CDU despenca a 5% e Merz chama resultado de “desastre” enquanto AfD amplia força no leste alemão

Da Redação

Conservadores do chanceler registram seu pior desempenho estadual desde a fundação da República Federal em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, enquanto a AfD aparece à frente com cerca de 37%. Em Berlim, Die Linke lidera as projeções e a CDU perde terreno. Resultados se somam à vitória da AfD na Saxônia-Anhalt e expõem pressão econômica, crise da coalizão e divisões sobre pensões, custo de vida, imigração e apoio à Ucrânia.

O chanceler alemão Friedrich Merz classificou como um “desastre” o desempenho de seu partido nas eleições estaduais realizadas neste domingo, 20 de setembro, depois que a União Democrata Cristã (CDU) apareceu com apenas cerca de 5,5% dos votos em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Se confirmado no resultado oficial, será o pior desempenho da legenda em qualquer eleição estadual desde 1949, colocando um partido que governa a Alemanha perigosamente próximo da cláusula de barreira de 5% necessária para entrar no Parlamento regional.

A votação produziu simultaneamente dois movimentos políticos importantes. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no antigo território da Alemanha Oriental, a Alternativa para a Alemanha (AfD) apareceu em primeiro lugar nas projeções da emissora pública ARD, com aproximadamente 37%, seguida pelo Partido Social-Democrata (SPD), da governadora Manuela Schwesig, com 35,5%. A diferença ainda dependia da apuração e, no fechamento desta matéria, os números disponíveis eram projeções eleitorais, não o resultado oficial definitivo.

Em Berlim, a crise assumiu outra configuração. A esquerda Die Linke aparecia na liderança com cerca de 24,5%, seguida pela CDU, com aproximadamente 20%, enquanto a AfD alcançava cerca de 16%, segundo a pesquisa de boca de urna da ARD. A autoridade eleitoral berlinense advertiu que o resultado provisório oficial só seria apresentado durante a madrugada de segunda-feira e que dados parciais poderiam sofrer alterações relevantes ao longo da contagem.

Isso torna inadequado interpretar a votação simplesmente como uma virada uniforme da Alemanha para uma única direção ideológica. No mesmo domingo em que a AfD liderava no nordeste do país, Die Linke estava à frente na capital federal. O denominador comum é outro: os partidos que comandam o governo federal e parte importante do centro político alemão sofreram perdas importantes, enquanto forças localizadas fora da atual coalizão ampliaram espaço.

A magnitude da derrota da CDU em Mecklemburgo explica a linguagem utilizada pelo próprio chanceler. Merz afirmou que o resultado era um “desastre”, mas descartou deixar o cargo e anunciou que continuará tentando implementar seu programa de reformas econômicas e sociais. O chanceler argumenta que os problemas estruturais alemães tornam essas mudanças necessárias, mesmo que produzam custos políticos.

O episódio não está isolado.

Duas semanas antes, em 6 de setembro, a AfD já havia vencido as eleições da Saxônia-Anhalt com aproximadamente 43,8% dos votos, mais que o dobro de sua participação de 2021. A CDU ficou com cerca de 17,2%. A AfD conquistou 39 dos 83 assentos do Parlamento regional, insuficientes para uma maioria absoluta, mas o resultado representou sua maior votação estadual até então.

A sequência muda a dimensão política do que aconteceu neste domingo. Na eleição federal de fevereiro de 2025, que levou Merz ao governo, CDU e CSU somaram 28,6% dos segundos votos, enquanto a AfD obteve 20,8%, o SPD 16,4%, os Verdes 11,6% e Die Linke 8,8%. A participação eleitoral chegou a 82,5%. A AfD já havia praticamente dobrado seu percentual em relação a 2021, quando recebera 10,4%.

Pouco mais de um ano e meio depois, eleições regionais sucessivas mostram que a recomposição partidária iniciada naquela votação federal continua em curso.

Economia, energia e Estado social estão no centro da pressão sobre Merz

Seria simplificador atribuir o avanço da AfD ou a queda dos partidos do governo a uma única causa.

As pesquisas e reportagens produzidas antes e depois das eleições identificam um conjunto de pressões: custo de vida, preços de energia, insegurança econômica, imigração, burocracia, futuro das aposentadorias e divergências sobre a política alemã para a Rússia e a Ucrânia. Em Berlim, por exemplo, o problema habitacional e a explosão dos aluguéis ocuparam posição central na campanha — uma pauta que favoreceu principalmente Die Linke.

A Alemanha apresenta neste momento uma situação econômica contraditória.

Institutos econômicos revisaram para cima suas projeções de crescimento em 2026. O Instituto Econômico Alemão, IW, passou a esperar expansão próxima de 1,2%, contra previsão anterior de apenas 0,4%. Outros centros também elevaram suas estimativas depois do desempenho melhor das exportações e do aumento dos gastos públicos. Mas o próprio IW adverte que custos elevados de energia, investimentos privados fracos e perda de empregos continuam limitando a recuperação. A inflação prevista permanece acima de 2,5%, comprimindo o poder de compra das famílias.

O Ministério da Economia alemão também registrou perda de força da atividade no início do terceiro trimestre. O consumo doméstico enfraqueceu enquanto a energia permaneceu cara.

A pressão tornou-se particularmente visível nos combustíveis. Poucos dias antes das eleições, o preço médio da gasolina havia atingido aproximadamente € 2,286 por litro, recorde que levou Merz a prometer medidas de alívio. Dentro da própria coalizão apareceram respostas divergentes: integrantes do SPD defenderam mecanismos como tributação de lucros extraordinários e controle de preços, enquanto a ministra da Economia, Katherina Reiche, da CDU, propôs redução temporária do IVA sobre combustíveis de 19% para 7%.

É nessa conjuntura que Merz tenta executar uma agenda de reformas que alcança áreas politicamente sensíveis do Estado social alemão.

Entre as propostas discutidas estão mudanças no sistema de aposentadorias, eventual elevação da idade efetiva de aposentadoria e restrições relacionadas ao pagamento de afastamentos por doença. Depois da vitória da AfD na Saxônia-Anhalt, os social-democratas, que integram a coalizão federal com CDU e CSU, pediram que algumas dessas medidas fossem suavizadas e defenderam a reabertura de debates sobre tributação de patrimônio, herança, pensões e orçamento de 2027.

O impasse mostra uma dificuldade estrutural do governo.

Merz argumenta que a Alemanha precisa reduzir burocracia, melhorar competitividade e reorganizar despesas sociais para enfrentar envelhecimento populacional e estagnação econômica. O SPD aceita a necessidade de reformas, mas resiste a medidas que considera capazes de concentrar seus custos sobre trabalhadores e aposentados.

A coalizão é, portanto, simultaneamente uma aliança de governo e uma união entre forças com respostas diferentes para a crise.

Ela surgiu depois da eleição federal de 2025, quando CDU/CSU terminou à frente e a AfD ficou em segundo lugar. Como os partidos tradicionais mantiveram a política de não formar coalizões com a AfD — conhecida na Alemanha como Brandmauer, ou “muro corta-fogo” — conservadores e social-democratas acabaram governando juntos apesar de diferenças programáticas importantes.

Os resultados de setembro aumentam a pressão sobre esse arranjo, mas não significam automaticamente sua ruptura. Merz continua chanceler, a coalizão federal permanece em funcionamento e eleições estaduais não alteram diretamente a composição do Bundestag.

Elas modificam, porém, o ambiente político no qual o governo precisa atuar.

Ucrânia, Rússia e a divisão política do leste alemão

Há ainda uma dimensão internacional particularmente relevante nos resultados do leste.

Merz transformou o apoio à Ucrânia e o reforço da segurança europeia em elementos centrais de sua política externa. O chanceler sustenta que uma vitória russa produziria graves consequências para a segurança da Alemanha e da Europa e defende a continuidade do apoio militar a Kiev.

A AfD adota posição diferente. Defende o encerramento da ajuda militar alemã à Ucrânia e a reconstrução das relações econômicas e políticas com Moscou. O partido também se opõe a aspectos importantes da política migratória e da integração europeia conduzida pelos governos alemães recentes.

Essas posições encontram terreno político específico em partes da antiga Alemanha Oriental.

Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental pertenceu à República Democrática Alemã até a reunificação de 1990. Pesquisas e reportagens apontam que setores de sua população mantêm avaliações da Rússia e da guerra na Ucrânia diferentes das predominantes no oeste alemão. Esse fenômeno possui explicações históricas, econômicas e sociais variadas e não significa que os eleitores da região compartilhem uma única visão política.

Também persistem diferenças econômicas e patrimoniais entre partes do leste e do oeste mais de três décadas depois da reunificação. O colapso de empresas, empregos e estruturas industriais ocorrido durante a transição para a economia de mercado deixou marcas profundas em algumas regiões orientais. Diferentes forças políticas procuram interpretar e mobilizar esse legado de maneiras distintas.

A AfD conseguiu converter parte desse descontentamento em apoio eleitoral.

Isso, porém, não elimina outras características e controvérsias envolvendo o partido.

Reuters, AP e numerosos veículos europeus classificam a AfD como uma legenda de extrema direita. A própria sigla rejeita essa caracterização e afirma atuar dentro da ordem constitucional alemã. Em 2025, o serviço federal de inteligência interna, o BfV, classificou nacionalmente o partido como uma organização extremista de direita, mas, em fevereiro de 2026, um tribunal suspendeu cautelarmente o uso dessa classificação enquanto o mérito da disputa judicial é examinado. A decisão reconheceu a existência de forte suspeita de comportamentos anticonstitucionais em setores da AfD, mas considerou insuficiente naquele momento generalizar essa conclusão para todo o partido.

A distinção importa porque o crescimento eleitoral da AfD abriu também uma discussão institucional na Alemanha sobre os limites da estratégia de isolamento.

Até agora, CDU, SPD, Verdes e Die Linke rejeitam coalizões com a legenda. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, portanto, chegar em primeiro lugar não significa automaticamente formar o governo. A composição do Executivo estadual dependerá das maiorias que puderem ser construídas no Parlamento depois do resultado definitivo.

A Saxônia-Anhalt já havia revelado o mesmo problema. Mesmo com quase 44% dos votos, a AfD não conquistou sozinha a maioria absoluta dos assentos. O partido passou então a buscar apoio de parlamentares conservadores, enquanto Merz reafirmou que a CDU não cooperaria com ele.

A votação deste domingo testa novamente essa arquitetura.

Em Berlim, o resultado aponta para direção distinta. Die Linke cresceu fortemente, enquanto CDU e SPD perderam votos. O problema dominante da campanha foi sobretudo urbano: aluguéis, construção de moradias e custo de viver na capital. A escassez habitacional é estimada em centenas de milhares de unidades até 2040, e os aluguéis praticamente dobraram desde 2014.

A simultaneidade dos resultados revela uma Alemanha politicamente fragmentada: fortalecimento da AfD em partes do leste, recuperação da esquerda em Berlim e enfraquecimento dos partidos que sustentam o governo federal.

É por isso que a palavra “desastre”, utilizada pelo próprio Merz, descreve primeiro o resultado da CDU, e não necessariamente uma conclusão sobre o futuro imediato do governo alemão.

O chanceler afirmou que permanecerá no cargo e dará continuidade às reformas. Não existe eleição federal marcada antes de 2029, salvo ocorrência de antecipação constitucionalmente válida. O calendário oficial alemão mantém a próxima eleição para o Bundestag prevista para a primavera de 2029.

O que mudou neste domingo é a margem política disponível para Merz.

Seu partido recebeu pouco mais de um quarto dos segundos votos quando se somam CDU e CSU na eleição federal de 2025. Agora, em um dos 16 estados alemães, a CDU luta para permanecer acima da barreira de 5%. Duas semanas antes, havia caído para pouco mais de 17% na Saxônia-Anhalt, enquanto a AfD se aproximava dos 44%. Em Berlim, o partido também perdeu terreno e deixou a liderança nas projeções para Die Linke.

Nenhum desses resultados pode ser automaticamente projetado para uma eleição federal futura. Eleições estaduais possuem candidatos, problemas e dinâmicas próprias, e transformar a votação regional em previsão para 2029 seria metodologicamente incorreto.

Mas a sequência fornece informação concreta sobre o presente.

A Alemanha atravessa uma disputa sobre quem pagará pela reorganização econômica do país, como preservar o Estado social diante do envelhecimento demográfico, como enfrentar o custo da energia, qual relação manter com Rússia e Ucrânia, como responder à imigração e como administrar o crescimento de forças que desafiam o sistema partidário consolidado no pós-guerra.

A dificuldade de Merz é que essas questões chegaram ao mesmo tempo.

As exportações voltaram a crescer, o governo mobilizou centenas de bilhões de euros para infraestrutura e defesa e as previsões econômicas melhoraram em relação ao início do ano. Ainda assim, parte importante da população continua sentindo diretamente preços elevados, insegurança econômica e pressão sobre serviços e benefícios.

Esse descompasso entre indicadores macroeconômicos que apresentam alguma recuperação e a experiência cotidiana de segmentos do eleitorado ajuda a explicar por que a crise política não desapareceu com a melhora de algumas projeções econômicas.

Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, ela produziu neste domingo o pior resultado estadual da história da CDU no pós-guerra.

Em Berlim, levou a capital para outra direção, com uma forte votação da esquerda.

E, duas semanas depois de a AfD conquistar quase 44% na Saxônia-Anhalt, confirma que a questão que domina a política alemã já não é simplesmente se os partidos tradicionais perderam apoio em determinadas regiões.

É como o sistema político alemão responderá a um eleitorado cada vez mais fragmentado enquanto tenta governar uma economia submetida simultaneamente a pressões industriais, energéticas, sociais e geopolíticas.

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