A terceira fase da Operação Carbono Oculto atingiu nesta quinta-feira (24) Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, operador financeiro de Daniel Vorcaro que enviou US$12,3 milhões a um fundo nos Estados Unidos ligado ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal (PF) investiga a participação de Flávio Bolsonaro na obtenção dos recursos.
Também são alvos Humberto Arthur Tupinambá Neto, executivo do Banco Genial, e seus irmãos André e Bruno Tupinambá. O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, e a Receita Federal cumprem mandados de busca e apreensão em 29 endereços ligados a 13 pessoas e 24 empresas.
As buscas ocorrem em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina e Espírito Santo. A ação investiga o uso de fundos, fintechs e empresas de fachada na compra da Tobras Distribuidora de Combustíveis, conhecida como Terrana.
Mineiro firmou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) nas investigações sobre o Banco Master. Ele relata que convertia recursos em dinheiro vivo para Vorcaro e os entregava a terceiros, muitas vezes em malas.
O operador afirmou ter movimentado R$1,3 bilhão dessa forma. A Entre Investimentos, empresa de sua propriedade, era usada nas operações determinadas pelo banqueiro. Mineiro cobrava uma comissão pelo serviço.
Parte da atuação do empresário ocorreu fora do país. Em 2025, a Entre Investimentos fez sete remessas ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos. As transferências somaram US$12,3 milhões e, segundo o delator, foram realizadas a pedido de Vorcaro.
A PF informou ao Supremo Tribunal Federal que Mineiro era conhecido como “pioneiro nas Bahamas” pelas estruturas offshore que montou no país caribenho. O histórico foi incluído no pedido de investigação sobre as remessas ao Havengate e o destino final do dinheiro.
Flávio pediu dinheiro a Vorcaro
A apuração da PF aponta que Flávio Bolsonaro pediu diretamente a Vorcaro recursos para Dark Horse. Áudios revelados pelo Intercept Brasil, em reportagem de Paulo Motoryn e outros jornalistas, confirmam que o candidato da extrema direita cobrava pessoalmente o banqueiro pela liberação das parcelas destinadas ao filme.
O projeto previa um investimento de US$24 milhões (R$134 milhões) na produção da pseudo-cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Mensagens obtidas pelos investigadores mostram que Flávio pressionou o banqueiro pela liberação do dinheiro. Depois dos pedidos, a empresa de Mineiro transferiu US$12,3 milhões (R$69 milhões) ao Havengate, fundo administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.
A sequência das operações coloca Mineiro entre o pedido feito por Flávio e a chegada dos recursos ao fundo norte-americano: Flávio solicitou o dinheiro a Vorcaro; o banqueiro acionou seu operador; e a Entre Investimentos efetuou as remessas.
O destino integral dos valores ainda está sob investigação. Uma das suspeitas da PF é que parte do dinheiro tenha sido usada para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Mineiro declarou não saber como os recursos foram empregados depois que chegaram ao Havengate.
Flávio Bolsonaro afirma que o financiamento do filme foi privado e nega irregularidades. O candidato à Presidência, no entanto, é investigado no STF por suspeitas relacionadas à captação do dinheiro. Eduardo Bolsonaro e o deputado Mario Frias também aparecem na apuração.
Filme previa bilheteria de US$ 100 milhões
O plano de negócios de Dark Horse previa uma arrecadação de até R$559 milhões nas bilheterias. O valor seria mais de três vezes superior ao recorde de uma produção brasileira.
A projeção e a falta de detalhamento sobre os custos levaram a PF a apontar indícios de lavagem de dinheiro no projeto. A investigação também busca identificar os beneficiários finais das transferências e saber quanto foi efetivamente aplicado na produção.
O longa foi apresentado como uma superprodução internacional sobre a vida de Jair Bolsonaro. A captação do dinheiro avançou enquanto Flávio mantinha contato com Vorcaro para cobrar a liberação dos recursos.
Carbono Oculto investiga compra da Terrana
A ação desta quinta investiga a compra da Terrana e a possível ocultação dos verdadeiros controladores da distribuidora de combustíveis.
Segundo o Ministério Público, fundos de investimento, holdings, fintechs e empresas usadas como contas de passagem fizeram o dinheiro circular antes de chegar à empresa. A estrutura teria dificultado a identificação da origem dos recursos e de seus beneficiários.
Mais de R$100 milhões passaram por contas de diferentes companhias antes de chegar à Terrana. Entre as empresas analisadas estão Aster Petróleo, SM Serviços Empresariais, Duvale Distribuidora e Usina Itajobi.
Os investigadores também apuram cerca de R$370 milhões em direitos creditórios da Terrana. Os créditos foram adquiridos por uma instituição financeira por meio de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios controlado pelo mesmo grupo proprietário da empresa.
Entre 2021 e 2025, as estruturas comerciais e financeiras examinadas movimentaram R$11,6 bilhões. O Gaeco considera que o volume e a forma das operações apresentam indícios de ocultação patrimonial, dissimulação da origem de recursos e lavagem de dinheiro.
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, documentos bancários e mensagens extraídas de celulares apreendidos nas fases anteriores sustentam a investigação. Informações fornecidas pelo Banco Genial também integram o material analisado.
Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, são apontados como os chefes da organização investigada. Os dois não aparecem entre os alvos dos mandados cumpridos nesta quinta-feira.
A inclusão de Mineiro na nova fase expõe a circulação do mesmo operador por diferentes negócios investigados: o esquema financeiro atribuído a Vorcaro, as remessas ao fundo ligado aos Bolsonaro e a estrutura usada na compra da Terrana.