O fascismo segue abrindo espaço nas instituições europeias. Na França, onde a direita tradicional incorporou parte de suas bandeiras, a extrema direita ampliou sua presença no Senado e terá, pela primeira vez, um grupo parlamentar próprio na Casa.
O Reunião Nacional (RN), de Marine Le Pen, elegeu nove senadores no domingo (27) e chegou a 12 cadeiras. Com dois representantes da União das Direitas pela República (UDR), de Éric Ciotti, os aliados somam 14 mandatos.
O resultado permite ao RN superar o mínimo de dez senadores exigido para a formação de uma bancada. Até agora, seus três representantes atuavam sem a estrutura reservada aos grupos parlamentares.
O partido havia chegado ao Senado em 2014, quando ainda se chamava Frente Nacional, com dois representantes. Em 2023, conquistou três cadeiras. Agora, ganha de uma só vez nove novos senadores e alcança o melhor resultado de sua história na Casa.
A eleição renovou 178 das 348 cadeiras do Senado. Os mandatos duram seis anos, mas metade da Casa é escolhida a cada três anos. Diferentemente da Assembleia Nacional, os senadores não são eleitos diretamente pela população.
A votação cabe a um colégio formado principalmente por prefeitos, vereadores e outros representantes locais.
A composição definitiva das bancadas ainda depende da decisão de parlamentares eleitos por listas aliadas ou sem filiação partidária clara. O RN espera atrair outros senadores e aproximar seu grupo de 15 integrantes.
A direita tradicional manteve o controle do Senado, mas perdeu espaço. Os Republicanos (LR), que comandam a Casa com o apoio da União Centrista desde 2014, devem passar de 131 para cerca de 125 senadores. Seus aliados centristas também podem perder dois representantes.
Apesar da redução, o bloco conserva ampla vantagem. Gérard Larcher, presidente do Senado e integrante do LR, tentará renovar seu mandato à frente da Casa.
A esquerda manteve aproximadamente o mesmo número de cadeiras, apesar das derrotas sofridas nas eleições municipais. Os grupos Socialista, Ecologista e Comunista, que reuniam 98 senadores, devem ficar com cerca de 97.
O Partido Socialista preservou sua posição como segunda maior força do Senado. Os ecologistas perderam mandatos, mas conseguiram manter um grupo parlamentar. O Partido Comunista Francês, que colocava quatro de suas 18 cadeiras em disputa, também conservou sua bancada.
A novidade foi a entrada da França Insubmissa (LFI) no Senado. Gabriel Amard, deputado por Villeurbanne, foi eleito pelo departamento do Rhône. Marc Pénat, eleito pela Haute-Garonne e ligado à legenda, também deverá manter vínculo administrativo com o partido, embora possa integrar o grupo ecologista.
Avanço nas eleições municipais abriu caminho
O crescimento da extrema direita no Senado reflete os resultados obtidos pelo RN nas eleições municipais de março. Ao conquistar prefeituras e ampliar sua presença nos legislativos locais, o partido aumentou o número de representantes aptos a votar nas eleições senatoriais.
O crescimento ocorreu sobretudo nos departamentos do litoral mediterrâneo, onde a extrema direita já mantém uma presença eleitoral consolidada.
O RN também obteve resultados melhores nas regiões em que possui deputados na Assembleia Nacional. A presença desses parlamentares ajudou o partido a formar redes com prefeitos e vereadores, fundamentais em uma eleição indireta como a do Senado.
Nem todos os senadores são escolhidos pelo mesmo sistema. Nos departamentos que elegem um ou dois representantes, a disputa é majoritária, em até dois turnos. Nos que possuem três ou mais cadeiras, a votação é proporcional, por meio de listas.
Foi nesse segundo grupo que o RN obteve seus melhores resultados. Em Seine-Maritime, Hérault e Var, a divisão dos votos entre listas concorrentes da direita ou da esquerda facilitou a conquista de cadeiras pela extrema direita. Nos departamentos menores, onde precisava vencer a disputa majoritária, o partido fracassou mesmo em áreas consideradas competitivas.
Grupo amplia poder político do RN
A formação de uma bancada dará à extrema direita mais tempo para discursos, apresentação de emendas e perguntas ao governo. O RN também passará a participar da Conferência dos Presidentes, responsável pela organização dos trabalhos e pela definição da pauta do Senado.
O partido poderá indicar representantes para as sete comissões permanentes, disputar cargos na direção da Casa e apresentar projetos durante os períodos reservados aos grupos de oposição. A bancada terá ainda o direito de propor a criação de uma comissão de inquérito por ano.
Essas prerrogativas oferecem ao RN novos espaços para pautar o debate público e avançar com propostas contra a imigração. Marine Le Pen defende, caso vença a eleição presidencial de 2027, a convocação de um referendo para modificar a Constituição e restringir direitos de imigrantes, por exemplo.
O senador comunista de Paris Ian Brossat alertou para a aproximação entre a direita tradicional e a extrema direita.
“O presidente Larcher talvez seja um dos últimos na direita que ainda conserva alguns reflexos republicanos contra a extrema direita, mas, no grupo Os Republicanos, temo que muitos já tenham aberto as comportas”, afirmou.
Nos últimos anos, a maioria conservadora do Senado endureceu projetos sobre imigração e segurança, incorporando bandeiras do RN. Ao adotar posições cada vez mais radicais, o LR ajudou a legitimar propostas que antes estavam restritas ao partido de Le Pen, sem conseguir recuperar o eleitorado perdido.
A estabilidade geral da esquerda e da direita tradicional, porém, não reduz o alcance do resultado da extrema direita.
Além de aumentar sua representatividade no território francêsl, o RN chega ao último grande teste eleitoral antes da disputa presidencial de 2027 com acesso a espaços institucionais que nunca havia ocupado no Senado.