Segundo Colóquio Internacional em Economia Solidária Brasil e França discutirá territórios, moedas locais, políticas públicas e saberes populares em Paris**
Da Redação
“Vamos nos encontrar no que nos une primeiro.” A afirmação do professor Jeová Torres sintetizou uma das principais ideias debatidas na edição de 21 de setembro do programa Bancos da Democracia, da Atitude Popular. A entrevista apresentou a proposta do 2º Colóquio Internacional em Economia Solidária Brasil e França, marcado para os dias 18, 19 e 20 de novembro de 2026, em Paris, e discutiu as relações entre economia solidária, territórios, políticas públicas, moedas locais e participação comunitária.
O debate reuniu a apresentadora Sara Góes, Leonora Mol, da Coordenação da Rede Brasileira de Bancos Comunitários e Municipais, Jeová Torres, professor da Universidade Federal do Cariri e pesquisador ligado à Universidade de Poitiers, na França, além do professor Jean-Louis Laville, do Conservatoire national des arts et métiers, em Paris. A Cátedra de Economia Solidária do Cnam confirma Laville como professor emérito e sua atuação acadêmica na área. ([Economie solidaire][1])
O colóquio terá como eixo as dinâmicas territoriais da economia solidária e sua relação com os novos comuns, os bairros populares e os movimentos sociais. A proposta apresentada no programa busca aproximar pesquisadores, empreendimentos, movimentos sociais e gestores públicos brasileiros e franceses para colocar experiências concretas em diálogo.
Para Jean-Louis Laville, a economia social e solidária não deve ser compreendida apenas como uma resposta destinada a populações pobres ou como uma atividade econômica secundária. Em sua participação, ele diferenciou uma concepção meramente reparadora de outra que reconhece a dimensão política e democrática dessas experiências.
A proposta do encontro parte justamente dessa segunda perspectiva. Em vez de colocar pesquisadores como únicos produtores de conhecimento, a organização pretende ampliar a participação dos chamados praticantes, pessoas e organizações que constroem cotidianamente experiências de economia solidária em seus territórios.
Jeová Torres explicou que essa aproximação vem sendo construída há anos e ganhou força a partir de uma formação em economia solidária iniciada em 2023, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Segundo ele, o processo procurou aproximar conhecimento acadêmico e conhecimento produzido pelas próprias experiências sociais.
A ideia, segundo o professor, é superar uma relação na qual a academia observa os territórios de fora e transforma os praticantes apenas em objeto de pesquisa. “A gente vem tentando fazer isso na especialização”, afirmou, ao explicar a proposta de associação de saberes.
Essa perspectiva estará presente no colóquio. Experiências brasileiras como a Rede Brasileira de Bancos Comunitários, o Banco Palmas, no Conjunto Palmeiras, e a Justa Trama estarão em diálogo com iniciativas francesas.
Para Leonora Mol, levar a experiência brasileira a Paris significa apresentar uma rede que já reúne 182 bancos comunitários. Ela ressaltou que a dimensão territorial é fundamental para compreender o funcionamento dessas iniciativas.
“Quando o banco comunitário chega em uma comunidade, ele transforma essa comunidade de forma que a comunidade às vezes pode ser o primeiro projeto que ela tenha, que realmente é dela”, afirmou.
A coordenadora explicou que a própria definição de banco comunitário está ligada à capacidade de uma comunidade participar das decisões sobre seus instrumentos financeiros. O banco oferece serviços financeiros solidários, mas sua identidade está relacionada à gestão comunitária e à possibilidade de o território discutir seus próprios problemas e construir respostas.
“Somos comunitários e, a partir do momento em que somos comunitários, nos permite em nosso território pensarmos sobre os nossos problemas e acharmos as nossas soluções”, disse Leonora.
A experiência do Conjunto Palmeiras, em Fortaleza, aparece como uma das referências brasileiras desse processo. O Banco Palmas, criado na comunidade, tornou-se uma das experiências mais conhecidas de finanças solidárias no país e integra a trajetória que levou à formação de uma rede nacional de bancos comunitários.
No programa, a discussão sobre território não foi tratada apenas como uma questão geográfica. Sara Góes questionou como seria possível aproximar realidades tão diferentes quanto as periferias brasileiras e os bairros populares de Paris.
Jeová Torres respondeu que a dimensão humana precisa permanecer no centro dessa discussão. Para ele, as experiências territoriais podem ser diferentes em suas formas de organização, mas compartilham problemas relacionados às fraturas sociais, econômicas e ecológicas.
“Eu acho que o grande elemento que a gente não talvez esqueceu durante algum tempo é que o ser humano faz parte dessa dimensão do território”, afirmou.
A formulação desloca o debate do território entendido somente como espaço físico para uma perspectiva na qual as pessoas, suas relações e suas formas de organização também constituem o território. É nesse ponto que os organizadores pretendem estabelecer comparações entre Brasil e França.
Durante o encontro em Paris, os participantes deverão visitar experiências de economia solidária em bairros populares e em áreas da região metropolitana. Jeová explicou que uma das iniciativas está localizada no 19º distrito de Paris e outra corresponde a um polo solidário situado nas proximidades da região metropolitana.
As experiências francesas apresentam diferenças importantes em relação ao contexto brasileiro. Segundo Jeová, muitas associações francesas contam com algum nível de subvenção pública para manter suas atividades. Essa relação com o Estado, entretanto, também pode gerar vulnerabilidades quando mudanças políticas alteram as prioridades de financiamento.
O professor destacou que as experiências brasileiras, por sua vez, podem oferecer elementos importantes para os franceses diante do crescimento da pobreza e da insegurança alimentar. Para ele, a existência de moedas locais na França não significa necessariamente que elas desempenhem o mesmo papel das moedas sociais brasileiras.
Na França, a denominação mais comum é “moeda local”. O governo francês informa que essas moedas são complementares ao euro, circulam em territórios determinados e têm base legal desde a Lei de 31 de julho de 2014 sobre a economia social e solidária. ([economie.gouv.fr][2])
A legislação francesa estabelece, portanto, um marco jurídico para essas iniciativas. Jeová destacou que essa experiência pode oferecer elementos para o debate brasileiro sobre regulamentação e desenvolvimento das moedas sociais.
No Brasil, os bancos comunitários desenvolveram instrumentos próprios vinculados aos territórios onde atuam. Durante o programa, Leonora lembrou a evolução das moedas sociais desde experiências físicas, como as primeiras emissões ligadas ao Banco Palmas, até sistemas digitais utilizados atualmente pela rede.
A discussão sobre moedas também levou ao tema da soberania econômica. A pergunta colocada pela audiência abordava as diferenças entre moedas com lastro e sem lastro e seus impactos sobre autonomia e desenvolvimento territorial.
Jeová afirmou que não pretendia oferecer uma resposta definitiva sobre todas as formas de lastro, mas explicou que existem diferentes maneiras de pensar mecanismos de garantia e sustentação de moedas locais. Ele citou experiências de bancos cooperativos e estruturas financeiras associadas às moedas locais francesas.
A conversa também revelou uma diferença importante entre as experiências dos dois países. Enquanto algumas moedas locais francesas podem funcionar como instrumentos complementares de circulação econômica e mobilização territorial, as moedas sociais brasileiras estão fortemente associadas a estratégias de desenvolvimento local, inclusão financeira e circulação de recursos dentro das próprias comunidades.
Essa diferença será um dos elementos que o encontro pretende colocar em discussão.
Outro dado apresentado durante o programa diz respeito ao peso econômico da economia social e solidária na França. Segundo dados oficiais do governo francês, o setor corresponde atualmente a 10% do PIB e a cerca de 13,4% do emprego privado, com aproximadamente 2,7 milhões de postos de trabalho. ([Tesouro Público][3])
Em julho de 2026, o Conselho Superior da Economia Social e Solidária francês aprovou a primeira estratégia nacional para o setor, com metas previstas até 2030. Entre os objetivos estão elevar a participação da economia social e solidária para 15% do emprego privado e ampliar o número de estruturas reconhecidas como empresas solidárias de utilidade social. ([Tesouro Público][4])
Os números ajudam a dimensionar a diferença entre tratar a economia solidária como um conjunto marginal de iniciativas e reconhecê-la como um setor relevante da economia nacional.
Jeová também contestou a ideia de que a economia social e solidária francesa seja simplesmente um setor dependente de recursos públicos. Segundo ele, existe uma disputa política em torno dessa caracterização e os recursos destinados ao setor precisam ser analisados em relação ao volume de incentivos e subvenções direcionados a empresas convencionais.
A questão da autonomia também apareceu na comparação entre Brasil e França. O professor observou que a presença mais estruturada do Estado francês em determinadas experiências pode oferecer segurança financeira, mas também cria dependência de decisões políticas e orçamentárias.
Ao mesmo tempo, a tradição brasileira de organização comunitária pode oferecer experiências de mobilização e autogestão que interessam aos parceiros franceses.
Essa troca é um dos objetivos centrais do colóquio. O encontro não pretende apenas apresentar pesquisas sobre economia solidária, mas colocar diferentes formas de conhecimento em contato.
“Esse é um evento que a gente tá envolvido, mas é pros atores”, explicou Jeová. Segundo ele, a proposta é evitar um formato em que pesquisadores ocupem todo o espaço e os representantes das experiências comunitárias tenham apenas alguns minutos para falar.
O professor também criticou a fragmentação de movimentos e redes que atuam no mesmo campo. Ele mencionou experiências brasileiras e francesas nas quais organizações com objetivos semelhantes acabaram divididas por diferenças internas.
“Essa divisão só contribui para tornar invisível as duas redes”, afirmou.
A defesa de maior cooperação aparece como um dos pontos políticos da proposta do encontro. Para Jeová, as divergências podem ser discutidas posteriormente, mas a construção conjunta precisa partir daquilo que aproxima as experiências.
“Vamos nos encontrar no que nos une primeiro”, resumiu.
O debate também abordou o papel da pesquisa acadêmica. A organização do colóquio pretende dar continuidade a uma proposta de formação que reconhece o conhecimento dos praticantes como parte do processo de produção científica.
Jeová mencionou a experiência da especialização em economia solidária e os trabalhos produzidos pelos estudantes a partir das próprias práticas territoriais. A intenção é ampliar esse diálogo em futuras edições, aproximando estudantes que atuam diretamente em experiências de economia solidária de outros pesquisadores e estudantes.
A própria Cátedra de Economia Solidária do Cnam trabalha com ensino, pesquisa e difusão de conhecimento e mantém uma atuação internacional na área. ([Economie solidaire][5])
No encerramento, Jeová retomou a necessidade de articulação entre diferentes experiências e redes. Para ele, a economia solidária perde força quando os próprios atores do campo transformam suas diferenças em disputas permanentes.
A proposta do encontro Brasil e França, nesse sentido, é colocar em contato experiências que nasceram em contextos diferentes, mas enfrentam questões que podem ser comparadas: como manter a riqueza circulando nos territórios, como fortalecer organizações comunitárias, como criar instrumentos financeiros próprios e qual deve ser o papel das políticas públicas.
A edição do Bancos da Democracia mostrou que a discussão sobre economia solidária ultrapassa a dimensão financeira. Ela envolve a capacidade de comunidades organizarem seus próprios instrumentos econômicos, participarem das decisões e produzirem conhecimento sobre suas próprias experiências.
O 2º Colóquio Internacional em Economia Solidária Brasil e França será realizado em Paris entre 18 e 20 de novembro de 2026, reunindo representantes de experiências brasileiras e francesas, pesquisadores, gestores públicos e integrantes de movimentos sociais.
Referências
Économie sociale et solidaire, Direction générale du Trésor, Ministério da Economia e Finanças da França, atualização de 2026. ([Tesouro Público][3])
Adoption de la nouvelle stratégie de l’économie sociale et solidaire (ESS), Direction générale du Trésor, 2026. ([Tesouro Público][4])
Savez-vous ce qu’est une monnaie locale ?, Ministério da Economia e Finanças da França, 2025. ([economie.gouv.fr][2])
Finances solidaires en France et au Brésil : le rôle des initiatives citoyennes dans le développement de l’économie solidaire au-delà de la dimension financière, Osia Alexandrina Vasconcelos, tese de doutorado, Cnam e Universidade Federal da Bahia, 2018. Orientação: Jean-Louis Laville. ([Cnam][6])
L’économie sociale et solidaire, Ministério da Economia e Finanças da França, 2021. ([economie.gouv.fr][7])
J.L. Laville, Sociologie des services, Jean-Louis Laville, Érès. A obra é indicada na bibliografia de formação do Cnam. ([Cnam][8])
📺 Programa Bancos da Democracia tem apoio do Ministério do Trabalho e Emprego (Termo de Fomento – MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO nº 00111/2025 // TRANSFEREGOV.BR Nº991217-2025)
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