O governo de Donald Trump revogou ou restringiu os vistos de autoridades, magistrados e empresários de quatro países latino-americanos sob a acusação de corrupção, narcotráfico ou atuação contra governos “democraticamente eleitos”.
Entre os atingidos, no entanto, está o procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, responsável pelo Ministério Público que investiga Fernando Cerimedo, operador político argentino ligado às campanhas de Jair Bolsonaro, Javier Milei e outros nomes da extrema direita do continente latino.
A lista anunciada na segunda-feira (28) inclui cidadãos da Bolívia, Colômbia, Equador e Peru, além de familiares dos sancionados.
O Brasil não integra o grupo de países atingidos, mas o candidato da extrema direita à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), prometeu aderir ao Escudo das Américas caso seja eleito em outubro.
A aliança foi criada por Trump em março e reúne governos conservadores sob o comando dos Estados Unidos.
Washington acusa Mariaca de aceitar propina para facilitar atividades do narcotráfico e ajudar criminosos a escapar da Justiça. O procurador negou as acusações, classificou a retirada de seu visto como “ingerência” e “pressão política” e afirmou que não interromperá as investigações sob responsabilidade do Ministério Público.
Entre elas estão os processos contra Cerimedo, preso preventivamente na Bolívia desde agosto.
O argentino responde a acusações de tentativa de feminicídio, violência familiar e enriquecimento ilícito. Ele nega os crimes. Durante buscas realizadas em imóveis ligados ao investigado, a polícia encontrou mais de US$40 mil e equipamentos apontados como parte de uma estrutura destinada à operação de contas automatizadas nas redes sociais.
Mariaca não é juiz e não foi quem decretou a prisão de Cerimedo. Como procurador-geral, ele dirige a instituição que mantém as investigações. Outros integrantes do sistema judicial boliviano também aparecem entre os sancionados, como o magistrado constitucional Israel Campero e procuradores que atuam no país.
Sanções protegem operador da extrema direita
Cerimedo se tornou conhecido no Brasil por disseminar informações falsas contra as urnas eletrônicas após a derrota de Jair Bolsonaro em 2022.
Próximo de Eduardo Bolsonaro, participou da ofensiva que procurou desacreditar o resultado eleitoral e foi indiciado pela Polícia Federal (PF) na investigação sobre a tentativa de golpe de Estado.
Sua ex-companheira, Nadia Beller, afirmou ainda que ele pretendia atuar pela candidatura de Flávio Bolsonaro em 2026.
Ao justificar as punições, o Departamento de Estado dos EUA afirmou que pessoas acusadas de “minar um governo eleito democraticamente” representam uma ameaça à segurança e ao Estado de Direito nas Américas.
Na prática, os Estados Unidos se concedem o direito de decidir quais autoridades latino-americanas atuam em defesa da democracia e quais devem ser castigadas, sem processo judicial nem apresentação pública de provas.
A investida faz parte do Escudo das Américas, articulação dirigida por Washington que reúne cerca de 15 governos da região. Apresentado como uma frente contra o narcotráfico e o crime organizado, o bloco prevê compartilhamento de informações, sanções econômicas, restrições migratórias e operações coordenadas.
Na semana passada, seus integrantes apoiaram medidas contra 24 organizações classificadas pelos Estados Unidos como “narcoterroristas”.
O uso do combate ao crime como justificativa para pressionar autoridades nacionais integra a chamada Doutrina Donroe.
A expressão, adotada pelo próprio Trump, combina seu sobrenome com a Doutrina Monroe, formulada pelos Estados Unidos em 1823. Sob o lema “América para os americanos”, Washington reivindicou para si o controle político do continente e tratou a América Latina como sua área de influência.
Ao longo dos séculos 19 e 20, essa concepção serviu de cobertura para intervenções militares, golpes de Estado, ocupações e apoio a ditaduras.
Na versão de Trump, o discurso contra o “narcoterrorismo” cumpre papel semelhante. A Casa Branca procura ampliar sua presença militar, condicionar as políticas de segurança dos países latino-americanos e punir agentes públicos que contrariem seus aliados.
O alvo também inclui a presença econômica da China: entre os sancionados está o juiz peruano Juan Carlos Núñez, autor de uma decisão favorável à empresa chinesa Cosco Shipping, responsável pelo porto de Chancay.
Flávio quer o Brasil no Escudo das Américas
Flávio Bolsonaro já declarou que colocará o Brasil nessa estrutura se vencer a eleição presidencial.
A adesão subordinaria a política de segurança brasileira às prioridades definidas por Washington e abriria espaço para que medidas semelhantes fossem usadas contra autoridades, magistrados e servidores brasileiros considerados obstáculos aos interesses dos Estados Unidos ou de seus aliados locais.
A posição contrasta com a política externa do governo Lula, que manteve o Brasil fora do Escudo das Américas. Na Assembleia Geral da ONU, o presidente advertiu contra as “tentações hegemônicas” e afirmou que o país “não cabe no quintal de ninguém”.