Do Nepal ao Brasil: como uma revolta de jovens no Nepal e uma disputa entre Estados Unidos e China podem ser tornar o veículo de um novo golpe brasileiro
por Luciana Bauer
Em setembro de 2025, o Nepal entrou em uma espiral de violência que, em poucos dias, derrubou um governo, matou dezenas de pessoas e transformou uma disputa aparentemente administrativa sobre redes sociais em uma crise política de grandes proporções. O episódio começou com uma decisão do governo de bloquear 26 plataformas digitais que não haviam cumprido exigências de registro, mas rapidamente deixou de ser uma controvérsia sobre regulação da internet. Jovens foram às ruas, a polícia abriu fogo, a indignação contra a censura digital se misturou a acusações de corrupção, nepotismo, desemprego e desigualdade, e a crise culminou na renúncia do primeiro-ministro K. P. Sharma Oli. Em 8 de setembro, segundo levantamento divulgado pelo Institute of South Asian Studies, 19 pessoas haviam sido mortas por disparos policiais e centenas estavam feridas; nos dias seguintes, o número de mortos continuaria a subir à medida que a dimensão da violência fosse sendo apurada.
O que torna o episódio particularmente relevante para além das fronteiras nepalesas não é apenas a queda de um governo. É a velocidade com que uma crise doméstica se transformou em um repertório político transnacional. Poucos dias depois das primeiras mortes, imagens, vídeos e comparações com o Nepal começaram a circular em grupos públicos de WhatsApp no Brasil. Segundo levantamento da plataforma de monitoramento Palver, publicado pela BBC News Brasil, as referências ao Nepal nesses grupos passaram de sete menções a cada 100 mil mensagens em 8 de setembro para 314 no dia seguinte e 344 em 10 de setembro. A comparação começou a aparecer precisamente quando o Supremo Tribunal Federal julgava os réus da trama golpista brasileira e quando o ministro Luiz Fux apresentava seu voto (um voto que faz qualquer democrata embrulhar o estomago). Mas o que se deve sublinhar é que a palavra “Nepal” deixou de funcionar apenas como referência geográfica e passou a ser utilizada por segmentos políticos brasileiros como metáfora para uma possível mobilização de rua contra instituições brasileiras. E quem sabe para um novo golpe bolsonarista.
Esse deslocamento semântico é o ponto de partida para uma questão maior: como um acontecimento político localizado em um pequeno país do Himalaia se transforma, em questão de horas, em uma imagem mobilizadora em outro continente? E, sobretudo, o que essa circulação revela sobre o novo ambiente de conflito político, no qual acontecimentos reais, interpretações estratégicas, operações de influência, desinformação, mobilização espontânea e apropriação partidária podem coexistir na mesma corrente informacional sem que seja possível atribuir toda a cadeia a um único ator?
A resposta exige cautela porque existem três fenômenos diferentes que frequentemente são confundidos. O primeiro é a crise interna do Nepal, que possui causas domésticas documentadas. O segundo é a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China pelo espaço político, econômico e infraestrutural do país, também amplamente documentada. O terceiro é a circulação internacional de narrativas sobre a revolta nepalesa, fenômeno que inclui apropriações políticas brasileiras e, posteriormente, referências à chamada “nepalização” do Brasil. Há evidências suficientes para afirmar que os três fenômenos existem e se cruzam.
O Nepal
O Nepal é um país que conheço bem, estive a última vez por mais de um mês entre setembro e outubro de 2011. No aeroporto você desembarca e se confronta com rifles e soldados. O país vivia então uma das árias instabilidades políticas desde a independência.
O Nepal que encontrei em 2011 era um país ainda profundamente marcado pela guerra civil maoísta (1996–2006), pela abolição da monarquia em 2008 e pela dificuldade de transformar o acordo de paz em instituições estáveis. Em setembro–outubro de 2011, o país vivia justamente uma prolongada transição republicana, com governos sucessivos e uma Assembleia Constituinte incapaz de concluir a nova Constituição. Primeiro ministro Jhala Nath Khanal havia deixado o cargo em agosto daquele ano e Baburam Bhattarai assumira o governo, mas a Assembleia acabou dissolvida em 2012 sem produzir o texto constitucional, exigindo novas eleições em 2013.
Depois de novas eleições e de anos de negociações, o Nepal finalmente promulgou sua Constituição federal republicana em setembro de 2015, poucos meses depois do devastador terremoto de abril daquele ano. A nova ordem, entretanto, não eliminou a instabilidade, e a política passou a ser marcada pela sucessão de coalizões e primeiros-ministros, com os mesmos grandes partidos e lideranças alternando-se no poder. Entre 2015 e 2025, o país continuou a enfrentar dificuldades econômicas, disputas sobre federalismo, corrupção, nepotismo e baixa confiança nas instituições, enquanto sua posição entre Índia e China o colocava no centro de importantes disputas geopolíticas.
Em 2025, uma nova geração voltou às ruas: o bloqueio de 26 plataformas digitais desencadeou protestos que rapidamente incorporaram demandas muito mais profundas contra corrupção, desigualdade, nepotismo e a classe política; a repressão policial matou dezenas de manifestantes, a crise derrubou o governo de K. P. Sharma Oli e levou à formação de um governo interino.
Para compreender a crise de setembro de 2025, é necessário abandonar a ideia de que tudo começou quando o governo bloqueou as redes sociais. A proibição foi o gatilho imediato, mas não explica, sozinha, a intensidade da reação. Um estudo publicado pelo Institute of South Asian Studies da National University of Singapore poucos dias depois da crise descreveu uma sociedade já submetida a fortes tensões políticas e econômicas, na qual a insatisfação acumulada com corrupção, instabilidade, nepotismo, falta de oportunidades e ausência de confiança nas instituições encontrou nas redes sociais um canal particularmente eficiente de mobilização. O bloqueio de plataformas digitais foi percebido por uma parcela significativa dos jovens como uma tentativa de silenciamento, justamente porque essas plataformas estavam integradas à vida econômica, social e profissional de grande parte da população.
A dimensão geracional foi importante, mas não deve ser romantizada. A mobilização foi associada à chamada Gen Z, porém as causas ultrapassavam a juventude. O estudo de Puspa Sharma mostra que hashtags como #nepokids e #nepobabies já vinham sendo utilizadas antes dos protestos para criticar filhos de políticos e pessoas associadas às elites por ostentarem viagens, bens de luxo e estilos de vida considerados incompatíveis com as condições econômicas da população. A revolta, portanto, não nasceu simplesmente de uma defesa abstrata da liberdade digital: ela estava associada a uma percepção de desigualdade política, econômica e social que encontrava nas redes um vocabulário cotidiano de indignação.
A pesquisa publicada posteriormente por Bishnu Pariyar, da University of Leicester, oferece uma interpretação ainda mais sofisticada. Em artigo publicado no Third World Quarterly em abril de 2026, após entrevistas com 35 participantes — entre ativistas jovens, jornalistas, advogados e funcionários públicos —, Pariyar descreve a crise como uma sucessão de falhas que se reforçaram mutuamente. O bloqueio das plataformas teria funcionado como gatilho; as frustrações geracionais forneceram o combustível social; o uso de força policial acelerou a radicalização; a comunicação governamental inconsistente aprofundou a perda de legitimidade; e a fragilidade institucional transformou a escalada em ruptura política. A importância dessa interpretação está justamente em rejeitar uma explicação linear: a crise não teria sido produzida por um único evento, mas pela combinação de diferentes falhas institucionais que se potencializaram.
A diferença é fundamental. Em uma leitura conspiratória, o bloqueio das redes seria apenas a primeira etapa de uma operação externa. Na literatura acadêmica disponível, porém, o quadro é mais complexo: o governo tomou uma decisão administrativa controversa em uma sociedade já marcada por baixa confiança institucional, desigualdade, ressentimento geracional e forte dependência das plataformas digitais. A repressão policial transformou uma disputa regulatória em uma crise de legitimidade. O que aconteceu depois não pode ser explicado adequadamente sem considerar essa estrutura doméstica.
O país no centro da disputa Estados Unidos versus China
O país ocupa uma posição estratégica entre Índia e China e tornou-se, ao longo da última década, um espaço de competição entre grandes projetos de infraestrutura e conectividade. De um lado está a Belt and Road Initiative – BRI, promovida por Pequim. De outro, o Millennium Challenge Corporation – MCC, programa financiado pelos Estados Unidos e aprovado para projetos de infraestrutura no Nepal. A disputa não se limita a obras de energia ou estradas. Infraestrutura, financiamento, conectividade e diplomacia passaram a carregar implicações de soberania e alinhamento estratégico.
Em fevereiro de 2025, meses antes dos protestos, Amit Ranjan, do Institute of South Asian Studies da National University of Singapore, publicou um estudo especificamente dedicado ao confronto entre MCC e BRI no Nepal. O autor observava que a decisão da administração Trump de reduzir ou congelar determinadas formas de assistência americana poderia alterar a relação entre Washington e Kathmandu, enquanto Nepal e China avançavam na implementação do quadro de cooperação associado à Belt and Road Initiative. Ranjan argumentava que uma mudança no equilíbrio das relações do Nepal com Estados Unidos e China poderia produzir consequências geopolíticas para o Sul da Ásia.
O dado é importante porque demonstra que a competição estratégica não foi inventada depois da revolta para explicar os acontecimentos. Ela já estava presente meses antes. Havia, em 2025, uma disputa concreta sobre financiamento, infraestrutura, influência e orientação internacional do Nepal.
Em outubro de 2025, um estudo de Monalisa Adhikari e Anurag Acharya publicado na Asian Studies Review aprofundou essa questão. O trabalho analisa justamente a competição entre o BRI chinês e o MCC estado-unidense e mostra como projetos de infraestrutura podem produzir efeitos políticos internos. Segundo os autores, a competição entre os dois programas alimentou controvérsias sobre nacionalismo e soberania e acentuou a polarização doméstica, ao mesmo tempo em que permitiu que atores políticos nepaleses instrumentalizassem a disputa internacional para fortalecer suas próprias posições.
Há, portanto, uma conclusão importante: Estados Unidos e China estavam efetivamente envolvidos em uma competição estratégica pelo espaço político e econômico do Nepal. Isso é documentado. Também é documentado que essa competição penetrou na política doméstica nepalesa e de certa forma a polarizou. Ou foi estrategicamente polarizada por propaganda interna e externa?
Neste ponto chegamos a dimensão mais sensível nessa história: a infraestrutura informacional do Nepal já apresentava sinais de manipulação antes da crise.
O livro Nepal’s Misinformation Landscape, publicado em 2025 pelo Center for Media Research – Nepal, reúne estudos sobre desinformação, manipulação informacional, alfabetização midiática e fact-checking no país. Um dos capítulos centrais, de Rishikesh Dahal e Ujjwal Acharya, baseia-se em 29 entrevistas com informantes-chave distribuídos por sete províncias e em duas discussões realizadas em Kathmandu. A pesquisa identifica partidos políticos que mantêm estruturas organizadas para atuação digital e aponta a participação de governos estrangeiros, particularmente China e Índia, na disseminação estratégica de narrativas não orgânicas e tendenciosas dentro do ecossistema informacional nepalês.
O que a pesquisa demonstra é algo mais amplo e talvez mais preocupante: o espaço informacional nepalês já era vulnerável à interferência política e geopolítica. Havia atores domésticos organizados, governos estrangeiros interessados no ambiente narrativo e momentos — eleições, crises, desastres e emergências — nos quais a manipulação de informação se tornava particularmente intensa.
A pesquisa de Dahal e Acharya mostra que o Nepal já apresentava vulnerabilidades importantes no ecossistema informacional antes da crise de setembro de 2025. O trabalho de Adhikari e Acharya mostra que a competição entre BRI e MCC já estava produzindo efeitos políticos internos. O estudo de Ranjan, publicado antes da crise, documenta a relevância estratégica da relação entre Washington, Pequim e Kathmandu. O estudo de Pariyar, publicado posteriormente, mostra como o bloqueio das plataformas, as frustrações sociais, a repressão e a fragilidade institucional se combinaram em uma cascata de ruptura. Nenhum desses trabalhos, tomado isoladamente, sustenta a tese de uma operação americana destinada a provocar uma revolução. Mas, tomados em conjunto, eles mostram por que seria igualmente ingênuo considerar o episódio exclusivamente doméstico.
Até que uma investigação publicada pelo The Grayzone em dezembro de 2025 acrescentou à história do Nepal um elemento documental que não pode ser simplesmente descartado na reconstrução dos acontecimentos: a existência, antes da revolta de setembro daquele ano, de programas financiados pelo governo dos Estados Unidos e executados pelo International Republican Institute (IRI), estrutura vinculada ao National Endowment for Democracy (NED), destinados explicitamente à formação de jovens lideranças políticas e ativistas nepaleses.
Segundo os documentos vazados examinados pelo veículo, o programa Yuva Netritwa: Paradarshi Niti recebeu inicialmente US$ 350 mil entre julho de 2021 e junho de 2022 e pretendia alcançar entre 60 e 70 jovens, formando redes capazes de atuar em campanhas de advocacy, comunicação política, mobilização de recursos, organização de manifestações e utilização de ferramentas digitais. Os documentos citados pelo The Grayzone são particularmente relevantes porque não descrevem simplesmente programas genéricos de educação cívica: apresentam como objetivo criar redes de jovens capazes de exercer pressão sobre tomadores de decisão, participar de campanhas e protestos e ampliar sua influência sobre a formulação de políticas. O IRI também teria desenvolvido oficinas nas quais os participantes eram treinados em “strategic messaging”, “resource mobilization”, “advocacy campaign”, “protest management” e utilização de ferramentas digitais para campanhas políticas. A documentação reproduzida pela reportagem afirma ainda que os jovens deveriam ser estimulados a alcançar posições superiores dentro de seus partidos e que as redes formadas poderiam permanecer politicamente ativas para além da duração dos projetos.
Mais importante, os documentos vinculam explicitamente a formação dessas novas lideranças aos interesses estratégicos americanos no Nepal, país cuja posição geográfica entre China e Índia era descrita pelo próprio IRI como particularmente importante para os objetivos americanos no Indo-Pacífico. Esse conjunto documental modifica a maneira pela qual a crise de 2025 pode ser interpretada: não é mais possível descrevê-la simplesmente como uma explosão política surgida em um ambiente sem antecedentes organizacionais internacionais. Havia, pelo menos desde 2021, uma infraestrutura financiada pelos Estados Unidos dedicada à formação de jovens ativistas, à criação de redes políticas e ao desenvolvimento de competências de mobilização. Isso não significa, por si só, que os Estados Unidos tenham ordenado os protestos de setembro de 2025, nem que todos os jovens que participaram da revolta tenham sido treinados ou orientados por organizações americanas; significa, porém, que existia uma política institucional documentada de investimento na formação de uma nova geração de atores políticos nepaleses, inclusive em técnicas diretamente relacionadas à mobilização pública. A diferença entre essas duas afirmações é essencial, mas a primeira — a existência dessa infraestrutura — constitui um dado histórico documentado pelos arquivos apresentados na investigação do The Grayzone.
A segunda investigação publicada pelo The Grayzone, em setembro de 2026, amplia significativamente esse quadro porque desloca a análise da formação de ativistas para a formação de lideranças que posteriormente alcançaram posições centrais no Estado nepalês. De acordo com novos documentos vazados examinados por Kit Klarenberg e Wyatt Reed, programas associados ao Consortium for Elections and Political Process Strengthening (CEPPS), financiado pelo governo americano e integrado por organizações como o International Republican Institute, o International Foundation for Electoral Systems e o National Democratic Institute, desenvolveram desde 2017 programas de “Policy Dialogue” no Nepal, com um financiamento indicado nos documentos como de US$ 20 milhões para a estrutura internacional envolvida. Entre os chamados “catalytic civic leaders” que o CEPPS identificava como pessoas a serem apoiadas aparecem, segundo os documentos reproduzidos pelo The Grayzone, nomes que posteriormente se tornariam figuras centrais da nova configuração política nepalesa: Rabi Lamichhane, Balen Shah, Sagar Dhakal e Sudan Gurung. O dado ganha relevância retrospectiva porque Balen Shah, então prefeito de Kathmandu e posteriormente líder nacional, Rabi Lamichhane, fundador do Rastriya Swatantra Party, e Sudan Gurung, fundador da organização Hami Nepal, passaram a ocupar posições importantes justamente depois da crise que derrubou o governo de K. P. Sharma Oli.
A reportagem afirma que Hami Nepal teve papel central na organização dos protestos de setembro de 2025 e que, após a queda de Oli, pessoas ligadas à organização participaram da seleção de integrantes do governo interino. O elemento historicamente mais significativo, portanto, não é uma suposta prova isolada de que Washington tenha “fabricado” a revolta, mas a possibilidade de reconstruir uma cadeia temporal documentada: primeiro, programas americanos destinados a identificar e formar jovens lideranças; depois, a criação de redes de ativistas e organizações políticas; posteriormente, a ascensão de alguns dos nomes identificados nesses programas; e, finalmente, a presença dessas mesmas figuras no núcleo da nova ordem política produzida após a queda de Oli. A própria reportagem interpreta essa sequência como evidência de uma estratégia americana de transformação política e de preparação de uma nova elite dirigente favorável aos interesses de Washington, interpretação que deve ser registrada como conclusão jornalística do The Grayzone; mas os documentos citados pela reportagem permitem tratar como dado histórico a existência dos programas, seus objetivos declarados, seus financiamentos e a identificação prévia de determinadas lideranças.
A questão que permanece aberta, e que torna o caso Nepal particularmente importante para o estudo da guerra híbrida, é o ponto exato em que termina a formação política e começa a intervenção política: se esses programas apenas desenvolveram capacidades cívicas e democráticas, como sustentariam seus defensores, ou se constituíram uma infraestrutura de longo prazo para produzir atores capazes de promover mudanças de regime favoráveis aos interesses estratégicos americanos? A coincidência temporal entre os programas, as pessoas identificadas e a reorganização do poder após setembro de 2025 tornam essa questão historicamente relevante para afirmar que há sim um componente externo que insufla primaveras e insurreições.
Nepalizar o Brasil
É nesse ponto que a história nepalesa começa a interessar diretamente ao Brasil. Aqui a circulação internacional da imagem da revolta não ocorreu apenas por meio da imprensa tradicional. Vídeos de jovens enfrentando a polícia, edifícios ocupados, bandeiras, multidões e imagens de violência começaram a circular em diferentes países como símbolos disponíveis para outras disputas políticas. O acontecimento real passou a funcionar como um repertório visual em varias plataformas como youtube e instagram, tiktok etc.
No Brasil, a transformação foi rápida. O levantamento da Palver publicado pela BBC News Brasil mostra que a palavra Nepal praticamente explodiu em grupos públicos de WhatsApp justamente nos dias em que a crise nepalesa alcançava seu ponto máximo e o STF julgava Jair Bolsonaro e outros réus. A plataforma identificou 7 menções por 100 mil mensagens em 8 de setembro, 314 em 9 de setembro e 344 em 10 de setembro. Para comparação, a reportagem informou que “Bolsonaro” costumava aparecer em torno de 300 vezes e “Lula” entre 600 e 700 vezes a cada 100 mil mensagens.
Mais significativo que a frequência, porém, era o conteúdo. Segundo Luis Fakhouri, cofundador da Palver, as mensagens observadas em grupos de direita procuravam estabelecer equivalências entre as duas sociedades: Nepal e Brasil eram apresentados como países supostamente submetidos a regimes autoritários; o bloqueio de redes sociais era comparado a mecanismos brasileiros de censura; a queda do governo nepalês era convertida em exemplo de que mobilização de rua e confronto poderiam derrubar instituições.
Essa é uma operação narrativa diferente de simplesmente divulgar notícias internacionais. O acontecimento externo deixa de ser notícia e passa a funcionar como argumento político doméstico. É nesta transformação que reside uma das características centrais da guerra informacional contemporânea: não é necessário falsificar completamente um acontecimento. Pode ser suficiente selecionar determinados elementos reais, retirar outros do contexto, estabelecer uma equivalência artificial e transportar a imagem para um conflito político diferente. A narrativa Nepal servia ao Brasil que estava punindo os golpistas de 2023 para deslegitimar o golpe e não punir o atentado contra a democracia.
O fenômeno merece ser compreendido como “transnacionalização do repertório de protesto”. Movimentos políticos contemporâneos não precisam copiar organizações estrangeiras para copiar seus símbolos. Imagens de Hong Kong, Sri Lanka, Geórgia, Ucrânia, França, Estados Unidos e Nepal circulam globalmente e podem ser retiradas do contexto original para representar outras disputas.
O Nepal tornou-se particularmente poderoso porque oferecia uma narrativa visual simples: jovens enfrentam o Estado, como em 1968. Ou quase. Esse tipo de narrativa possui enorme capacidade de circulação porque elimina a complexidade institucional. Não é necessário explicar a Constituição nepalesa, a história do sistema partidário, a relação entre Kathmandu, Pequim, Nova Delhi e Washington, ou as causas estruturais do desemprego juvenil. Bastam algumas imagens e uma frase: “eles fizeram e derrubaram o governo”.
E é nesse ponto que a expressão “nepalização” ganha importância. Um ano depois, a expressão já não aparecia apenas em grupos políticos. Em 21 de setembro de 2026, a jornalista Daniela Lima informou no UOL que havia tido acesso a um relatório de inteligência da Agência Brasileira de Inteligência elaborado em 18 de setembro. Segundo a reportagem, o documento registrava crescimento expressivo de grupos que discutiam ações classificadas como “extremistas e violentas” contra o STF, especialmente em WhatsApp e Telegram, após a sessão da Corte de 15 de setembro. A reportagem afirma que o documento classificava como alto o nível de alerta para ameaças à segurança do processo eleitoral no período de 15 a 24 de setembro e que São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília apareciam entre os locais de maior atenção.
O dado mais relevante para esta investigação é a referência à “nepalização” do Brasil. Segundo a reportagem, grupos extremistas teriam se articulado em torno da narrativa que utilizava os protestos violentos do Nepal de 2025 como referência para mobilização brasileira. O documento, conforme relatado pelo UOL, mencionaria discussões sobre estratégias de mobilização, ações violentas contra instituições e potenciais alvos.
A história do Nepal oferece uma advertência mais sofisticada do que a tese de que uma potência estrangeira simplesmente “derrubou” um governo. Ela demonstra como uma sociedade pode tornar-se vulnerável a uma cascata de legitimidade quando diferentes crises convergem: crise de confiança, crise econômica, crise geracional, crise de comunicação, crise de governança digital e crise geopolítica.
Demonstra também que uma infraestrutura digital pode converter acontecimentos locais em objetos políticos globais em questão de horas. E demonstra algo ainda mais importante para o Brasil: uma narrativa política não precisa ser verdadeira em todos os seus componentes para produzir efeitos reais. Essa distinção é central para compreender a desinformação contemporânea. O problema não está necessariamente em uma mentira completa. Muitas vezes, está na montagem de uma verdade parcial dentro de uma narrativa enganosa.
O Nepal pode ser lido, portanto, como um laboratório involuntário de uma nova forma de conflito político. A primeira camada é material: infraestrutura, energia, conectividade e financiamento. A segunda é geopolítica: Estados Unidos, China e Índia competindo por influência. A terceira é doméstica: partidos, elites, juventude e instituições tentando controlar a direção política do país. A quarta é digital: plataformas que simultaneamente permitem mobilização, disseminação de informação, propaganda e manipulação. A quinta é narrativa: acontecimentos estrangeiros convertidos em símbolos para conflitos domésticos.
A reportagem da BBC publicada em 10 de setembro de 2026 registrou que o ministro Flávio Dino havia encaminhado representação à Polícia Federal solicitando investigação de mensagens que, segundo ele, incentivavam ataques contra ministros do STF e seus familiares e mencionavam a destruição da sede da Corte. Dino afirmou que a repetição das referências ao Nepal poderia indicar uma ação concertada de incitação, embora a existência de coordenação operacional não estivesse demonstrada naquele momento.
O episódio ganhou uma dimensão ainda mais delicada porque parlamentares brasileiros também fizeram referências públicas aos protestos nepaleses. A reportagem registrou manifestações de Nikolas Ferreira e Gustavo Gayer sobre os acontecimentos no Nepal; o PT, por sua vez, apresentou representação à Procuradoria-Geral da República argumentando que determinadas postagens buscavam estabelecer um paralelo entre as mobilizações nepalesas e a conjuntura brasileira.
Aqui novamente é necessário separar três níveis de informação. Primeiro, houve referências públicas ao Nepal feitas por atores políticos brasileiros. Segundo, houve circulação muito maior do tema em determinados grupos digitais, segundo a Palver. Terceiro, houve alegações de que essa circulação poderia constituir uma tentativa coordenada de insuflar violência. Os dois primeiros pontos são documentáveis. O terceiro exige investigação sobre autoria, coordenação, financiamento, infraestrutura de distribuição e eventual comando central.
É exatamente nesse terceiro nível que começa a verdadeira investigação sobre guerra híbrida. E como coloca o ministro Flavio Dino, se existe uma operação coordenada, quem a coordenou? A guerra hibrida dos EUA contra Brasil está por trás desta mobilização? As redes de Cerimedo que descobrimos que são a longa mão de Bannon e Trump tem ligação?
O fato de uma mesma mensagem aparecer em milhares de grupos não demonstra automaticamente que uma inteligência estrangeira esteja por trás dela. Uma narrativa pode ser produzida por militantes domésticos, replicada por influenciadores, amplificada por algoritmos, copiada por usuários comuns e posteriormente apropriada por grupos organizados. O resultado pode parecer uma operação centralizada mesmo quando sua origem é distribuída. Também pode ocorrer o inverso: uma operação inicialmente pequena pode utilizar comunidades políticas já existentes como multiplicadores, tornando quase invisível a fronteira entre influência externa e mobilização doméstica.
É por isso que pesquisas contemporâneas sobre manipulação informacional insistem na análise da infraestrutura e não apenas do conteúdo. É necessário descobrir quem criou a primeira peça, as implicações em rede e o impacto e principalmente o impulsionamento artificial e recursos financeiros envolvidos.
A pergunta brasileira
O Brasil deve, portanto, formular uma pergunta diferente daquela que dominou parte do debate político depois dos primeiros vídeos do Nepal. Em um mundo que o Presidente Trump ameaça frontalmente o Brasil de uma invasão se não obedecermos a exigências como as de entrega de terras raras, a pergunta mais do que quem está falando é quem está impulsionando com dinheiro e máquina de algoritmos?
Uma investigação completa precisaria reconstruir a trajetória digital das primeiras mensagens sobre Nepal no Brasil; identificar quais grupos as receberam primeiro; mapear as contas que produziram os vídeos; verificar se existiram pacotes de conteúdo previamente preparados; examinar os horários de postagem; comparar versões linguísticas; identificar possíveis redes coordenadas; rastrear financiamento publicitário; verificar conexões entre influenciadores; cruzar dados de WhatsApp, Telegram, X, Instagram e TikTok; e comparar a linguagem brasileira com conteúdos produzidos no Nepal.
Seria necessário também investigar se as imagens usadas no Brasil foram originalmente produzidas por veículos jornalísticos, ativistas nepaleses, organizações políticas, contas estrangeiras ou usuários brasileiros. Só então seria possível determinar se houve apenas apropriação espontânea, coordenação doméstica ou algum tipo de operação transnacional.
Essa investigação deveria envolver jornalistas, pesquisadores de ciência política, especialistas em segurança digital, plataformas, Ministério Público, Polícia Federal e instituições acadêmicas independentes. Não porque toda narrativa estrangeira seja uma operação de inteligência, mas justamente porque, em um ambiente de guerra informacional, a ausência de investigação cria espaço para que qualquer lado preencha o vazio com sua própria teoria.
O caso do Nepal mostra uma competição real entre Estados Unidos e China. Mostra programas de infraestrutura com consequências políticas. Mostra vulnerabilidades informacionais. Mostra uma revolta que derrubou um governo. E nos ensina como um acontecimento foi posteriormente apropriado no Brasil como narrativa política. Mas, até o momento, não há evidência pública suficiente para conectar todos esses elementos por uma cadeia operacional que permita afirmar que os Estados Unidos organizaram a revolta nepalesa ou coordenaram a “nepalização” brasileira.
Em vez de perguntar exclusivamente se Washington provocou Kathmandu, é preciso perguntar quais estruturas internacionais estavam presentes; quais atores domésticos tinham capacidade de mobilização; quais plataformas foram utilizadas; quais narrativas circularam; quem as produziu; quem as amplificou; quem se beneficiou delas; e como o repertório foi posteriormente transferido para outros países. É nessa cadeia que se encontra a verdadeira anatomia da guerra informacional. E para esta guerra o Estado Brasileiro precisa estar preparado junto com órgãos civis universidades e imprensa.
Referências
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Luciana Bauer é jurista, pesquisadora e escritora. Pós-doutora em Direito pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em regime de dupla titulação com a Pace University (Estados Unidos). Doutora em Direito (SJD) pela Widener University Delaware Law School (EUA). Mestre em Ciência Jurídica pela Univali, em dupla titulação com o LL.M. da Widener University Delaware Law School. Graduada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atuou por mais de duas décadas como Juíza Federal do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4).
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