Varrão e a quarta idade do mundo
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Na Antiguidade as idades do mundo foram divididas de diversas maneiras de acordo com cada cultura. Falarei aqui apenas de uma dessas divisões por razões que ficarão claras ao longo do texto.
Marco Terêncio Varrão (116–27 a.C.) foi o maior erudito, polímata e escritor da Roma Antiga no século I a.C. Ele provavelmente retomou de Eratóstenes (século III aC) a divisão das idades do mundo em três fases distintas. A passagem importante de Varrão abaixo transcrita nos é transmitida pelo gramático Censorino:
“Um primeiro tempo que se estende dos primórdios da humanidade ao primeiro cataclisma, e que, em razão da nossa ignorância, é chamado de obscuro (adêlon). O segundo tempo vai desse cataclisma à primeira olimpíada (776 aC); em razão dos inúmeros relatos fabulosos que lhe fazem referência, ele é chamado de mítico (muthikon). O terceiro tempo vai da primeira olimpíada aos dias de hoje, e é chamado de histórico (historikon), pois o que nele se passa é relatado em histórias verídicas.” (Chronos – O ocidente confrontado ao Tempo, François Hartog, editora Autêntica, Belo Horizonte, 2025, p. 147)
Nas últimas duas décadas a internet está liquefazendo a história e a sua percepção compartilhada em virtude de “realidades alternativas”, “histórias alternativas”, “verdades alternativas”, fake news, desinformação, fake science, campanhas de ódio, etc… passaram a ser impulsionadas com lucro pelas plataformas de internet norte-americanas, fenômeno que o escritor e ativista Cory Doctorow chamou de enshittification (ou bostificação) da internet. E para piorar, nos últimos meses boa parte dos conteúdos postados e impulsionados nas redes sociais são criados por agentes IA ou com ajuda de IAs, algo que está sendo denominado slopification da internet.
Se levarmos em conta o que está ocorrendo (enshittification e slopification) seremos obrigados a acrescentar à divisão do mundo feita por Marco Terêncio Varrão uma quarta idade. Isso porque estamos saindo da historicidade e entrando num admirável mundo novo em que a história já desempenha um papel nitidamente desimportante.
O caso da guerra da Ucrânia é exemplar. Do ponto de vista russo, esse conflito militar tem uma origem histórica precisa: a expansão para o leste da OTAN, algo que o Ocidente prometeu à Rússia que não ocorreria quando a URSS deixou de existir; as ameaças e agressões militares ucranianas contra a população de origem russa no leste da Ucrânia foram denunciadas pelo Kremlin durante quase uma década antes da Rússia se movimentar para evitar o etnocídio e o genocídio planejados em Kiev. Mas na Europa e nos EUA, entretanto, predomina a “verdade alternativa” repetida exaustivamente pelos líderes políticos e jornalistas e replicada infinitamente na internet de que a Rússia invadiu ilegalmente a Ucrânia sem provocação ou motivo justo.
Não estamos diante de duas histórias, mas de uma verdade histórica e uma versão falsificada da história que foi criada e compartilhada para justificar o apoio ocidental à Ucrânia. À medida que o conflito se torna mais violento e dramático, a paz baseada numa avaliação histórica compartilhada e desapaixonada das motivações do conflito se torna mais e mais improvável. Não existe um ambiente conceitual comum em que russos, ucranianos, norte-americanos e europeus possam negociar.
Retornamos ao tempo obscuro ou ao tempo mítico? Vivemos numa era qualitativamente daquelas mencionadas por Marco Terêncio Varrão?
Sem dúvida a fase atual é diferente da fase mítica. Isso porque a história não desapareceu completamente. O problema é que ela não pode mais ordenar e estabilizar as relações pessoais, institucionais, militares e internacionais como no passado. As inovações tecnológicas que deram origem à enshittification e à slopification criaram um ambiente fluido quase místico em que predominam ou podem predominar a technitá kataskevasména psémata (mentira artificialmente construída).
Não retornamos ao passado muthikon, nem adentramos ao novo adêlon. Todavia, devemos reconhecer que não avançamos mais em segurança para o futuro com base numa historicidade conhecida, reconhecida e reverenciada por todos em todos os lugares. E nada indica que será possível interromper a kataskevasména psémata. Essa quarta idade do mundo seguirá em frente produzindo estragos cognitivos, diplomáticos e históricos.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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