Futebol Feminino: nunca desejado, por Walter Moreira Dias
Na noite de quinta-feira, os maiores clubes do país publicaram um manifesto com título de fim de mundo: “O fim do futebol brasileiro”. Assinaram Palmeiras, Flamengo, São Paulo, Vasco, Santos, Botafogo, Fluminense, Grêmio, Cruzeiro e as federações de São Paulo e do Rio. O apocalipse tem causa: o governo estuda proibir os cassinos online e restringir a publicidade das bets.
O documento lista quem morreria primeiro. Clubes do interior, divisões de acesso, categorias de base, projetos sociais. E, no fim da fila, o futebol feminino.
E desde quando se importam?
Um caso emblemático. Em 2025, as Leoas do Fortaleza foram campeãs cearenses em cima do Ceará, venceram a primeira Copa Maria Bonita batendo o Sport na final e conquistaram o acesso inédito à Série A1, a elite nacional. Terminaram o ano invictas.
Em 29 de dezembro de 2025, o time feminino do Fortaleza foi extinto.
Três semanas antes, o time masculino havia caído para a Série B, e o regulamento da CBF só obriga a manter futebol feminino quem disputa a Série A. Acabou a obrigação, acabou o time. A nota oficial falou em “restrição orçamentária” e agradeceu às atletas pelo “legado”. Na mesma temporada, elas subiram de divisão e foram dispensadas.
E o rival local, o Ceará, já tinha feito o mesmo. Em março de 2024, três dias antes do Dia da Mulher, abriu mão da Série A2 alegando readequação orçamentária e avisou que redirecionava atenções e esforços ao futebol profissional masculino. As jogadoras souberam pela imprensa. Em dezembro de 2025, com o rebaixamento do time masculino para a Série B, o mesmo Ceará aprovou orçamento maior para o feminino em 2026. Pode ser escolha, e não simplesmente gasto.
E é isso o que “não cabe” no orçamento. O futebol feminino consome, em média, entre 1% e 2% do que os clubes gastam por ano. Um levantamento do jornal Extra, em 2019, não encontrou um único clube da Série A acima de 1%. Não é o que quebra um clube. Mas é o que se corta primeiro.
Em janeiro de 2019, quando a CBF e a Conmebol passaram a exigir time de mulheres de quem disputa a Série A e a Libertadores, cinco clubes da elite não tinham nada, nem projeto no papel: Avaí, Botafogo, Cruzeiro, Palmeiras e Fortaleza. Os cinco se adequaram às pressas, por obrigação.
O Mirassol repete o gesto em 2026. Classificado pela primeira vez para a Libertadores, esbarrou na cláusula da Conmebol e montou um time do zero, com CT próprio e contratos profissionais.
E temos as origens deste processo. No Brasil, o futebol de mulheres não foi apenas ignorado por décadas: foi proibido por lei. O Decreto-Lei 3.199, de 1941, assinado por Getúlio Vargas, vetava às mulheres a prática de esportes “incompatíveis com as condições de sua natureza”. A proibição só caiu em 1979 e a modalidade só foi regulamentada em 1983.
Quase quarenta anos do Estado brasileiro decidindo que futebol não era coisa de mulher. Depois, mais quarenta anos dos clubes, em geral, secundarizando e escanteando o futebol feminino. Só em 2019 uma regra os obrigou.
Agora é usado como chantagem para defender as bets.
E, se a ameaça se cumprir, ele cai primeiro. Não porque o dinheiro das apostas o sustente, mas porque, na hierarquia dos cortes, ele sempre esteve no topo da lista. O manifesto não revela uma ameaça. Escancara a ordem de prioridade e a persistente desvalorização do futebol feminino.
Sobre as bets, é óbvio. Nenhum clube que se afirma “do povo” deveria ser signatário de um manifesto deste tipo. Somente no mês de agosto de 2024, segundo o Banco Central, cinco milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram três bilhões de reais às casas de apostas via Pix. Um em cada cinco reais pagos pelo programa naquele mês. Em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets, segundo levantamento com dados do Banco Central. Quase 270 mil famílias entraram em inadimplência grave por causa delas, segundo estudo da CNC, a confederação do comércio.
O manifesto “reconhece os impactos sociais” e, na prática, pede que nada mude. O futebol, que para surpresa de muitos já existia antes das bets, hoje assume que vive do dinheiro que elas tiram de quem tem menos.
O futebol feminino é o escudo. As classes populares são a fonte dos recursos.
Abrir mão das bets não deveria ser dilema. A conta cairia sobre os salários inflacionados do futebol masculino e sobre a pretensão de hegemonia intransponível dos clubes brasileiros na América do Sul. Triste é não reconhecer a dívida histórica com o futebol feminino e ainda usá-lo como chantagem.
Walter Moreira Dias é doutorando em Educação (UFF), mestre em Sociologia e Antropologia (UFRJ) e graduado em História (UFF). Professor da SEDUC-Maricá e SEEDUC-RJ e autor de “Futebol é Política” (Dialética, 2024)
LATERAL ESQUERDA – Parceria dos professores e pesquisadores Christian de Morais, Henrique Alvarez, Luander Rocha e Walter Moreira Dias.
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