Faltam 10 dias para definirmos o futuro do Brasil

Faltam dez dias para o primeiro turno das eleições de 2026. Todas as pesquisas indicam duas coisas: a sociedade brasileira está profundamente fraturada, e que a escolha do presidente deve acontecer por uma margem dramaticamente ínfima de votos.

O mundo em transformação

O primeiro elemento da dinâmica internacional é a disputa entre Estados Unidos, que representa a decadência do Ocidente e a crise do imperialismo, e República Popular da China, com a ascensão do Sul Global.

Desta contradição central se desdobram um número cada vez maior de guerras, um acirramento de disputas por mercado e zona de influência, uma série de disputas tecnológicas, e a tentativa do Império de impedir seu declínio, usando da agressão econômica, desrespeito das leis internacionais e soberania dos povos, e, da força militar quando necessário.

Outro elemento da situação internacional é a crise climática, que continuará impactando pesadamente todos os países do mundo, mas especialmente as populações mais pobres e o Sul global. A dinâmica desta crise, cada vez mais difícil de reverter, exige da humanidade medidas de adaptação de curto, médio e longo prazo.

A tendência do cenário internacional é o crescimento de conflitos econômicos e bélicos, e a polarização política e ideológica. O mundo está mudando. Mudando rápido. E a cada dia as coisas não serão como eram ontem. O resultado destas mudanças, o ritmo delas, e quando de quantitativas se transformarão em qualitativas, depende do ritmo da luta de classes, que hoje se expressa em sua escala maior na luta entre Estados.

O Brasil diante de uma escolha

Nosso país encara esta situação diante de um abismo, e este abismo encara de volta. Estamos diante de duas possibilidades. Ou vivemos o aprofundamento do modelo primário-exportador e rentista, ou viveremos um ciclo de desenvolvimento nacional alicerçado em forças democrático-populares.

O Brasil se encontra diante de seu destino e o lugar que pretende ocupar no novo mundo, e isto passa pelo resultado da eleição presidencial que terá primeiro turno em menos de duas semanas. Um rumo será escolhido no voto do brasileiro.

Flávio Bolsonaro, que tem como principal feito de anos de legislativo tentar privatizar as praias, e acumula escândalos de corrupção e relações com milicianos, representa o modelo de Brasil primário-exportador, rentista e dependente. Um país submisso aos interesses dos Estados Unidos, exportador de produtos primários e sem espaço para o povo pobre no orçamento.

A candidatura de Flávio Bolsonaro é apoiada pelos Estados Unidos, por Israel e pela extrema-direita internacional. Estes vêm interferindo diariamente nas eleições brasileiras, seja pelas sanções econômicas ou pelas Big Techs que manipulam o debate público. Flávio conta ainda com apoio empresarial, a conveniência da mídia tradicional que normalizou seus crimes, o peso das igrejas evangélicas que transformam as eleições em um conflito religioso, além de uma base social militante e combativa.

A candidatura do Presidente Lula por sua vez, como já se sabe, é a alternativa dos que defendem a soberania nacional, a democracia, a construção de uma sociedade de bem estar, e a transformação do Brasil a partir de mudanças estruturais.

O Presidente Lula hoje concentra maioria dos votos dos setores mais explorados da classe trabalhadora, dos negros, das mulheres e do nordeste. Nos últimos dias apresentou resultado positivo e de crescimento no sudeste, em especial São Paulo e Minas Gerais.

Lula é um espírito de seu tempo. É um milagre criado pela luta de classes no Brasil. Reflexo e materialização da industrialização tardia, da modernização conservadora, do processo migratório brasileiro. Ele encarna e é expressão máxima dos dilemas dos anos 80. Da luta da classe operária do ABC paulista, da redemocratização, da batalha pela independência de classe e criação de um partido dos trabalhadores.

Porém, o mundo que gerou Lula não existe mais. O mundo que criou o PT desabou. A classe trabalhadora que existe hoje no meio da terceira década do século XXI é outra. O trabalhador plataformizado ocupa o lugar do operário industrial. A classe trabalhadora marginalizada do processo produtivo se torna informal e é maioria do conjunto de trabalhadores. A identidade de classe ruiu, retrocedeu, deu lugar ao pensamento neoliberal do enriquecimento e empreendedorismo. A teologia da prosperidade governa no reino dos homens. A estes dilemas o governo Lula, o PT e a esquerda brasileira ainda não souberam responder.

Os aspectos que alicerçam o lulismo tampouco se mantêm firmes. Se o lulismo se baseou em uma classe trabalhadora organizada de centros urbanos, uma base eleitoral no nordeste, setores pobres e marginalizados e o apoio da classe média progressista, hoje parte destes pilares veio a baixo. A classe média deu um giro rumo à extrema direita, e a classe trabalhadora passou por mudanças morfológicas. A base eleitoral no nordeste e o peso entre os mais pauperizados e marginalizados são o centro do que sustenta o lulismo nos dias atuais, cabe ver se serão suficientes para ganhar a eleição ou se o governo Lula conseguirá avançar no terreno perdido, em especial na classe média das grandes cidades.

Nada a se desesperar, muito a fazer: sobre as pesquisas

As pesquisas mostram que cada vez mais uma pequena margem de votos decidirá as eleições presidenciais. Existem pesquisas para tudo que é gosto e estilo, porém nem as pessimistas, nem as mais otimistas, devem servir para mobilizar ou desanimar a militância.

O fato é que o eleitorado brasileiro se apresenta dividido em três blocos. O primeiro e menor deles são os dos indecisos. Os outros dois predominam no cenário político eleitoral desde 2018: os bolsonaristas e antipetistas, contra os lulistas. Esses dois blocos aparecem revezando o primeiro e segundo lugar a depender da pesquisa, mas sempre por uma pequena margem de erro.

As pesquisas indicam também a predominância do bolsonarismo entre os que professando a fé evangélica, em uma demonstração da instrumentalização da religião para fins políticos, e uma preferência de mulheres, negros e população pobre por Lula. O voto dos indecisos será o marco definidor desta eleição, um eleitorado que tem gênero, CEP e renda: mulheres que moram nas periferias da grande cidade. A vitória de Lula virá do convencimento deste setor a ir à urna, e deslocar votos da classe média urbana.

Nas últimas semanas algumas pesquisas apresentaram resultado no qual Flávio Bolsonaro venceria no segundo turno por uma margem pequena de 2%. Um desfecho possível. Porém, esta hipótese levou a um aparente curto circuito em parte da esquerda brasileira.

Alguns, entusiastas do caos, aproveitam o resultado destas pesquisas para afirmar que tinham razão. Que a candidatura de Lula tem errado, que seu governo não mobilizou as massas, que a extrema direita é a corrente mais dinâmica do país, etc.

Tudo isto é verdade, a campanha tem errado, o governo foi aquém do necessário, mas estes parecem que torcem pela derrota eleitoral de Lula para afirmar: “estão vendo, eu avisei”. A cada ponto percentual que Flávio Bolsonaro sobe nas pesquisas tocam as trombetas do Apocalipse. Esta visão catastrófica da realidade não nos serve, ela apenas desmobiliza e desorganiza a militância. Não se faz campanha com o medo sendo o elemento principal.

A extrema direita é a força mais dinâmica dos últimos anos

A extrema direita é a corrente política mais dinâmica no Brasil na última década. Uma obviedade, mas que precisa ser dita.

Liderados pelo bolsonarismo, mas com vida para além dele, conseguiu exercer capilaridade eleitoral para atrair setores da direita e do centro, se nacionalizou, mostrou iniciativa, pautou debates e entrou na vida pública e política nacional como um fator normal e construiu uma rede de relações internacionais. Vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, governadores, em todo o país utilizam de métodos e discursos de extrema direita que passaram a fazer parte do dia a dia do brasileiro e tem maioria entre a população jovem.

Sua campanha eleitoral, com Flávio Bolsonaro à frente, é organizada em torno de uma ideia muito simples: derrotar Lula e o PT. Flávio Bolsonaro não apresenta projeto, mas apresenta a ideia de que as coisas estão caras, a segurança pública está um caos, a corrupção toma conta de Brasília e para mudar tudo isso é preciso tirar Lula, o PT e a esquerda do governo.

Estas ideias não precisam fazer contato com o mundo real. Não importa se o número de assassinatos caiu no governo Lula comparado ao governo Bolsonaro, ou se a inflação dos alimentos também foi reduzida. Flávio Bolsonaro usará das redes sociais, das mentiras, do antipetismo enraizado na sociedade e alimentado pela mídia tradicional, para realizar uma disputa ideológica contra Lula e o PT.

A extrema-direita conta ainda em um provável segundo turno com apoio das demais candidaturas de direita, que se somarão a Flávio Bolsonaro, assim como pode se favorecer de desmobilização das candidaturas proporcionais, de senado e governo que apoiaram Lula no primeiro turno, e com um presença menor na urna do eleitorado em estados lulistas que correm o risco de não haver segundo turno para o governo.

Vale apontar que a imprensa liberal, a Rede Globo e Folha de São Paulo, além de outras empresas de comunicação, estão aliadas contra o Presidente Lula. Diariamente a meses criam notícias contra o governo. Falaram incessantemente a mentira de que o país estava quebrado e agora tentam a todo custo colocar escândalos de corrupção mesmo sem provas. A pauta da corrupção historicamente em nosso país favorece a extrema-direita, mesmo neste caso estando em um paradoxo, onde é justamente Flávio Bolsonaro que dia sim outro também é investigado pela Polícia Federal. A imprensa liberal busca ser porta voz do capital financeiro em sua luta para fazer que caso eleito Lula se comprometa com a desvinculação da aposentadoria e do bpc do salário mínimo, e com um ajuste fiscal que alcance entre 2% e 3% de superávit fiscal.

A cada dia fica mais escancarada a participação do governo estadunidense nas eleições, agora com um possível financiamento para favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro. Com o acirramento da disputa esta interferência ficará cada vez mais forte, com a possibilidade de em um provável segundo turno ou durante a reta final do primeiro, a criação de um novo fato político ligado ao chamado combate ao narcoterrorismo, como uma ação do grupo Escudo das Américas na floresta amazônica ou uma “pauta bomba”, buscando atingir o governo Lula. Com a derrota de Flávio na urna, corre ainda a hipótese da extrema direita brasileira buscar junto de Trump a desmoralização do processo eleitoral brasileiro. Todo cuidado é pouco.

É preciso mudar e recalcular a política

Enquanto o cenário político é marcado pela dinâmica da extrema direita, no cotidiano da população as marcas são de frustração com a política e governos e insatisfação com as condições de vida. Algo que joga contra o governo Lula.

Embora os dados macroeconômicos no governo Lula sejam positivos, as pessoas sentem que a economia vai mal, fruto de um fator objetivo a dificuldade de pagar as contas do final do mês. O Brasil se tornou um país com a maior parcela da população endividada, e isto contribuiu para a avaliação da economia ser majoritariamente negativa.

Existe até aqui um descompasso entre a linha política da campanha de Lula e a realidade da maioria do povo. Não nos somamos às críticas que alguns fazem ao fato da campanha ter usado um tom nostálgico, buscando mostrar o legado e a trajetória do Presidente. Acredito que a defesa do legado do governo foi útil para mobilização inicial da campanha e segue sendo, pois fala para base, mobilizando a mesma em torno da imagem e da vida de Lula.

O problema central, em minha humilde opinião, é que enquanto a população sente uma deterioração das suas condições de vida, o governo tenta convencê-la do contrário: afirmando que a tudo anda bem, que os números são positivos e que políticas públicas farão a diferença. Mas como afirmava Conceição Tavares, ninguém come PIB.

Enquanto o eleitorado se encontra decepcionado economicamente, frustrado com a vida e desanimado com o rumo do país, a campanha vai no caminho inverso, aplicando um discurso concentrado nas “entregas” do governo, um tom que destoa do espírito geral na sociedade.

O fato é que o governo Lula 3 foi fundamental na reconstrução nacional. Um governo de Frente Ampla, onde coexistiam desenvolvimentistas e neoliberais, enfrentou uma tentativa de Golpe de Estado, uma permanente desestabilização e boicote da oposição no parlamento, lidou com inimigos externos que tentavam interferir no país, encarou o sistema financeiro com juros exorbitantes, e ainda assim elaborou políticas públicas e reestruturou o Estado.

Porém, a verdade é que o governo não conseguiu nenhuma política pública estrutural ou de grande caráter reformista, que geraria impacto imediato, como foi nos primeiros mandatos de Lula com Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, etc. As maiores iniciativas foram o Pé de Meia, a isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 mil, importantes mas aquém.

A tática da campanha de Lula de mobilizar no imaginário do eleitor os avanços feitos nos anos 2000 parece insuficiente, afinal, passado duas décadas, parte do eleitorado mudou, uma parte cresceu com o PT e Lula como governo, ou seja, não conhecem o Brasil antes de Lula e enxergam as políticas públicas criadas como um fato dado. É esta geração que chega e vive a fase adulta sendo a primeira da história com menos perspectiva que seus pais.

A dinâmica da disputa eleitoral exige uma mudança rápida, algo que foi feito na última semana, com o governo buscando pautar o país após o escândalo do STF. O aumento do salário mínimo, redução dos combustíveis, canetas emagrecedoras no SUS, e a pauta das BETs são demonstração disto, e se espera que novas medidas sejam tomadas no imediato retorno de Lula da Assembleia da ONU.

Aqui vale uma breve e pessoal observação. As BETs são um problema social e de saúde em nosso país. Custam milhões aos cofres públicos e destroem famílias. Apesar disto, não me parece ser o fator necessário para uma campanha à presidência que enfrenta os inimigos que enfrentamos. Enquanto eles buscam mobilizar com o tema da segurança pública, corrupção e prometendo ajustar as contas do país, falar de BETs me parece jogar para a torcida, um público já convertido. Uma pauta, apesar de sua importância, incapaz de ampliar e trazer os indecisos e insuficiente para uma campanha presidencial.

O fato é que o governo deve assumir novos compromissos com o país, se converter em agente político, reconhecer os problemas econômicos como os juros, e apresentar bandeiras para motivar a militância e disputar o voto dos indecisos. É preciso fazer a disputa política e ideológica, em outras palavras: politizar e polarizar.

Acredito que o argumento capaz de convencer os indecisos diz respeito ao futuro. Não se trata de falar prioritariamente sobre o que foi feito nos anos 2000. Não se trata de falar sobre as pontes e estradas que foram entregues. Trata-se de, a partir deste lugar de quem fez e faz, disputar os sonhos coletivos da população em torno do Brasil em que queremos viver nos próximos anos e décadas.

É preciso insistir na comparação com o que foi o governo Bolsonaro e o que foi o governo Lula, assim como a exposição da inexperiência e incapacidade de Flávio Bolsonaro, sua relação com a milícia carioca e seus escândalos de corrupção, apostando na rejeição do público feminino que será o que irá definir a eleição.

Pautas com apelo popular também precisam ser mobilizadas por Lula. Propostas que envolvem o bolso da população, que perpassam pela diminuição do custo de vida, que toque no salário, alimento, combustíveis, precisam ser feitos como compromissos para o quarto mandato. A campanha de Lula deve buscar o que mobiliza a militância mas principalmente ideias que tem audiência de massas e podem atingir os indecisos.

A eleição será definida por uma margem de votos estreita. Podendo inclusive terminar no primeiro turno, hipótese menos provável, mas ainda sim possível.

O governo tem a caneta e máquina na mão, uma militância e estrutura presente em todo o território nacional, um passado para reivindicar, e precisa encontrar um futuro para sonhar e afirmar que dias melhores virão.

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