Esta reportagem abre a nova série especial do GGN dedicada a mapear, passo a passo, a anatomia eleitoral de cada região do Brasil. Ao longo dos próximos dias, vamos desatar os nós do xadrez local que moldam as disputas pela Presidência da República, as dinâmicas dos eleitorados estaduais, a distribuição de vagas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, além das acomodações partidárias de ocasião e dos pragmatismos locais. Compreender o Brasil real exige olhar para além dos gabinetes de Brasília e encarar o arranjo de poder de cada estado.
Iniciamos pelo Norte, uma região cuja imagem costuma sofrer reducionismos no debate político. A despeito da ideia simplista de que a Amazônia reagiria como um bloco político homogêneo, o mapa eleitoral da região é fragmentado, complexo e marcado por vetores opostos. Em entrevista exclusiva à TV GGN, a cientista política Naiara Alcântara, professora da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA), detalha como esse mosaico se articula e alerta para o erro de interpretação recorrente no debate público.
“Quando a gente fala da região Norte, a gente precisa pensar que é uma região muito heterogênea. A gente é formado por sete estados — Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins — e nesses estados a gente tem comportamentos eleitorais bastante distintos. Eu participei de uma outra entrevista em que a todo tempo a impressão era de que a gente estava falando de um bloco único, em que evidentemente o Lula sairia à frente. Mas não é o que acontece de fato.”
O retrospecto de 2022 deixa a divisão ainda mais evidente. Enquanto Jair Bolsonaro venceu no Acre, no Amapá, em Rondônia e em Roraima, Luiz Inácio Lula da Silva prevaleceu no Amazonas, no Pará e em Tocantins. Esse racha, na visão de Naiara, se projeta como a grande tônica para as eleições de 2026. As disputas estaduais, as alianças partidárias regionais e a força dos executivos locais continuam pesando muito mais do que alinhamentos ideológicos nacionais puros.
O xadrez para o Senado e as bancadas no Congresso
Para além da disputa pelo Planalto, o verdadeiro fiel da balança para a governabilidade federal estará nas bancadas federais e, sobretudo, na renovação de duas vagas por estado no Senado. A expectativa é de que o espectro partidário do Norte reproduza a paridade vista nas urnas presidenciais passadas: quatro estados tendem a consolidar maiorias mais alinhadas à direita conservadora, enquanto três pendem para arranjos mais permeáveis à centro-esquerda e ao pragmatismo governista.
No Pará, o exemplo da engrenagem do MDB comandado pela família Barbalho demonstra como a máquina pública e as alianças locais atropelam divergências ideológicas. Com a desincompatibilização do governador Helder Barbalho para disputar o Senado, a vice Hana Ghassan assumiu o comando do Estado já em posição privilegiada para a corrida pela reeleição.
“Aqui especificamente no Pará, a gente tem o MDB. A gente tem uma oposição forte, diferente de outros estados, como Rondônia, onde a gente praticamente não vê oposição. O MDB está no poder já há um bom tempo com a figura do Helder Barbalho. Ele sai do governo para concorrer à vaga de Senado e tem uma relação estreita ali com o Lula, tanto de apoio dele ao Lula quanto do Lula ao Helder. Quem assume é a Hana, que pega a máquina pronta. Nas pesquisas, ela está à frente do ex-prefeito de Ananindeua, Dr. Daniel, justamente porque pegou essa estrutura andante para dar continuidade.”
A disputa para o Senado paraense desenha um retrato didático de como o poder institucional se perpetua. Com Helder isolado na liderança da primeira vaga — pontuando quase o dobro dos adversários —, a verdadeira batalha eleitoral se concentra na segunda cadeira, fortemente disputada por quadros do PL, como o delegado Éder Mauro, consolidando o peso da direita no estado. O domínio político da família Barbalho também ganha traços de continuidade com o pai, o senador Jader Barbalho, figurando como primeiro suplente na chapa do filho.
“A intenção do MDB é permanecer no poder. Como não podem tentar a terceira eleição para o governo estadual, o jeito foi ocupar outra cadeira no Senado, com grandes chances de vitória. Nas pesquisas, o Helder está muito à frente, com quase o dobro dos demais candidatos. A disputa real vai se dar pela segunda cadeira, onde o Éder Mauro, do PL, aparece competitivo.”
Essa complexidade de forças se repete nos pleitos locais. Se em 2024 o MDB venceu as prefeituras de Belém, Boa Vista e Macapá, legendas como Avante (Manaus), Podemos (Porto Velho e Palmas) e PL (Rio Branco) se consolidaram no comando de capitais estratégicas, evidenciando que as elites locais se articulam por caminhos próprios que desafiam leituras simplistas da ciência política sobre volatilidade de votos.
Custo de vida, bioma e o eleitorado urbano
Do ponto de vista demográfico, o eleitorado do Norte traz uma peculiaridade decisiva: foi o contingente eleitoral que mais cresceu proporcionalmente no país nos últimos anos, ultrapassando a marca dos 13 milhões de votantes. No entanto, o senso comum costuma errar ao associar a população amazônica exclusivamente a cenários rurais ou isolados.
A região é majoritariamente urbana, convivendo simultaneamente com grandes aglomerados metropolitanos e populações dispersas ao longo de territórios indígenas e comunidades ribeirinhas, para as quais o impacto das transformações ambientais e da presença do Estado é cotidiano e vital.
“O eleitorado do Norte é proeminente: nós somos mais de 13 milhões de eleitores e fomos a população votante que mais cresceu. Nós somos uma maioria urbana, mas não podemos esquecer que no nosso território temos questões muito específicas relacionadas aos territórios indígenas e comunidades ribeirinhas. A questão ambiental e o aquecimento global são temas de extrema importância para a nossa população, que vivencia isso diariamente, sobretudo após marcadores como a COP 30 realizada em Belém.”
Contudo, a contradição central que a Ciência Política registra na região é a desarticulação entre a consciência ambiental subjetiva do eleitor e o seu comportamento nas urnas. Pesquisas de opinião e de valores ambientais conduzidas por instituições locais revelam que, embora a ampla maioria dos eleitores do Norte reconheça a gravidade da crise climática e defenda a preservação da floresta, esse vetor não se traduz em um preditor direto de voto para o Executivo federal.
“A questão ambiental não se mostra uma variável preditora de voto no momento da urna para a Presidência da República. A importância atribuída ao meio ambiente aparece alta tanto entre eleitores do Lula quanto entre eleitores do Bolsonaro. Esperava-se que a retomada da proteção estatal e das políticas ambientais gerasse um impacto direto na preferência eleitoral, mas a dinâmica do voto passa por fatores econômicos locais, identificações de costumes e o peso das redes de patronato político regionais.”
Confira à entrevista completa pelo link abaixo, na TV GGN: