A relação mal explicada da CazéTV com empresa israelense de ex-militares

Guilherme Rabinovitsch Cysfera
O cofundador da Cysfera, Guilherme Rabinovitsch. Foto; Reprodução/Instagram

A CazéTV e a LiveMode, dona da emissora, estão entre os clientes e parceiros da empresa israelense de cibersegurança Cysfera. Fundada por Guilherme Rabinovitsch e Yuval Yacobi, dois ex-militares das Forças de Defesa de Israel (FDI), a companhia não deixa claro, em seu site ou nas redes sociais, qual sua relação com o canal esportivo mais popular do Brasil.

A Cysfera afirma conectar “as soluções de cibersegurança mais inovadoras ao mercado brasileiro” e divulga publicamente detalhes de sua atuação para clientes como iFood, Cacau Show, Cimed e Ri Happy. Com CazéTV e LiveMode, é diferente. Não há explicação pública sobre qual tecnologia utilizam, que serviço recebem ou qual é o alcance da relação com a empresa de cibersegurança.

O israelense Yuval Yacobi, cofundador, atuou na produção de inteligência de sinais em árabe na Unidade 8200, maior divisão de inteligência militar de Israel. A Cysfera enaltece a ligação com o grupo, afirmando carregar um “DNA formado em ambientes como a Unidade 8200” e conectar esse “DNA israelense” ao mercado brasileiro.

A 8200 ajudou a planejar, em 2024, os ataques com pagers que deixaram 37 mortos e mais de 3 mil feridos no Líbano. Em 2014, ex-integrantes do grupo denunciaram o uso de tecnologias de ponta para espionar, coletar informações e chantagear civis palestinos sem associação militar.

Quem são os cofundadores da Cysfera

Yuval Yacobi serviu entre 2011 e 2014 na Unidade 8200. Segundo seu perfil profissional, foi responsável por treinar recrutas para produzir inteligência de sinais. Em 2012, a unidade participou da Operação Pilar de Defesa, que deixou mais de 100 civis mortos na Faixa de Gaza.

Depois da 8200, Yacobi trabalhou de 2017 a 2020 na NSO Group como especialista em segurança operacional. A empresa é desenvolvedora do Pegasus, spyware denunciado por acessar câmera, microfone e dados de celulares de jornalistas, ativistas e dissidentes. A empresa foi pivô de uma crise envolvendo Carlos Bolsonaro, em 2021, quando o então vereador do RJ teria articulado a compra do Pegasus por meio de uma licitação do Ministério da Justiça.

Guilherme Rabinovitsch é brasileiro e sócio de Yacobi. Ele radicou-se em Israel e serviu como operador de tanques de guerra nas Forças de Defesa do país. Em publicações nas redes sociais, diz ter “orgulho de ser soldado” e estar “pronto para defender” Israel.

Após os ataques de 7 de outubro de 2023, afirmou à CNN que estava “roendo as unhas” para ser convocado e tratava como inevitável um avanço israelense sobre Gaza. Em outra entrevista para o canal, atribuiu ao Hamas a responsabilidade pelas mortes de civis em Gaza e afirmou que, enquanto o grupo continuasse no controle, os civis estariam em perigo.

Em janeiro de 2024, na marca de 100 dias do conflito entre Israel e o Hamas, Rabinovitsch rejeitou a acusação de genocídio e defendeu a ofensiva como “luta por sobrevivência”.

Na mesma época, num texto que promovia as “vantagens competitivas” da Cysfera, acusou publicamente o Hamas de ataques cibernéticos contra Israel e atribuiu a fonte da informação às empresas Cloudflare e Microsoft. A acusação, porém, já havia sido desmentida pelas próprias empresas.

Cysfera não explica serviço prestado à CazéTV

A relação com a emissora é pouco comentada e menos ainda explicada. A pista pública mais direta foi deixada por Guilherme. Em uma publicação do chefe de infraestrutura da LiveMode sobre a cobertura da Copa do Mundo, ele comentou: “Feliz em ter contribuído de alguma forma”, sem dizer o que fez ou se falava em nome da Cysfera.

Contatadas pelo DCM, as empresas LiveMode, CazéTV e Cysfera não se posicionaram sobre os questionamentos apresentados.

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