreira. Degaut também defendeu entregar funções a pessoas de fora do Itamaraty, embora tenha negado, nas conversas, a intenção de promover perseguição política.
O modelo invocado é o da reestruturação promovida por Rubio no Departamento de Estado dos Estados Unidos. As mudanças eliminaram 1.300 vagas, fecharam departamentos e postos e incorporaram critérios como fidelidade à agenda de Trump. O órgão também ampliou a presença de indicados políticos em posições antes ocupadas por funcionários de carreira.
Nas reuniões, Degaut afirmou rejeitar um alinhamento automático a Washington e defendeu preservar os laços econômicos com a China. Ao mesmo tempo, propôs intensificar acordos com os Estados Unidos, inclusive em minerais críticos, e reduzir a dependência das exportações de commodities para Pequim. Israel e países latino-americanos governados pela direita também aparecem entre as prioridades relatadas.
A discussão ocorre em meio à disputa pelo comando do Itamaraty em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro é um dos nomes mencionados, ao lado da senadora Tereza Cristina e do ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio Roberto Azevêdo. Degaut, que ocupou cargos nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, poderia receber uma função na Defesa ou nas Relações Exteriores, segundo os relatos reunidos pela Folha.
A lentidão das promoções é uma queixa real dentro do ministério, onde há diplomatas há mais de dez anos sem avançar na carreira. O presidente da associação e sindicato da categoria, Gustavo Buttes, atribui a insatisfação a gargalos que limitam a progressão. Em resposta à Folha, o Itamaraty informou ter realizado 615 promoções nos quatro anos de Bolsonaro e 622 no atual mandato de Lula. Interlocutores do ministério apontam que mudanças mais amplas dependeriam de alteração na Lei do Serviço Exterior e de apoio no Congresso.