Xadrez regional GGN: O moralismo seletivo que tolera escândalos e isola a esquerda no Centro-Oeste

Na segunda reportagem da série do GGN sobre as dinâmicas regionais das eleições de 2026, o foco se volta para o Centro-Oeste, que consolida-se como um dos bastiões mais homogêneos e resilientes da direita e da extrema-direita no país.

Em entrevista à TV GGN nesta quarta-feira [confira abaixo], o professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Lúcio Rennó, analisou as particularidades locais, o peso do agronegócio, a decadência e ressurreição de velhos caciques e a forte rejeição enfrentada pela esquerda na região. Além disso, um destaque para Goiás, que não opta por Lula nem Flávio Bolsonaro em 2026.

A força do agro e o domínio conservador na região

Com uma estrutura socioeconômica profundamente vinculada ao agronegócio e marcada por municípios de pequeno e médio porte, os estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul mantêm um padrão eleitoral fortemente inclinado à direita.

Se em momentos passados a região abrigou quadros de uma direita mais moderada, como Kátia Abreu e Simone Tebet, o avanço do bolsonarismo a partir de 2018 reconfigurou a paisagem local, forçando antigos e novos atores a se alinharem a esse campo.

“A região tem uma tradição de um voto mais conservador, mais à direita, muito baseado no agro e num conjunto de cidades de pequeno e médio porte. Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul têm uma grande chance de eleger ou reeleger candidaturas do campo mais à direita.” — Lúcio Rennó

Mesmo figuras que contam com maior autonomia política e administrativa acabaram aderindo ao ecossistema bolsonarista. O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), é um exemplo dessa síntese entre o perfil empresarial do agro e a coordenação de máquinas estaduais fortes.

“Caiado vem dessa base agro muito forte, mas tem uma postura mais moderna em várias instâncias de pensar planejamento e economia, que transcendem esse conservadorismo mais duro e cru do bolsonarismo.”

Da rejeição à esquerda à tolerância com escândalos

A fotografia das pesquisas eleitorais nos estados do Centro-Oeste revela um cenário praticamente vedado a candidaturas viáveis do campo progressista para os governos estaduais e o Senado.

  • Goiás: O candidato do governo, Daniel Vilela (MDB), que assumiu em março quando Caiado renunciou, lidera a disputa ao Palácio das Esmeraldas, segundo pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta terça (22). Para o Senado, a ex-primeira-dama Gracinha Caiado (União Brasil) desponta na frente (23%), com Gustavo Gayer atrás, com 20%. Já o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), em meio a pesquisas oscilantes, disputa espaço com o senador Wilder Morais (PL), evidenciando a pressão bolsonarista sobre o antigo tucanato.
  • Mato Grosso: O cenário aponta para uma consolidação da direita, com Otaviano Pivetta (Republicanos), com 49,1%, e Wellington Fagundes (PL), com 37,4% à frente na disputa pelo governo estadual, sem viabilidade de candidaturas de esquerda, segundo levantamento da Paraná Pesquisas divulgado na última sexta (18), variando entre 49% e 64% dos votos válidos.
  • Mato Grosso do Sul: O governador Eduardo Riedel (PP) caminha bem posicionado para a reeleição, embora quadros do PT como Fábio Trad voltem a figurar nas sondagens locais. Já as duas vagas ao Senado são atualmente lideradas por nomes do PL, Reinaldo Azambuja (PL) e Capitão Contar (PL). A senadora Soraya Thronicke (PSB), que realizou a transição para o centro democrático, enfrenta forte resistência das urnas locais.

Distrito Federal e a provável recomposição política

O Distrito Federal, por sua vez, distancia-se do perfil predominantemente rural e agrário do Centro-Oeste, mas preserva traços marcantes de um conservadorismo essencialmente urbano, impulsionado por sua dinâmica administrativa e pela forte presença de setores militares e evangélicos.

A derrocada do governador Ibaneis Rocha (MDB), em março deste ano, em meio ao escândalo financeiro do Caso Master abriu caminho para a consolidação de Celina Leão (PP), que assumiu o comando do Executivo local. Surpreendentemente, as investigações que atingiram o ex-titular não afetaram a popularidade da governadora, que lidera as pesquisas com margem confortável.

“O escândalo ceifou da política o próprio Ibaneis, que era dado como eleito para o Senado. Mas o que surpreende é a resiliência de Celina Leão, que é teflon para isso. O eleitorado do DF releva muito do envolvimento em escândalos, o que remete a uma tradição assistencialista e clientelista do rouba, mas faz”, explica Lucio Rennó.

Paralelamente, a disputa local assiste à movimentação de figuras históricas de diferentes matizes ideológicos. No campo da direita conservadora, o ex-governador José Roberto Arruda (PSD) tentava ensaiar seu retorno político, mas teve sua candidatura definitivamente barrada nesta quinta-feira (24) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Por outro lado, no campo progressista, ex-governadores como Cristóvam Buarque (PSB) e Rodrigo Rollemberg (PSB) concorrem a cadeiras na Câmara dos Deputados.

Presidência e o peso da polarização

No plano nacional, o cientista explica que o Centro-Oeste projeta-se como um ambiente adverso para o governo federal. As intenções de voto no pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) superam as do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em praticamente todos os estados da região, impulsionadas por altas taxas de rejeição ao atual mandatário.

Contudo, a grande exceção e surpresa no desenho presidencial regional fica por conta do estado de Goiás, onde a liderança local prevalece sobre a polarização nacional clássica, optando pelo candidato Ronaldo Caiado (PSD).

“É o único estado, talvez do Brasil, em que nenhum dos dois ganha, nem Flávio, nem Lula. A intenção de voto do Lula na região está menor do que a sua rejeição. Esse é o efeito cristalizado da polarização em um país dividido, num ambiente onde a rejeição ao adversário sobrepõe a própria pauta propositiva.” — Lúcio Rennó

Assista à entrevista pelo link abaixo:

Artigo Anterior

TRE-PR manda Deltan tirar propaganda do Instagram após suspensão de campanha

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!