Willer Tomaz, o elo do INSS, Covaxin, Master, Cláudio de Castro e Flávio Bolsonaro

A excelente reportagem de Patrik Camporeza, de O Globo, encontrou finalmente o elo perdido entre o escândalo do INSS, o caso Master, o escândalo das vacinas e Flávio Bolsonaro.

Devido à sua relevância, O Globo não teve como não publicar. Para minimizar impactos políticos, no primeiro dia, a matéria rendeu apenas uma chamada secundária na primeira página. No entanto, tratava-se, simplesmente, da reportagem mais relevante sobre o escândalo Master produzida até agora.

Willer Tomaz de Souza é esse elo perdido, interligando as maiores operações sobre suspeitas de corrupção da última década: o caso Master, o caso da vacina Covaxin e o caso do INSS.

Os membros da comitiva para a África do Sul compõem o desenho mais nítido dessa rede de alianças.

A viagem para a África do Sul

Vamos conferir os integrantes dessa viagem.

A Operação do INSS

Na nona fase da Operação Sem Desconto – a do INSS –, deflagrada em 4 de agosto, os investigadores da Polícia Federal descreveram Willer Tomaz como o “hub financeiro, patrimonial e logístico” do senador Weverton Rocha (PDT-MA). A expressão sugere que o advogado não seria apenas um prestador de serviços jurídicos ou um parceiro comercial, mas o operador de uma estrutura capaz de receber, movimentar e acomodar patrimônio ligado ao núcleo político investigado.

Essa definição é importante porque distingue os grandes escritórios de advocacia dedicados à defesa técnica de clientes daqueles que se transformam em parceiros de esquemas e articulações.

Segundo a PF, empresas relacionadas a Tomaz transferiram mais de R$ 11 milhões para Samya Rocha, esposa de Weverton. Outra operação examinada é a compra, por aproximadamente R$ 6 milhões, da casa de Brasília onde o senador residia. O imóvel foi adquirido pela WT Administração de Imóveis e Bens, empresa do advogado, mas a investigação afirma que Weverton participou diretamente das tratativas.

A estrutura atribuída a Tomaz incluiria empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários e operadores financeiros. Na hipótese dos investigadores, esse conjunto poderia ter servido para movimentar ou ocultar recursos provenientes das fraudes cometidas contra aposentados e de outros possíveis crimes.  UOL Metrópoles

As conexões entre Willer Tomaz e o Careca do INSS

As conexões conhecidas entre Willer Tomaz e Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, aparecem por meio de personagens que transitam entre seus respectivos círculos empresariais, contábeis e políticos.

O primeiro elo é Alexandre Caetano dos Reis, contador e proprietário de empresas do grupo Voga. Alexandre foi sócio de Antunes na offshore Camilo & Antunes Limited, sediada nas Ilhas Virgens Britânicas. A estrutura teria adquirido quatro imóveis em 2024, pelo valor total de R$ 11,05 milhões. O escritório de Willer atuou na defesa de Alexandre em ao menos um processo envolvendo a Voga Brasil Soluções Empresariais e Ambientais. Reportagem de O Globo também o identifica como representante do contador. Requerimento da CPMI O Globo

O segundo elo passa por Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre (o sócio do Careca) e administradora da Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia. Segundo o requerimento apresentado à CPMI, Letícia declarou ter sido indicada para o cargo por Willer, amigo pessoal de Flávio. Forma-se, assim, uma cadeia objetiva de relações: Willer indicou Letícia ao escritório de Flávio; Letícia é irmã de Alexandre; Alexandre foi apontado como sócio do Careca do INSS. Essa sequência comprova proximidades e intermediações.

O terceiro elo é financeiro. Um relatório citado pela Folha de S.Paulo registrou que Willer pagou R$ 120 mil, em 2021, a Milton Salvador de Almeida Júnior. Milton viria a tornar-se, em 2024, diretor de empresas de Antônio Carlos Camilo Antunes e foi citado como operador financeiro ligado ao núcleo investigado. Folha de S.Paulo

Willer afirma que o pagamento remunerou serviços de auditoria financeira prestados anos antes de qualquer apuração sobre Milton e que suas movimentações são lícitas e declaradas. Milton, por sua vez, disse ter prestado consultoria ao escritório do advogado e sustentou que sua relação profissional com Antunes começou apenas em junho de 2024, sendo encerrada após a deflagração da operação.

Há ainda uma ligação política indireta por meio de Weverton Rocha. A PF descreveu o senador como liderança e sustentáculo das atividades empresariais e financeiras de Antunes, enquanto atribuiu a Willer a função de “hub financeiro, patrimonial e logístico” da estrutura colocada à disposição do núcleo de Weverton. A hipótese investigativa, portanto, não se limita a contatos isolados: examina se os mesmos operadores, empresas e bens serviram de ponte entre o núcleo do Careca do INSS e a rede patrimonial atribuída ao senador.

A formulação mais rigorosa é que existem elos profissionais, societários, financeiros e políticos indiretos entre Willer e o núcleo de Antônio Carlos Camilo Antunes. 

Os negócios com Fabiano Zettel

Outra transação colocou Tomaz no raio de interesse do caso Banco Master. Em fevereiro de 2026, a WT Administração comprou por R$ 3,5 milhões um apartamento de 158 metros quadrados na Vila Nova Conceição, bairro de alto padrão de São Paulo.

O vendedor era Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e apontado como operador financeiro do banqueiro. Dez meses antes, em abril de 2025, Zettel havia adquirido o mesmo imóvel por R$ 5,5 milhões. Sem ter morado no apartamento, vendeu-o à empresa de Tomaz por R$ 2 milhões a menos — um deságio nominal de aproximadamente 36%. O pagamento teria sido dividido em R$ 2 milhões à vista e três parcelas de R$ 500 mil.

Por que Zettel aceitaria tamanha perda em menos de um ano? Qual foi a origem dos recursos usados pela WT? O preço refletia as condições reais do mercado ou ocultava alguma forma de transferência patrimonial entre os dois círculos?

A transação estabeleceu uma ligação patrimonial concreta entre sua empresa e o homem apontado como principal operador financeiro de Vorcaro. Folha de S.Paulo revista piauí

Aeronaves, helicópteros e imóveis de luxo

Bens ligados a Tomaz eram administrados pela Prime You, empresa de compartilhamento de aeronaves, helicópteros e imóveis de alto padrão da qual o banqueiro foi sócio.

Entre os ativos identificados estão aeronaves administradas ou operadas pela companhia, um helicóptero que ainda apareceria nos registros da Anac sob operação da empresa e uma participação em imóvel de Angra dos Reis. Uma aeronave ligada a essa estrutura também foi utilizada pelo governador Cláudio Castro para assistir à final da Libertadores de 2025.

Tomaz nega ter sido sócio da Prime Aviation. Afirma que detinha apenas participações minoritárias em estruturas de propriedade compartilhada e que recorreu à arbitragem para encerrar a relação comercial.

Os dados disponíveis mostram, porém, que existiu uma relação comercial e patrimonial com uma empresa da qual o banqueiro participou. Folha de S.Paulo

A ponte com Flávio Bolsonaro

É nesse ponto que a dimensão patrimonial se encontra com a política. Tomaz mantém relação pessoal próxima com Flávio Bolsonaro. Já foram noticiadas viagens, participações em eventos familiares, a utilização de uma casa ligada ao advogado em Angra dos Reis, o empréstimo ou a disponibilização de meios de transporte e a tentativa de indicar Tomaz para uma vaga no Conselho Nacional de Justiça.

O apartamento comprado de Fabiano Zettel acrescentou um novo elemento a essa relação: o imóvel foi usado durante a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.

A triangulação é politicamente explosiva:

Fabiano Zettel e o círculo de Vorcaro → empresa de Willer Tomaz → campanha de Flávio Bolsonaro.

Ela é factual quanto à sucessão patrimonial e ao uso do apartamento. O que permanece sem comprovação é se os atos obedeceram a um propósito comum. Folha de S.Paulo revista piauí

O capítulo de Angra dos Reis

A proximidade entre Tomaz e Flávio Bolsonaro também ganhou uma frente imobiliária. O senador apresentou proposta destinada a facilitar licenciamentos e empreendimentos turísticos em Angra dos Reis, onde o advogado possui imóveis por meio de empresas. Algumas dessas propriedades teriam características compatíveis com exploração turística.

A reportagem também apontou uma aparente rapidez na regularização ou transferência de um imóvel para Tomaz, em contraste com a demora enfrentada pelo jogador Richarlison em uma operação semelhante.

A suspeita é de possível favorecimento administrativo ou legislativo. Até agora, no entanto, não foi apresentada prova de que Tomaz tenha solicitado a proposta, participado de sua redação ou recebido decisão administrativa ilegal. O advogado nega qualquer participação. Folha de S.Paulo

Um antecedente de intermediação política

O nome de Willer Tomaz já havia surgido em uma investigação de grande repercussão. Em 2017, ele foi preso na Operação Patmos, derivada das delações da J&F. Na ocasião, foi acusado de participar da aproximação entre executivos do grupo e o procurador Ângelo Goulart Villela, suspeito de fornecer informações sigilosas sobre as operações Greenfield e Sépsis.

A tese era a de que o advogado teria ajudado a intermediar influência indevida dentro do Ministério Público. O episódio não pode ser automaticamente misturado aos fatos atuais. É relevante, entretanto, porque revela a recorrência de um mesmo perfil atribuído a Tomaz: o de intermediário entre empresários, políticos, patrimônio privado e agentes públicos.

O caso Covaxin

A participação de Willer Tomaz de Souza no caso Covaxin apareceu como uma linha de investigação da CPI da Pandemia, não como atuação comprovada na negociação da vacina. O nome do advogado surgiu quando a comissão tentou mapear pessoas próximas ao senador Flávio Bolsonaro e possíveis conexões delas com Francisco Emerson Maximiano, dono da Precisa Medicamentos, empresa que intermediou o contrato de R$ 1,6 bilhão para o fornecimento de 20 milhões de doses da Covaxin ao Ministério da Saúde.[1]

A reação de Flávio Bolsonaro

Após a menção do nome de Willer Tomaz na CPI da Covid, Flávio Bolsonaro pediu a palavra remotamente e reconheceu publicamente a proximidade, chamando Tomaz de “meu amigo advogado Willer Tomaz”. O senador protestou contra a apuração fiscal do advogado e acusou a CPI de tentar cercá-lo por meio de pessoas de seu convívio. A intervenção acabou reforçando politicamente a importância da relação entre os dois, embora não provasse o envolvimento de Tomaz no contrato da Covaxin.[Senado]

Reportagem do UOL informou posteriormente que a exposição na CPI teria provocado um afastamento entre Flávio e Tomaz. O advogado declarou manter relação “cordial e respeitosa” com Flávio e com senadores tanto da base quanto da oposição.[UOL]

O rastreamento de relações societárias

A CPI produziu requerimento administrativo à Receita Federal solicitando dados cadastrais, participações societárias dos dez anos anteriores e gráficos de relacionamento de onze pessoas, entre elas Willer Tomaz, Frederick Wassef, Ricardo Barros e Francisco Maximiano. O mesmo documento relacionava a Precisa Medicamentos, a Global Gestão em Saúde e empresas ligadas a Maximiano. A finalidade declarada era cruzar vínculos empresariais e verificar se os personagens integravam uma rede de negócios e influência. O requerimento disponível no Senado aparece marcado como “tornado sem efeito por erro material”.[UOL]

A revista Veja relatou que a frente de apuração partiu de informações obtidas sobre Maximiano e a Precisa e buscava conexões de Flávio Bolsonaro com empresários, lobistas e advogados envolvidos em contratos públicos. Tomaz entrou nesse rastreamento por sua proximidade com Flávio[Veja]

O caso Cláudio Castro

As relações com o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro eram intensas.

Willer foi advogado pessoal de Cláudio Castro. Em 22 de julho de 2021, Willer Tomaz protocolou no STF, em nome de Castro, uma petição sigilosa pedindo informações sobre a eventual existência de investigações contra o então governador. A petição solicitava informações sobre inquéritos da PF ou do Ministério Público que pudessem tramitar no Supremo (VEJA). Já naquela reportagem, Willer era identificado como amigo de Flávio Bolsonaro, enquanto Castro era aliado político do senador.

Em 28 de novembro de 2025, Castro viajou com a mulher e os filhos para Lima, no Peru, para assistir à final Flamengo × Palmeiras da Libertadores.

No mesmo avião estavam: Willer Tomaz e familiares e o senador Weverton Rocha e familiares. Segundo Castro, o convite para a viagem partiu de Willer, com quem afirmou manter amizade havia anos. (Band)

A aeronave usada na viagem era operada/gerida pela Prime Aviation/Prime You. Daniel Vorcaro havia sido acionista minoritário do grupo Prime You entre 2021 e setembro de 2025. (Band)

Willer tinha participação na estrutura de propriedade compartilhada da aeronave. Segundo sua versão, ele não era sócio da Prime Aviation nem proprietário individual do avião, mas detinha participação minoritária em uma estrutura de propriedade compartilhada administrada pela Prime. (C-Level)

Temos, portanto:

Willer Tomaz
↓ convida
Cláudio Castro + família
↓ viajam
aeronave em estrutura Prime

e:

Daniel Vorcaro
↓ havia sido acionista
Prime You

Por que o governo Castro tinha enorme exposição ao universo Master

Enquanto isso, entidades vinculadas ao Estado do Rio tinham realizado investimentos expressivos relacionados ao Master.

Segundo os números citados pela Band a partir do Tribunal de Contas estadual, o Rioprevidência tinha cerca de R$ 1,6 bilhão aplicado em fundos ligados direta ou indiretamente ao Master, enquanto a Cedae tinha R$ 200 milhões. (Band)

Durante o governo Castro, a Loterj realizou uma licitação para escolher a empresa responsável pelos meios de pagamento das apostas.

Havia dois concorrentes.

A Idea Maker ofereceu repassar 26%.

A Pixs Cobrança e Serviços em Tecnologia ofereceu inicialmente 20%.

A Idea Maker foi desclassificada porque escreveu 26,00% em vez de 26,000% — dois zeros depois da vírgula, quando o edital exigia três.

Restou a Pixs, que posteriormente fechou acordo de 26,455%. (Folha de S.Paulo)

Especialista em licitações ouvido pela Folha questionou esse formalismo, lembrando que a legislação procura evitar eliminações baseadas em exigências meramente formais. A Loterj afirmou que seu edital havia sido validado judicialmente e pelo TCE-RJ. (Folha de S.Paulo)

A diretora da Pixs era Lidia Maria Figueiredo Mazelli.

Segundo levantamento da Folha, Lidia aparecia como administradora ou diretora de dez empresas relacionadas a Willer Tomaz, incluindo empresas de aviação, comunicação e administração imobiliária. (Folha de S.Paulo)

E há um detalhe ainda mais significativo:

o próprio Willer disse que indicou Lidia para a Pixs. (Folha de S.Paulo)

Willer afirmou que ela atuava como administradora profissional em questões burocráticas e regulatórias.

A Pay Brokers, controladora da Pixs, apresentou uma versão parcialmente diferente: disse que Lidia era efetivamente diretora da Pixs e afirmou que Willer não tinha relação com a Pixs, embora tivesse defendido a Pay Brokers e/ou seus sócios em situações específicas. (Folha de S.Paulo)

A Pixs posteriormente passou a usar o nome RioPag.

Em 2026 surgiu uma disputa porque a Loterj acusou a empresa de deixar de repassar ao Estado cerca de R$ 20,9 milhões. A PGE-RJ passou a tratar o episódio juridicamente e a autarquia buscou recuperar os recursos. (Metrópoles)

Willer reaparece, desta vez de forma inequívoca:

ele é advogado da RioPag.

Willer afirma que atua apenas como advogado constituído, não é gestor, diretor ou controlador da empresa e que os recursos estão identificados e em processo de devolução. (SBC Noticias)

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