
Em 2012, fiquei pela primeira vez diante do ex-jogador de futebol gaúcho Alcindo Martha de Freitas. Ele era meu ídolo desde criança. Fui entrevistá-lo e marcar uma visita dele ao Estádio Olímpico, que seria demolido. Morava no Campo Novo, na zona sul de Porto Alegre.
Alcindo foi o maior goleador do antigo estádio do Grêmio, com 129 gols. Mas não desista deste texto se não gosta de futebol, porque este não é um artigo sobre futebol. É sobre ídolos e referências inspiradoras.
O centroavante Alcindo foi o único ídolo genuíno que tive desde os 12 anos e até aqui. Quando o encontrei, ele havia completado 67 anos. Estava com diabetes severa. Tinha ataduras de gaze nas pernas. Sentou-se diante de mim e essa foi a primeira frase que eu lhe disse: tu és meu único ídolo.
O Bugre Xucro forte e impetuoso, que foi à Copa de 66 na Inglaterra e jogou com Pelé no Santos nos anos 70, era agora uma figura frágil. Respondeu com um sorriso tímido e um muito obrigado. Falava com voz baixa e parecia não saber direito o tamanho que tinha, porque até a torcida do Grêmio já não sabia mais.
Fomos ao Olímpico no dia seguinte. Publiquei quatro páginas sobre a visita em Zero Hora. Alcindo morreu quatro anos depois, e o estádio que iriam implodir ainda está lá, caindo aos pedaços.

Escrevo sobre Alcindo para perguntar a quem me lê: quem é ou quem foi seu ídolo e o que isso importa hoje? Se não for ídolo, porque essa seria uma definição de gente velha, quem é a figura pública que merece sua admiração e reverência e o inspira?
Gandhi, Pelé, Luther King, Madonna, Elvis? Foi ou é Che Guevara? Brizola, Getúlio, Madre Teresa, Steve Jobs, Malala Yousafzai? Pode ser uma figura próxima, um ídolo paroquial, um professor, um religioso vivo ou morto. Qual é o sentido de ainda ter um ídolo, num mundo em que os sentimentos sobre história, memória, afetos e exemplos se degradaram?
Hoje, entre as mulheres brasileiras, a ministra Cármen Lúcia é uma dessas figuras admiráveis, segundo mulheres e homens. Mas vá dizer numa roda de conversa da família ou de amigos que admira Cármen Lúcia. Diga, sabendo dos riscos, que admira Alexandre de Moraes.
As preferências por nossos ídolos, heróis ou nossas referências de valores se transformam em controvérsias, debates ou guerras. Mesmo que essas escolhas nunca tenham sido consensuais, porque não orientamos a vida por consensos e muito menos por unanimidades.
Mas por que hoje o ídolo de alguém vira um duelo de argumentações pró e contra, se essa é uma escolha pessoal? Talvez porque tudo tenha virado polarização política. Tudo circula pelos extremos e precisa de contrapontos ou equivalências. Tudo, à esquerda e à direita, fica chato e cansativo.
As escolhas são escrutinadas pelos outros, porque ficou bacana até dizer: meu ídolo é um fascista. Mais do que dizer que é de direita. Dizem, e exaltam, que é um fascista. Dizem no Brasil, na Argentina, no Chile.
Pinochet voltou a ser ídolo entre os chilenos. Noticiam que o general Leopoldo Galtieri, que provocou a guerra das Malvinas em 1982 e levou 649 jovens à morte, é ídolo de novo na Argentina. Porque Javier Milei precisa resgatar o patriotismo como resposta ao aumento do desemprego e da miséria.
No Brasil, Brilhante Ustra, o maior dos torturadores da ditadura, é ídolo declarado de parte da extrema direita. Declaram respeito, admiração e até paixão por bandidos acusados de crimes de lesa humanidade, que nunca foram punidos no Brasil.
Teve um tempo, nem tão distante, em que referências a ídolos não exigiam grandes explicações. A construção da ideia de que há figuras exemplares se sustentava, por exemplo, nas muitas variações de afetos e seus amplos significados, como no caso dos ídolos do futebol, por suas vidas edificantes.
Com a expansão da intolerância, os ídolos de hoje podem ser, ao contrário, inspiradores de ódio, discriminação, preconceito, violência e guerra. O mundo que só andaria para a frente, a partir dos séculos do Iluminismo, não volta necessariamente a andar para trás.
Pode andar tão rapidamente para a frente a ponto de indicar que, daqui a alguns anos, nossos ídolos serão figuras virtuais. A partir da constatação de pesquisas, como a do Instituto Locomotiva, segundo a qual 58% dos brasileiros se entendem melhor conversando com a inteligência artificial do que com familiares e amigos.
Só duvidam que os ídolos do século 21 não terão rosto os que nunca conversaram com um robô para se queixar, entre outras coisas, que o mundo está cada vez mais sem líderes fortes e sem ídolos.
Originalmente no Extra Classe