Senador afirmou que “nunca entrou em avião do Vorcaro”, mas registros de voo e informações societárias mostram que ele viajou em janeiro de 2025 em aeronave que tinha participação de empresa ligada ao banqueiro
A velha fórmula de negar os fatos quando eles se tornam inconvenientes voltou a aparecer no discurso da família Bolsonaro. Desta vez, o protagonista é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que afirmou categoricamente que “nunca entrou em avião do Vorcaro”. Registros de voo, documentos societários e uma investigação jornalística publicada pela revista piauí mostram, porém, que o senador viajou em janeiro de 2025 em uma aeronave que tinha entre seus proprietários uma empresa da qual Daniel Vorcaro era sócio.
Não se trata de uma divergência de opinião ou de uma disputa de versões nas redes sociais. Há uma declaração pública de Flávio Bolsonaro e, de outro lado, registros que documentam a viagem.
A aeronave era um Legacy 650, de prefixo PP-NLR, que saiu de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, com destino a Brasília em 19 de janeiro de 2025. Segundo a piauí, a rota registrada coincide com o voo identificado anteriormente pela Polícia Federal envolvendo Flávio Bolsonaro e o advogado e empresário Willer Tomaz.
“Nunca entrei em avião do Vorcaro”
Em julho, Flávio Bolsonaro reagiu a uma publicação de Michelle Bolsonaro e tentou afastar qualquer associação com as festas promovidas por Daniel Vorcaro.
Foi taxativo:
“Nunca entrei em avião do Vorcaro! Nunca estive em festinha de astronauta do Vorcaro.”
Agora, os registros apresentados pela piauí colocam a afirmação diante de uma realidade documentada: Flávio esteve a bordo do PP-NLR em janeiro de 2025.
A investigação jornalística cruzou registros históricos de tráfego aéreo, movimentações aeroportuárias e informações do Registro Aeronáutico Brasileiro. A data, a origem e o destino coincidem com o deslocamento de Flávio e Willer Tomaz identificado pela Polícia Federal.
É uma contradição que exige explicação.
A ligação com Vorcaro está na própria estrutura da aeronave
A tentativa de reduzir o episódio a uma simples “carona” também não responde à questão central.
Na data da viagem, a Prime You, empresa que tinha Daniel Vorcaro como sócio, já possuía um terço das cotas da aeronave. A aquisição dessa participação ocorreu no final de 2024, antes da viagem de Flávio.
Além de possuir uma das cotas, a Prime You também operava o jato por meio da Prime Aviation. Segundo informações da própria empresa, Vorcaro foi sócio da Prime You de 2021 até setembro de 2025.
A propriedade formal do avião estava concentrada na Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., dividida em três participações. Uma delas pertencia à Prime, empresa de Vorcaro; outra, a Willer Tomaz; e a terceira, ao empresário Laércio Cosentino, fundador da TOTVS.
Portanto, quando Flávio declarou que “nunca entrou em avião do Vorcaro”, a empresa do banqueiro já tinha participação na aeronave em que o senador viajou.
A viagem ocorreu em meio às negociações do filme de Bolsonaro
O episódio fica ainda mais relevante porque a viagem aconteceu em meio às negociações para o financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
De acordo com a piauí, o projeto previa um financiamento de US$ 24 milhões, com uma primeira parcela de US$ 2 milhões prevista para 20 de janeiro de 2025 — justamente no dia seguinte à chegada de Flávio a Brasília.
No dia 20, Flávio Bolsonaro escreveu ao intermediário das negociações, Thiago Miranda, pedindo que desse “um gás na resposta do jurídico do investidor”. Miranda, então, levou a cobrança a Vorcaro.
O primeiro aporte de US$ 2 milhões acabou sendo transferido em fevereiro, segundo a investigação da revista. A piauí também publicou uma investigação sobre a participação de Vorcaro no financiamento do filme.
Os fatos, portanto, não dizem respeito apenas a um voo. Eles fazem parte de um conjunto de relações entre política, empresários e grandes volumes de dinheiro que precisam ser esclarecidas diante da sociedade.
Para o trabalhador, transparência não é luxo
Enquanto trabalhadores brasileiros enfrentam jornadas exaustivas, salários que precisam ser disputados e um custo de vida que pesa diariamente no orçamento familiar, representantes políticos circulam em jatos executivos e mantêm relações com empresários que movimentam milhões de dólares.
É justamente por isso que a transparência na vida pública interessa diretamente à classe trabalhadora.
Quem ocupa mandato parlamentar tem obrigação de prestar contas à sociedade. Não basta negar. Não basta atacar adversários. Não basta transformar uma informação documentada em disputa de narrativa.
Quando documentos e registros contradizem uma declaração pública, a sociedade tem o direito de exigir explicações.
A democracia também se faz com responsabilidade, prestação de contas e respeito à verdade dos fatos.
A resposta de Flávio não explica a contradição
Depois da divulgação da reportagem, Flávio Bolsonaro respondeu nas redes sociais com ironia:
“Ainda bem que na época o avião era de Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes.”
A declaração, porém, não responde à pergunta fundamental: por que o senador afirmou que nunca entrou em avião de Vorcaro se os registros apontam que ele viajou em uma aeronave que tinha participação de uma empresa do banqueiro?
A piauí informa que Flávio e a defesa de Vorcaro não responderam aos pedidos de entrevista enviados pela reportagem.
O fato permanece documentado: Flávio Bolsonaro viajou no PP-NLR em janeiro de 2025; naquele momento, uma empresa que tinha Daniel Vorcaro entre seus sócios possuía participação na aeronave e também estava envolvida em sua operação.
A frase “nunca entrei em avião do Vorcaro”, portanto, não se sustenta diante dos registros apresentados pela investigação jornalística.
Mais uma vez, cabe a Flávio Bolsonaro explicar por que disse uma coisa quando os documentos apontam para outra.
Para a CTB, transparência não pode ser privilégio de ocasião. Quem exerce mandato público deve explicações à sociedade — e a classe trabalhadora tem todo o direito de cobrar.