“Democracia vai além do direito de votar”, afirma Osmar de Sá Ponte

Sociólogo e presidente do PSB de Fortaleza analisou o discurso de Lula na ONU, soberania nacional, redes digitais e os desafios da reta final das eleições

Da Redação

A reta final das eleições de 2026 foi analisada a partir dos conflitos geopolíticos, da soberania nacional, da disputa digital e dos efeitos que a conjuntura internacional pode produzir sobre a política brasileira. Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, o sociólogo, professor e presidente do PSB de Fortaleza, Osmar de Sá Ponte, comentou o discurso do Presidente Lula na Organização das Nações Unidas, as declarações do governo dos Estados Unidos e os desafios que, em sua avaliação, estão colocados para a democracia brasileira nas semanas que antecedem a votação.

A conversa ocorreu na edição de 23 de setembro e também tratou de temas como a influência das grandes empresas de tecnologia, a regulação das plataformas digitais, o combate ao crime organizado, o papel das instituições brasileiras e a importância atribuída pelo entrevistado à soberania nacional. Ao longo do programa, Osmar apresentou sua interpretação sobre a conjuntura internacional e seus possíveis reflexos sobre o processo eleitoral brasileiro.

Um dos principais pontos da entrevista foi a leitura feita pelo sociólogo sobre a participação de Lula na Assembleia Geral da ONU. Para Osmar, o discurso do presidente brasileiro foi além da tradicional agenda de política externa e procurou apresentar a soberania como uma questão central para o país.

O entrevistado destacou especialmente a afirmação de Lula de que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Na avaliação de Osmar, a frase sintetizou a defesa de uma política externa baseada na autonomia brasileira diante de pressões de outras potências.

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomenta o desenvolvimento”, afirmou Lula no trecho do discurso reproduzido durante o programa. O Presidente também abordou a ingerência externa em processos eleitorais, a criminalidade organizada, a cooperação internacional e a necessidade de preservar a capacidade brasileira de tomar suas próprias decisões.

Para Osmar, o discurso deve ser compreendido dentro de um cenário internacional marcado por disputas econômicas, conflitos militares e pressões sobre diferentes países. Ele avaliou que a política externa dos Estados Unidos durante o segundo mandato de Donald Trump tem produzido instabilidade e afirmou que decisões tomadas pelo governo norte-americano também provocam efeitos econômicos internos.

O sociólogo relacionou essa conjuntura às dificuldades enfrentadas pela economia norte-americana e à política comercial adotada pelo governo Trump. Ao comentar tarifas e comércio internacional, argumentou que custos adicionais podem ser repassados aos consumidores e citou o setor de carnes como exemplo.

A análise de Osmar também passou pela política norte-americana para a América Latina. O entrevistado criticou a possibilidade de intervenções externas sob justificativas relacionadas ao combate ao narcotráfico e afirmou que o Brasil deveria manter uma posição autônoma diante de iniciativas de outros países.

Ao tratar do tema, Osmar defendeu a importância da diplomacia como instrumento para evitar conflitos. Para ele, a política foi historicamente construída como uma forma de substituir a violência na resolução de disputas entre grupos e Estados.

“A diplomacia é uma forma de se evitar a ruptura de dramas drásticos contra a população, inclusive de guerras que leva à morte”, afirmou. Na sua avaliação, quando o diálogo diplomático é substituído pela força militar, os conflitos deixam de ser mediados por instrumentos políticos e passam a produzir consequências mais graves para as populações envolvidas.

O entrevistado também considerou relevante a afirmação de Lula de que o Brasil não precisa de forças militares estrangeiras para proteger suas águas ou suas fronteiras. No trecho exibido no programa, o presidente brasileiro defendeu a cooperação internacional para combater o fluxo de armas e dinheiro associado ao crime organizado.

A discussão sobre segurança levou Osmar a abordar a relação entre soberania, instituições e combate à criminalidade. Ele avaliou que o Brasil deve enfrentar organizações criminosas por meio de suas próprias instituições e mecanismos legais, sem depender de intervenções externas.

Outro eixo da entrevista foi a influência das grandes empresas de tecnologia. Ao comentar outro trecho do discurso de Lula na ONU, Osmar destacou a discussão sobre regulação das plataformas digitais e inteligência artificial.

No discurso reproduzido durante o programa, Lula criticou o que classificou como uma versão de neoliberalismo digital sem regras e transparência e defendeu medidas relacionadas à proteção de crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital. Também mencionou a necessidade de garantir remuneração a artistas, músicos e criadores de conteúdo audiovisual.

Osmar relacionou essa discussão à soberania digital e à disputa econômica envolvendo empresas de tecnologia. Segundo sua análise, o avanço de plataformas digitais e de novas formas de pagamento também produz consequências econômicas e estratégicas para os países.

Nesse contexto, ele citou o Pix e a possibilidade de ampliação de mecanismos de pagamento dentro dos países integrantes do BRICS. Para o sociólogo, a criação e expansão de alternativas aos sistemas tradicionais de pagamentos internacionais pode representar uma questão estratégica.

A entrevista também entrou no tema da crise envolvendo instituições brasileiras e das pressões externas sobre o país. Osmar manifestou preocupação com o que considera uma deterioração da confiança nas instituições e defendeu mudanças no sistema judiciário brasileiro.

Ao tratar especificamente do Supremo Tribunal Federal, o entrevistado apresentou críticas e levantou hipóteses sobre possíveis relações entre interesses políticos, econômicos e institucionais. Essas afirmações foram apresentadas por ele como interpretações sobre acontecimentos em curso e não como fatos comprovados durante a entrevista.

Para Osmar, a situação exigiria respostas institucionais e maior transparência. Ele afirmou que o país precisa preservar a credibilidade do Judiciário e que conflitos entre instituições podem produzir consequências para a estabilidade democrática.

A discussão sobre a reta final das eleições apareceu justamente nesse ponto. Na avaliação do entrevistado, o processo eleitoral ocorre em meio a uma disputa que ultrapassa os candidatos e envolve diferentes concepções sobre democracia, soberania e papel do Estado.

Osmar afirmou que a democracia não deveria ser reduzida ao ato de votar. “A democracia não é uma coisa só o direito de votar. A democracia é um conjunto de conquistas que nós tivemos”, declarou.

A partir dessa concepção, ele relacionou democracia a direitos sociais construídos ao longo das últimas décadas, especialmente depois da Constituição de 1988. Entre os exemplos citados estavam saúde pública, educação, vacinação e políticas de distribuição de renda.

O professor destacou o Sistema Único de Saúde como uma das conquistas que, em sua avaliação, precisam ser compreendidas como parte do processo democrático. Para ele, o acesso universal à saúde não é apenas uma política administrativa, mas resultado de uma decisão política construída no período constitucional.

A discussão sobre o SUS também apareceu relacionada à experiência da pandemia. Osmar argumentou que mesmo pessoas que não percebem sua relação direta com o sistema público utilizam serviços financiados ou organizados pelo Estado, especialmente em áreas como vacinação.

“Essas agendas são um projeto político de longo prazo”, afirmou ao tratar de saúde, educação e melhoria das condições de vida. Para ele, mudanças nessas áreas não acontecem de maneira imediata e dependem de decisões políticas mantidas ao longo do tempo.

O entrevistado também relacionou a democracia ao acesso à universidade e à ampliação das oportunidades educacionais. Ao lembrar o período da ditadura militar, afirmou que critérios de acesso às universidades públicas eram definidos dentro de uma lógica que, em sua avaliação, não respondia às necessidades sociais.

Outro ponto levantado foi a necessidade de construir uma narrativa política capaz de reunir diferentes setores da sociedade em torno de temas como soberania nacional e defesa das instituições. Osmar afirmou que os partidos e forças políticas que apoiam o governo deveriam tomar iniciativas nesse sentido.

A participação dos eleitores e o papel do Senado também apareceram nos minutos finais do programa. Nesse momento, Osmar apresentou posições favoráveis a candidaturas específicas ao Senado pelo Ceará e defendeu que o eleitorado considerasse a relação dos candidatos com projetos políticos ligados à democracia.

Essas declarações fazem parte da posição política do entrevistado, que preside o PSB de Fortaleza. A entrevista, portanto, combinou sua análise como sociólogo e professor com sua atuação partidária e sua leitura sobre o processo eleitoral de 2026.

Ao final, Osmar voltou a destacar que a disputa eleitoral não deveria ser compreendida apenas como uma escolha entre nomes, mas também como uma discussão sobre o modelo de país e sobre as conquistas sociais que, em sua avaliação, podem ser preservadas ou alteradas por decisões políticas.

A conversa no Democracia no Ar colocou assim a reta final das eleições dentro de um quadro mais amplo, envolvendo a política externa, as relações entre grandes potências, a soberania brasileira, a transformação tecnológica e os conflitos entre instituições. Para Osmar de Sá Ponte, a questão central passa pela capacidade de o Brasil preservar sua autonomia e manter suas instituições funcionando dentro das regras democráticas.

Referências

Não foram citados, durante a entrevista fornecida, livros, filmes, séries ou obras artísticas específicas que permitam elaborar referências bibliográficas com título, autor/diretor e ano.

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