Traduzido por Anderson Santana
As eleições brasileiras de outubro podem ser um momento decisivo para o imperialismo estadunidense na América Latina, em um momento em que uma onda de extrema direita pró-EUA tomou o poder em toda a região. Uma vitória do atual presidente de centro-esquerda poderia contrariar essa tendência. Contudo, uma vitória do candidato de extrema direita fortaleceria significativamente a ofensiva agressiva de Donald Trump.
Um retorno ao poder da extrema direita pró-Trump teria um enorme impacto no Brasil, o maior país da América Latina e a maior economia desta região. O país é um gigante nas áreas da agricultura, da mineração e da indústria, além de ter sido membro fundador dos BRICS ao lado da China (disparada a superpotência econômica do grupo), da Índia e da Rússia.
O BRICS é formado pelas principais economias não ocidentais que buscam estabilidade e crescimento globais, respeitando a soberania dos Estados e as Nações Unidas. Em muitos aspectos, é o oposto de Trump, considerando como o governo dele intensificou a hostilidade em todas essas frentes. Portanto, uma guinada à extrema direita pró-Trump no Brasil provavelmente enfraqueceria o BRICS.
A importância de uma vitória de Trump nas eleições no Brasil
O candidato de extrema direita Flávio Bolsonaro é filho do ex-presidente e golpista preso Jair Bolsonaro. Flávio promete dar continuidade à missão do pai, envolvendo privatizações, cortes de gastos, ataques à esquerda e militarização das forças de segurança (usando o termo “terrorista” como arma contra criminosos).
Flávio conquistou o apoio do criminoso de guerra israelense Benjamin Netanyahu (responsável pelo genocídio que o atual presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, condenou firmemente) e do ultracapitalista argentino Javier Milei. E ele segue:
O Brasil será o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, pois representa a solução dos Estados Unidos para romper a dependência da China em relação a minerais críticos, especialmente elementos de terras raras.
Adotando a retórica de Trump sobre os “valores americanos” (ou seja, execuções extrajudiciais, sequestro de presidentes para roubar petróleo, deixar populações inteiras morrerem de fome e iniciar guerras em defesa de Estados de apartheid genocidas), Flávio também afirmou que Lula “odeia a América” e “se opôs aos interesses dos Estados Unidos em todas as questões de política externa”.
Aparentemente opondo-se à independência política, Flávio pediu que os EUA exercessem pressão para garantir que os “valores de origem americana” prevalecessem – uma referência aos esforços de longa data dos EUA para dominar a América Latina por meio do dinheiro ou da força (especialmente contra uma esquerda supostamente “antiamericana” durante a Guerra Fria). Trump, é claro, reforçou essa doutrina.
Resumindo, Flávio seria totalmente subserviente aos interesses dos EUA se vencesse. E seria mais fácil para os EUA alcançarem seus objetivos-chave dos na América Latina, como estrangular Cuba até a sua submissão.
Uma oportunidade para fomentar o racismo e a desigualdade ou para combatê-los
Brasileiros ricos e brancos tendiam a apoiar Jair Bolsonaro, que raramente tentava esconder suas opiniões racistas e misóginas.
Mais da metade da população do Brasil tem ascendência africana, e essas pessoas são mais propensas do que os brancos a viver na pobreza ou na prisão e a morrer de forma violenta.
Embora existam críticas legítimas ao governo de Lula, ele ajudou a tirar milhões de pessoas da pobreza. E considerando que Lula tem buscado ativamente remediar a desigualdade étnica, principalmente quando criou um ministério para promover a igualdade racial, não é surpresa que os brasileiros negros tendam a apoiá-lo.
Embora o Brasil seja um país de renda média, apresenta níveis cronicamente elevados de desigualdade econômica, pobreza e baixo nível de escolaridade, o que o coloca ao lado de países de baixa renda. O país está entre as nações menos igualitárias da América Latina (a região mais desigual do planeta, onde os 10% mais ricos controlam mais de 50% da renda).
Não podemos ignorar a herança terrível da escravidão
Para muitos analistas, uma grande parte da desigualdade atual tem raízes na herança da escravatura e no racismo estrutural que a rodeia.
O Brasil foi o destino de quase metade da população africana (cerca de cinco milhões de pessoas) que os colonizadores europeus levaram à força para as Américas.
Os colonizadores ricos exploraram inicialmente o trabalho escravo dos indígenas brasileiros, mas depois passaram a explorar cada vez mais os africanos sequestrados para lucrar com o café, o açúcar, o tabaco, o ouro e os diamantes. Somente no auge da produção de café no início do século XIX, os portugueses trouxeram à força 2,5 milhões de africanos para o Brasil.
O Rio de Janeiro, por sua vez, já foi a maior “cidade escravista” do mundo. Lá existe até uma vala comum com cerca de 30.000 africanos sequestrados que morreram a caminho da África. E o Brasil nunca lidou de fato com essa herança horrível. Instituições que participaram do tráfico de escravos, por exemplo, não foram levadas à justiça.
A escravidão também não terminou rapidamente. Isso porque as elites brasileiras resistiram à abolição o máximo possível, tornando-se o último país do Hemisfério Ocidental a proibir a escravidão, em 1888.
Em meio à brutalidade racista contínua e às demandas por reparações no Brasil atual, muitos direitistas (em sua maioria brancos) acreditam que o Brasil deveria simplesmente esquecer o passado. Mas, se a violência é a principal preocupação dos eleitores, seria prudente reconhecerem que a pobreza e a desigualdade que persistem desde a escravidão são fatores-chave para a criminalidade violenta.
Uma escolha eleitoral clara no Brasil
É perfeitamente aceitável argumentar que o governo de Lula deveria ter feito ainda mais para remediar a pobreza extrema, a desigualdade e o racismo estrutural no Brasil. Mas ele afirmou o direito do Brasil, como economia do Sul Global, de escolher seu próprio caminho em vez de se curvar aos caprichos de uma superpotência cada vez mais agressiva e instável.
Enquanto isso, a extrema direita brasileira quer entregar o país aos Estados Unidos e às elites financeiras. É muito comum, por exemplo, ver bandeiras americanas e pedidos de intervenção dos EUA em eventos pró-Bolsonaro.
Num momento em que o Brasil é um dos poucos obstáculos no caminho de Trump na América Latina, os EUA estão claramente interferindo na preparação para o que provavelmente será uma eleição acirrada em outubro.
As forças obscuras que favorecem Flávio Bolsonaro
Assim como os EUA investiram milhões em esforços políticos e de propaganda para derrotar a esquerda e consolidar uma ditadura no poder durante a Guerra Fria, o Brasil também parece ser um campo de batalha crucial hoje. As altas tarifas americanas sobre as importações brasileiras coincidiram com uma desaceleração econômica, por exemplo. Além de os EUA rotularem criminosos brasileiros como terroristas.
O cientista político Celso Rocha de Barros não consegue acreditar que as pessoas não estejam debatendo mais sobre a interferência dos EUA. Esta não é uma eleição comum, disse ele ao The Guardian, porque a superpotência mundial está abertamente “estrangulando a economia brasileira” para ajudar Flávio, que “dará a eles tudo o que quiserem”. E ele adicionou:
Flávio fará um acordo sobre terras raras que nenhum outro presidente faria. Ele deixará as grandes empresas de tecnologia estadunidenses fazerem o que quiserem no Brasil. Ele reduzirá as relações econômicas com a China o máximo possível
A interferência dos EUA anda lado a lado com as tentativas de influenciar os eleitores com inteligência artificial e notícias falsas. O pai de Flávio chegou ao poder em 2018 graças a uma forte campanha de notícias falsas e quase se beneficiou de uma campanha semelhante em 2022.
Uma das táticas de Flávio tem sido tentar fazer com que as pessoas duvidem da integridade do sistema eleitoral brasileiro, apesar de, em geral, não apresentar problemas. O governo brasileiro chegou a negar vistos de entrada a dois funcionários do governo Trump que aparentemente planejavam disseminar notícias falsas a respeito disso. Os EUA responderam revogando o visto do embaixador brasileiro.
A propaganda não desaparecerá; mas os eleitores ainda podem comparecer e impedir o Bolsonaro 2.0
O Grupo Globo, por sua vez, é o maior conglomerado de mídia da América Latina. Alcançando 100 milhões de pessoas diariamente, utiliza softwares da Palantir e tornou-se um império graças ao apoio à ditadura brasileira durante a Guerra Fria. É evidente que se opõe ao partido de Lula e defende os interesses das elites, mas mantém uma relação de idas e vindas com os Bolsonaros.
Há também alguns receios de que os magnatas da tecnologia que apoiam Trump usem suas plataformas de mídia social para influenciar os eleitores a votarem em Flávio. Em parte, isso se deve ao fato de que os lobistas das grandes empresas de tecnologia têm se esforçado para se opor à regulamentação de fake news, assim como a extrema direita.
As comedidas tentativas do governo de regulamentar a propaganda digital parecem improváveis de impedir que a desinformação continue a contribuir para o aumento do apoio a Flávio.
Independentemente do resultado das eleições, a eleição brasileira será um divisor de águas. Ou aproximará o regime de Trump do domínio absoluto na América Latina, ou representará um obstáculo, dando esperança de que a região possa resistir e afirmar sua independência.
Original em: Brazil’s election is a pivotal moment for US imperialism in Latin America